Um homem de caráter duvidoso, um crime, uma fêmea fatal e uma atmosfera sombria e melancólica. Todos estes fatores dão o tom noir a esse subgênero do suspense. Bastante popular nas décadas de 40 e 50, o noir ainda é explorado por alguns cineastas, e classificado por muitos críticos como uma espécie de neo noir. Pois bem: aqui estamos diante de um ótimo exemplar, dirigido por ninguém menos que o grandioso Guillermo del Toro!

Bradley Cooper interpreta o Stanton Carlisle, um homem recém-chegado a um circo de horrores, em busca de uma oportunidade de trabalhp. De personalidade aparentemente introvertida, ele logo se mostra mais esperto do que parece, agarrando todas as oportunidades à sua frente. Não demora para que Stanton dê uma rasteira nos únicos amigos: a vidente Zeena - interpretada pela sempre brilhante Toni Collette - e seu marido Pete (David Strathairn). A partir daí, o longa embarca num jogo perigoso, onde o protagonista não parece enxergar quaisquer limites.

Antes de me prolongar sobre o roteiro, é importante ovacionar a incrível produção de arte - típica da filmografia de del Toro! A primeira parte do filme, apesar de exageradamente longa, nos traz um visual impecável sobre a extravagância e bizarrice do circo. Toda a melancolia do final da Grande Depressão é retratada aqui, através de cores sóbrias - ora puxadas para os tons terrosos, ora para os aquático esverdeados.

A ideia de ganhar a vida a qualquer custo é absorvida tranquilamente pelos trabalhadores locais, dispostos a arrecadar migalhas dos turistas utilizando de tortura animal, humana e charlatanismo. Para Stanton, um verdadeiro alpinista social, é o local perfeito para o início de um sonho. Infelizmente, a primeira parte se extende demais, por quase uma hora (algo reduzido na versão original, de 1947).

Após aprender os truques de Zeena e Pete, Stanton troca o deserto do interior pelo ar empolgante de Nova York. Acompanhado da esposa, Molly, (Rooney Mara) eles incorporam perfeitamente a dulpa charlatã. Ele se vende como um médium, buscando clientes do mais alto escalão. Mas quando a psicóloga Lilith (Cate Blanchet) desconfia de sua meduinidade, tem início um jogo perigoso entre os dois.

Para completar, a fêmea fatal da vez aplica técnicas da psicanálise no homem, que aceita ser estudado pela loira. As camadas do personagem, então, saltam à tela. Não estamos diante de um traparceiro qualquer; sua história familiar é explorada, bem como seus traumas e as poossíveis motivações para seu jogo sujo.

O resultado é um interessante embate entre os dois, recheado de tensão sexual e diálogos afiados - talvez os melhores momentos da segunda parte do filme. Mais uma vez, os cenários não deixam a desejar: o consultório de Lilith, por exemplo, grandioso e intimidador como a dona. Os tons da vez são quentes e vívidos, representando de fato a guinada na vida de Stanton.

No entanto, à medida em que Stanton e Molly são introduzidos à figuras importantes da alta sociedade, as consequências se mostram irrerversíveis. Talvez pudessem ser ainda mais marcantes para o espectador, caso algumas relações fossem melhor trabalhadas no segundo ato (Stanton x Molly, a senhora Kimble e o marido, o juíz, etc). A sensação de pressa na última meia hora é perceptível, quando na verdade 1/3 do primeiro ato poderia ser enxugado... Ainda assim, o desfecho é ágil e cativante, com uma última cena um tanto agridoce - o tipo de gosto que um filme noir pede.

Por fim, temos um incrível neo noir que, mesmo bastante dilatado, cativa desde o princípio. O elenco possui carisma de sobra para guiar a história do trágico percurso de Stanton - e a trajetória vale imensamente à pena. O que se leva é uma reflexão sobre a ausência de limites do ser humano, em determinadas circunstâncias; sobre uma podridão que não enxerga barreiras, apenas lucro e benefício próprio. Um filme sobre a subida e a derrocada de um grandioso personagem que, ao longo da trama, evolui perfeitamente de um homem pobre, mudo e observador a um trapaceiro soberbo e poderoso. Bradley Cooper acertou em cheio na composição do personagem.

As indicações aos Oscars de Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino são extremamente justos, num filme que tem o visual e direção de arte como o seu maior acerto (dentre vários outros, é claro).