Muitos costumam dizer que o homem é fruto do meio em que vive, e diversos são os fatores (sejam eles externos ou internos) que podem ‘corromper’ a sua índole. Com base nesses argumentos e de acordo com o decorrer da sua trajetória na cultura POP, o Coringa foi diversas vezes escrito para servir como exemplo de que um simples dia ruim pode mudar a vida de uma pessoa, independente de seus ideais; e agora, depois de quase 80 anos de história e diversas interpretações a seu respeito, o personagem ganha um filme solo para mostrar o seu passado e como sua história ficará marcada para as próximas gerações.

Num momento onde adaptações de quadrinhos estão vindo a todo vapor, escolher fazer uma história de origem do Príncipe Palhaço do Crime parecia ser uma ideia arriscada, tendo em vista que o mesmo já teve seu início de carreira “estabelecido” nos quadrinhos em A Piada Mortal (o que já serviria como um bom material de história) e também passando nas mãos de diversos diretores que tentaram trabalhar ao máximo sua vilania como o contraponto principal nas aventuras do Batman junto a atores que entregaram performances um tanto quanto memoráveis (e algumas desastrosas que preferimos esquecer) de um ícone tão aclamado. Dessa vez nas mãos do diretor Todd Phillips (Se Beber, Não Case), conhecemos uma nova origem do grande vilão; uma origem que não busca ter tantas referências a um universo maior já estabelecido nos quadrinhos ou filmes do universo DC, mostrando como Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) chegou ao título do Coringa como conhecemos e também dá destaque aos problemas psicológicos que cercam a vida do vilão.

O personagem entregue por Phoenix é incrível, trazendo uma performance dedicada, desconfortável e visceral do ator que brilha desde o seu primeiro segundo em tela. O ator se mostrou perfeito na entrega de um ser humano instável entre a loucura e a inocência, capaz de nos trazer empatia e medo por alguém que só deseja ser reconhecido como uma pessoa que espalha a alegria e o riso pelo mundo. 

Embora muitos possam sair da sessão dizendo que sua atuação se aproxime mais da performance do eterno Heath Ledger (que ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante como o vilão em Batman: O Cavaleiro das Trevas), é possível enxergar que existem toques completamente únicos que só um ator do calibre de Phoenix poderia entregar; ao começar pela sua risada, que no longa é descrita como um distúrbio neurológico de Arthur que o leva a ter ataques de risos involuntários nos piores momentos possíveis, e os momentos onde essas coisas acontecem chegam a causar um certo desconforto físico para quem está assistindo, nos fazendo sentir um pouco de vergonha e pena por presenciarmos tamanha situação bizarra em cena. Além disso, a magreza que o ator mostra em tela também é agoniante sempre que ele aparece sem camisa em cena, mostrando de vez a entrega do ator a uma atuação cheia de nuances e camadas perfeitas, o que chega a ser difícil de definir de que maneira deveríamos nos relacionar com aquela figura louca, instável e com uma inocência macabra que ele vai acaba se tornando mais a frente. Com o que foi entregue no filme, é esperado que Joaquin Phoenix seja lembrado nas premiações de cinema - e que possa ganhar como Melhor Ator no Oscar 2020.

Mas para que essa mensagem fosse muito bem transmitida, foi precisa a incrível direção de Todd Philips no longa, que se mostrou um apaixonado não só pelo personagem em si, mas também pelos clássicos do cinema dos anos 70 e 80 que servem como suas principais referências que encantam do começo ao fim da sessão, dando destaque aos filmes do diretor Martin Scorsese, onde claramente Phillips teve sua maior fonte de pesquisa e inspiração.

O diretor já havia negado diversas vezes que não dirigiu um filme que vangloriasse a violência ou um criminoso, e ao assistir o filme, podemos enxergar que Phillips parecia mais interessado em contar sobre os desvios sociais que foram responsáveis pela desordem do protagonista do que enfatizar seus atos descontrolados e doentios, criando um ar provocativo em suas ações ao longo das 2 horas de filme.

Após olharmos os quesitos de atuação, direção e roteiro, é chegada a hora de falarmos sobre as mensagens que o filme passa para público.

Coringa é um retrato da loucura de alguém cuja vida não deu a menor chance de ser feliz, e isso claramente não é uma mensagem agradável, o que pode conversar com o público de maneiras diferentes. No entanto, o filme não pretende se focar em glamorizar a violência, pois o principal comentário social do filme é mostrar que o sistema que beneficia uns pode acabar desprezando os outros, e o personagem de Thomas Wayne (Brett Cullen) é inserido como a ideia do político hipócrita que finge possuir qualquer empatia pelos oprimidos de sua cidade (nesse caso estamos falando de Gotham City), e é contra os ideais que essa persona representa que o Coringa acaba virando símbolo, mesmo que de forma involuntária, pois Arthur acaba sendo o precursor de uma revolução quando estava apenas se defendendo, e as consequências dessas ações fizeram dele o representante principal dos oprimidos de Gotham.

Coringa  chega aos cinemas como uma das principais obras do ano por ter uma narrativa sofisticada e turbulenta, além de ser um exercício dramático e estiloso de direção sobre um grande personagem da cultura POP que vai marcar a produção dos filmes baseados em histórias em quadrinhos.