Quando penso em franquias de horror, vejo que nenhuma escapa da temida turbulência. É um processo comum no universo pop, afinal de contas: o estouro de bilheteria leva os estúdios a reciclarem a mesma trama quinhentas e oitenta vezes. Não que eles se importem muito com isso: é notório o quão fiéis os fãs de terror são, e o fato é que criatividade não importa em nada quando sua plateia é algo garantido.

Ainda assim, o ideal seria mesmo um maior cuidado e carinho da equipe com os vilões favoritos do horror (Freddy, Jason, Leatherface, Jigsaw e Michael), que tanto conquistaram o público. No entanto, ao longo das décadas, o que se vê é o desgaste inevitável de todas essa franquias.

Felizmente, não é o que ocorre na maior parte da filmografia Halloween (ufa!). Mas quando acontece... você provavelmente vai implorar por uma lavagem cerebral. Um exemplo é o ótimo Hallowen H20, que teve seu belo encerramento totalmente destroçado por sua sequência, devido à ganância dos produtores e a rigidez de cláusulas contratuais. Um show de horrores, no pior dos sentidos.

A franquia possui 12 filmes no total - dentre eles, várias linhas temporais. Enquanto o suspense é garantida nos ótimos Halloween I, II, IV e H20, somos bombardeados pelas edições V, VI, Ressurrrection e os remakes criminosos do músico e cineasta Rob Zombie. Ao longo das décadas, acompanhamos adolescentes promísculos sendo degolados, um psiquiatra obcecado pelo assassino, uma seita druida e até mesmo um reality show na casa de Michael Myers, além de alguns (muitos) tropeços. E agora, 43 anos após o lançamento do filme original, fico boquiaberto ao constatar que ainda há como tirar leite de pedra da franquia. Os recentes Halloween Returns (2018) e Halloween Kills (2021) não me deixam mentir...

Assim como seu antecessor, Halloween Kills mantem um inteligente trabalho de fotografia e iluminação. Filmar o mascarado do facão não é tarefa fácil, qualquer erro pode ser fatal ao suspense, mas não é o que ocorre aqui. Ao contrário de muitas mortes no gênero, aqui os assassinatos são dilatados, extreamamente brutais e, por vezes, criativos, enaltecendo o slasher da melhor forma - um salve para a cena dos bombeiros! Michael continua sendo registrado como a figura enigmática e distante do humano que sempre fora, aproximando-se das lentes da câmera apenas em momentos cruciais de suas vítimas.

Temos ainda o retorno de personagens do filme original, o que alimenta a nostalgia pela trama de 1978. No entanto, eis aqui um dos equívocos do longa: qual a finalidade em trazer flashbacks e rostos antigos? São poucos os momentos em que realmente agregam valor à história, ocasionando mais cenas maçantes do que tensão de fato - com exceção da interessante perseguição de Michael à Lindsey Wallace (interpretada por Kyle Richards, em 1978 e 2021).

Somado a isso, temos um plot sobre a justiça cega, que evoca diretamente o espírito do americano médio (o famoso conservador armamentista que ajudou a eleger o laranjinha). Ainda que muitos não tenham visto justificativa em ver a cidade caçando Michael Myers, é importante imaginar o quanto uma figura monstruosa como ele impacta na mitologia de uma cidadezinha pacata. 1965, 1978 e, agora, 2018: já é a terceira vez que Michael promove uma verdadeira chacina em Haddonfield. E quando a tarefa é capturar Myers, a polícia local parece mais obsoleta do que um Game Boy. Sendo assim, não é difícil compreender a razão do sangue efervescente nos olhos dos cidadãos. 

No entanto - retomando meu ponto inicial - frases de efeito como "O mal morre hoje/ Hoje nós caçamos Michael Myers/ O bicho-papão vai morrer" infelizmente removem parte do potencial da rebelião. Aqui, o posto de personagem sensata vai para Karen, a filha de Laurie (Jamie Lee Curtis). Enquanto sua filha tenta vingar a morte do pai e a mãe, ainda ferida, tenta sair do hospital, Karen tenta trazê-las à razão, além de ir na contramão do mundo ao ajudar um homem "jurado de morte".

Já Laurie, a querida final girl dos anos 1970, não possui participação ativa em Kills - o que é perfeitamente compreensível devido ao seu estado físico debilitado. É uma "inércia" fundamental para a coerência da trama. Seria de extremo mal gosto com a personagem ignorar os danos acumulados de Halloween Returns (2018), ainda que o terror exija uma suspensão de descrença. Portanto, este filme do meio mantém o peso de seu trio de protagonistas, transformando ainda a jovem e pacata Allyson em mais uma caçadora voraz de Michael Myers.

A cereja do bolo vai para a cena final: brutal e visceral, como é esperado. No entanto, obiamente degustará mais de Halloween Kills quem tiver preferências pelo slasher e ignorar certos detalhes narrativos - que, no final das contas, podem ser relevados quando se leva em conta o principal: a atmosfera de medo em si. Além do quê, trata-se de um filme do meio da trilogia: não há a menor chance de haver resoluções aqui, apenas uma continuação do palco sangrento estabelecido em 2018.

Depois de um primeiro filme elogiado pela crítica e um segundo com opiniões divididas, o que esperar do aguardado Halloween Ends? Quando se trata de uma figura maligna e quase imortal como Michael Myers, podemos mesmo crer num final definitivo? Talvez um exorcismo não seja lá uma alternativa tão ruim daqui pra frente. Ficamos no aguardo e na torcida pela queridíssima e eterna Laurie Strode!