Depois dos controversos Batman vs SupermanEsquadrão SuicidaLiga da Justiça, os fãs da DC ficaram desacreditados em relação as representações cinematográficas de seus heróis favoritos, e se seriam novamente bem adaptados, tal qual ocorreu com Watchman, Homem de Aço, Mulher-Maravilha e a trilogia Cavaleiro das Trevas. A aposta para o ressurgimento da gigante de heróis foi no carismático e até então pouco aproveitado, Aquaman. James Wan levou às telas do cinema, um personagem engraçado, exibido e um tanto desastrado, para contar o princípio de sua jornada de forma que mescla drama e humor, no filme que sem dúvida é a fênix da nova DC nos cinemas. Aquaman é, em cada detalhe, planejado com e por amor.

Ele é mais que um rei, é um herói, e a tarefa de James Wan foi transformar um mestiço no único símbolo capaz de harmonizar os dois mundos que existem no planeta, o reino terrestre e o reino aquático, sob o aspecto histórico da mitológica cidade de Atlântida. O roteiro de Will Beall cumpre a missão de apresentar o jovem rei em toda sua inexperiência e herança genética de liderança, dentro do aspecto narrativo do conceito cíclico de Joseph Campbell, utilizado na maioria de filmes com mesma incumbência, a jornada do herói.

No entanto, mesmo com a utilização dessa "teoria clichê", Will Beall conseguiu unir as melhores características narrativas dos filmes mais aclamados pela cultura POP, utilizando a literatura clássica mundial e fazendo críticas severas, ainda que pontuais, a experiência humana e o trato do homem para com a natureza. O roteiro atravessa temas como poluição, teorias filosóficas, estilo de vida, tecnologia, ganância, conhecimento, meritocracia e teorias científicas de física e geografia, como a ideia da terra oca e o conceito atualmente discutido de terra plana. 

Referências? Temos! O longa contém grandes menções a livros, filmes e indústrias do cinema em vários de seus aspectos. A fotografia, que exibe Atlântida estonteante e como um glorioso reino, faz alusão à Avatar, Procurando Nemo, Free Willy, Star Wars, A Pequena Sereia, Piratas do Caribe, Superman e O Senhor dos Anéis. Essas insinuações ocorrem através das cores, e de cenas épicas dos filmes citados mas adaptadas para o longa do herói. As cenas de luta são igualmente bem feitas, com coreografias de tirar o fôlego, cheias de ação, utilizando como cenário locações amplas, vários cenários em diversas cidades para além dos sete mares. Os efeitos visuais são alucinantes, e o 3D é uma peculiaridade à parte. Há profundidade, não somente altura e largura, mas nitidamente a pós-produção foi feita com muita cautela, especialmente por causa do elemento mais importante do filme, a água. 

O realismo do elemento é de tal maneira que nem parece ter sido feito por computador. Esse é o elemento mais difícil de fazer digitalmente, e as cenas que contém diálogos e batalhas, foram filmadas no ar, então a água foi acrescentada na pós-produção, fazendo com que o elemento fosse mais palpável. O figurino dos personagens são bem fiéis as versões dos quadrinhos e desenhos animados, mas possuem uma elegância moderna, o que os deixa ainda melhores. É um filme lindo de se ver, uma verdadeira obra de arte, que certamente deve estar indicada nas premiações do primeiro trimestre do ano que vem. Acompanhado de uma trilha sonora tão incrível e representativa que consegue conciliar drama, comédia, romance e irreverência, ao utilizar batidas de rock e muito metal nas cenas do protagonista.

Namore alguém que tenta decifrar seus pensamentos igual o Artur faz com a Mera

Sobre as atuações posso dizer que só consigo enxergar Jason Momoa como Aquaman. Ele é tudo que o personagem, o diretor e roteirista precisam que ele seja. Faz um herói que erra, que é orgulhoso e até impiedoso e injusto graças a sua natureza humana. Tem carisma, porte físico, o deboche clássico, e um olhar que seduz até o mais cruel tubarão, de tirar o fôlego... pobre Mera, difícil resistir! E por falar nela, Amber Heard é tudo que sua personagem necessita. É uma princesa no estilo Ariel de ser, que vai muito além do cabelo. Ela é determinada, divertida, ética e têm valores que a obriga a fazer o que é certo mesmo que seu coração não goste. Ainda sim, sua Mera é uma princesa moderna, cheia de pulso firme e elegância típicos de uma feminista clássica. Yahya Abdul-Mateen II é o arraia negra, e faz uma boa participação como vilão secundário. Ele tem um estilo que me lembrou muito o vilão do Pantera Negra, mas certamente sua aparição principal será num futuro longa do Aquaman. E sobre o real vilão do filme, o Ormi Marius, interpretado por Patrick Wilson, tem uma motivação comum a filmes do gênero, e possui uma boa atuação dentro das condições de seu personagem.

James Wan certamente foi a melhor aposta da DC e Warner para comandar esse filme. Sua humilde câmera rodou o universo de seus filmes favoritos, e homenageou os diretores mais autênticos do cinema, cujos projetos são conceituais e autorais para inspirar seu melhor projeto, e um dos melhores trabalhos desse universo de heróis no cinema. Embora esses estímulos possam ter contribuído para sua obra, o mérito do êxito é todo seu. Porque Aquaman não é só mais um filme engraçado e divertido para a família, ele tem conceito, tem essência, tem alma, tem debate, e consciência do que representa para a DC no momento. A liberdade que a Warner deu para James Wan foi primordial para o brilhante cumprimento da árdua tarefa de transformar um herói secundário num ícone para a nova geração de cinéfilos. James Wan é um nerd apaixonado, que conseguiu conduzir seus sentimentos e ideias a culminarem em um dos melhores filmes do ano. Certamente ele tem muito mais para nos mostrar, e como somos felizes por tê-lo nesse projeto. 

Por fim, Aquaman já se transformou num símbolo só por sua ousadia e história cheia de romances, química, cores e muita água. Das profundezas do oceano ao topo do mundo, a DC renasce das cinzas e retorna aos seus dias de glória, pois Aquaman mostrou um novo padrão herói de qualidade que vai ser difícil de ser superado. Quem ganha é a cultura Pop. Viva o cinema!