As adaptações cinematográficas de histórias de grandes ídolos da música já não são novidades e caiu facilmente no gosto do público. Unir a magia dos rockstars com o brilho do cinema normalmente são apostas certas de sucesso, principalmente se o produto for bem feito. Esse tipo de produção é tão impactante no mercado que já conseguiu inclusive grandes feitos em premiações importantes como o Oscar (olá Bohemian Rhapsody).

E eis que temos uma nova adaptação cinematográfica sobre Elvis Presley, o rei do Rock N’Roll. Esse não é o primeiro e talvez nem seja a última cinebiografia, mas o longa Elvis com certeza terá um espaço especial na história do cinema musical.

O longa-metragem trabalha com nuances tão simbólicas que somos facilmente transportados para a década de 50, em um mundo do circo e festivais com parques de diversão, onde tudo começou para o ídolo que marcou gerações. É impressionante como algo que surgiu há mais de 70 anos consegue ainda mexer com o imaginário popular, levando multidões ao cinema só para ver mais uma vez aquele rebolado.

Elvis fez seu nome e não atoa. O filme lançado recentemente traz bem os motivos que levaram ele a ganhar o título de rei, toda a sua trajetória de menino criado debaixo da asa da mãe até o seu descobrimento como showman. É interessante ainda os detalhes que trazem sobre a vida de Elvis que levaram ele a ser criado dessa forma: ele tinha um irmão gêmeo que morreu no parto e sua mãe encontrou no nascimento de Elvis a cura para dor de perder um filho. “Ele tem a força de dois homens” é uma frase que retrata bem isso e sempre é repetida ao longo do filme.

O estilo de narração adotado também traz uma forma diferente de mostrar a história do ídolo. Até porque aqui temos uma jogada muito interessante: a narração é feita pelo antagonista interpretado por Tom Hanks, sendo acusado de ter sido o culpado pela a morte precoce de Elvis. Mas enquanto sua fala diz uma coisa, as cenas que se sucedem levam o público ao contra ponto, tentando fazer a audiência compreender completamente o que aconteceu durante toda a trajetória do rei.

Uma aposta intrigante deu muito certo: a escalação de Austin Butler como Elvis. Butler foi extremamente subjugado pelo seu passado de ator de produções juvenis e nenhum papel de grande destaque, mas se entregou tão plenamente ao personagem que é fácil ver como ele tentou imitar Elvis em cada fase de sua vida, mudando o seu olhar, o tom de voz e até mesmo a forma de se mexer. Foi uma delícia ver tudo isso através de Austin.

Também é importante destacar os momentos históricos que o filme traz, como a segregação racial nos Estados Unidos, a morte de Martin Luther King e do senador Kennedy, sempre mostrando o quão esses tópicos atingiam ao Elvis e como moldaram ele como artista. Lembrando que o rei do Rock sempre teve influências na música negra americana e por muitos anos foi demonizado pelas danças provocantes, sendo chamado até mesmo de striper em suas apresentações. É muito legal ver como ele passou disso para o maior performer dos Estados Unidos da época.

A montagem e a direção de câmera chegam a ser perfeitas para a temática do filme. Suas cenas são tão bem intercaladas que temos a impressão de viver um grande trailer de 3h, com passagens emblemáticas pela câmera lenta, usada em momentos cruciais para entendermos o poder que Elvis tinha sobre as pessoas, especialmente as mulheres. Importante também destacar a atuação de Tom Hanks como antagonista, que está tão perfeito numa caricata e cômica interpretação do Coronel Parker que deve facilmente o colocar como um dos indicados de ator coadjuvante na próxima temporada de premiações.

A sua relação com a música negra e o gospel também são retratados no longa, bem como as influências que levaram ele a se transformar em um “ativista político” que possuía mais voz ativa. As situações que ele passou na vida como o luto pela morte da mãe, o serviço ao exército americano na Alemanha, derrocada na sua carreira musical e tentativa de se tornar um grande ator de Hollywood são apenas alguns pontos que o levam ao declínio final, afundado em medicamentos que possivelmente foram os responsáveis por retirar sua vida.

O filme quer acima de tudo fazer o público entender o que Elvis Presley provocava quando se apresentava e tudo aquilo que ele defendia na sua forma rebelde e inconsequente de ser. A euforia pelas danças e pela voz inconfundível, o amor que exalava dele ao performar. Era tudo muito brilhante e impactante perante o público recato daquela época. Ainda assim o carisma ganha e nos presenteia com um artista completo que faz até os mais rígidos se arrepiarem com sua arte. No fim, é tudo um belo espetáculo.