Filmes indicados ao Oscar normalmente possuem uma carga dramática acima da média, o que representa que nem sempre são produções fáceis ou mais leves de se assistir. A Voz Suprema do Blues entra na briga com 5 indicações, duas delas entre as principais categorias da premiação com Melhor Ator e Melhor Atriz. E com todo esse histórico e apelo, o filme não decepciona, apesar de, novamente, deixar claro que esse não é um filme para qualquer um assistir.

O longa é baseado em uma peça de teatro de August Wilson, o que por si só já gera um desafio a mais na sua produção. O filme não pode perder sua característica teatral, mas também não pode se resumir a isso e precisa atender requisitos cinematográficos, o que atinge com maestria.

A edição e montagem de A Voz Suprema do Blues é impecável. A direção de George C. Wolfe acerta muito em trabalhar esses dois requisitos com os atores, para transparecer uma fluidez que é facilmente sentida.

A história do filme é simples e ao mesmo tempo complexa. O longa se passa na Chicago dos anos 20, quando o racismo era algo ainda pior do que vemos nos tempos atuais. Nele uma figura se destaca: Ma Rainey, interpretada por Viola Davis, que ficou conhecida como a “Mãe do Blues”. Ela e sua banda fazem sucesso nos Estados Unidos e o filme traz bem uma vertente dos aspectos cômicos e trágicos da experiência dos africanos-americanos no século XX.

Um adendo importante que é necessário ressaltar é que o filme teve grande apelo para ser lançado em junho, quando os protestos do Black Lives Matter explodiram por todo o país, porém a vontade do diretor foi voto vencido entre os executivos da Netflix. O filme, no entanto, não perde sua essência de denúncia e caráter atemporal.

Mas voltando a história, em Chicago, Ma e sua banda irão gravar um disco em um estúdio de gravação da cidade. Lá, junto com o calor da época, os ânimos se esquentam em disputas intensas entre ela e o seu trompetista Levee (Chadwick Boseman), que tenta atrair mais holofotes para si, e entre a cantora e a gerência de homens brancos que querem mandar em sua música.

A atuação, como esperado, é potente. Mas é preciso destacar a força e grandeza que Chadwick ganha em tela, mesmo tão magro e aparentemente frágil, mas que quando abre a boca faz maravilhas. Muitos podem dizer que não ficaram tão impactados com o ator, mas a diferença que ele faz na história se sobressaindo até mesmo a Viola Davis, mostra um lado despojado, malandro e dramático que ainda não tínhamos nos acostumado a ver.

Isso se entrelaça ao fato desse ser um dos últimos trabalhos do ator antes de nos deixar vítima de um câncer que ele lutava há anos. E ver essa atuação brilhante e tão forte, cheia de altos e baixos, com emoções que exigiam ainda mais do físico do ator, é de deixar qualquer um impactado.

E obviamente que Viola se mostra impecável em sua atuação, com feições que só ela consegue entregar e uma presença em tela invejável. Porém a impressão que passa é que não dá para se surpreender mais. Ela é potente assim mesmo, como já conhecemos, e entrega exatamente o que desejamos. Ela nos sacia e ainda abre espaço para que Boseman brilhe ainda mais junto com ela.

A rivalidade entre os dois, no entanto, me passa a impressão que foi pouco explorada. Veja bem, o jovem trompetista é ambicioso e egocêntrico, que só quer viver bem e ter sucesso e ele bate de frente demais com Ma, mas ela nunca corresponde à altura, só o menospreza. Acho que faltou um pouco mais de tensão e até mesmo um embate mais musical, como sugere o filme no começo.

Outro desafio importante que o filme enfrenta é o fato de se passar inteiramente dentro do estúdio. A atmosfera abafada e escura deixa a todos com um sentimento de agonia, como se a qualquer momento alguém fosse explodir. E olhe que todos os monólogos dos personagens, inteiramente alinhados uns com os outros, nos deixam a impressão que a qualquer momento um surto acontecesse de forma que ninguém fosse conter, como bem vimos em seu final.

Todo aquele suor escorrendo, as luzes fortes sobre os protagonistas com roupas extravagantes e muita maquiagem, além do tango perfeito feito pelo texto de seus personagens dá um ar mágico e intenso a esse filme que tem tudo para sagrar Viola Davis como Melhor Atriz e dar o seu merecido prêmio e uma justa homenagem a Chadwick Boseman.