Figuras femininas sempre foram um prato cheio para a mídia. Personalidades como a Princesa Diana e Britney Spears passaram a vida estampando a primeira página dos jornais, sendo perseguidas veementemente pela imprensa. O público, por sua vez, aguardava faminto por novas façanhas, escândalos e modelitos para julgar. Hoje, sabemos o quanto o abuso midiático foi devastador para o psicológico destas moças, destruindo-lhes literalmente a vida.

Spencer (2021), do chileno Pablo Larraín, utiliza desse recorte e mergulha em cheio no ponto de vista de Diana. O ano é 1990 e o Natal se aproxima, enquanto a velha promessa de um casamento estável com Charles parece cada vez mais distante. As traições deste tornam-se explícitas, mas Diana sabe que não é uma mulher comum. Para ela, não há tempo a choramingar - ao menos, na teoria. Na prática, a princesa deve se submeter aos mil e um protocolos de uma realeza rígida e conservadora, além de posar diante de fotógrafos e jornalistas eufóricos - que os enxergam como verdadeiros personagens de um conto de fadas.

Falando em fantasia, vamos ao primeiro mérito do filme: a fotografia é um espetáculo. As belas tomadas do "castelo de férias" da família real, sejam elas abertas, fechadas, em câmera fixa ou em movimento, são magnéticas. As cores vibrantes, com uma leve granulação da imagem. Complementando perfeitamente cada quadro, tem-se a atuação de Kristen Stewart. Sua protagonista é recheada de camadas que o público já conhece - hora insegura, outrora rebelde, sempre angustiada- mas ganhando aqui ares lúdicos. O viés principal é mesmo o drama familiar, mas Spencer também flerta com o suspense psicológico e com o subgênero de casa mal assombrada, com direito a um poltergeist de Ana Bolena. O problema, talvez, seja a dificuldade do roteiro em se aprofundar no potencial.

É claro que as inúmeras nuances de Diana são interessantes por si só, mas a montagem irregular (resultado de diversos tons e intenções) resulta numa história maçante, extremamente contemplativa. Não há uma imersão no suspense psicológico ou drama, e fica a sensação de uma identidade indefinida.

O magnetismo se dá mesmo por conta da extraordinária fotografia e do elenco competente. No entanto, alguns trejeitos de Diana podem soar irritantes. Tudo bem que a princesa possuía, de fato, uma fala sussurrada (algo que Kristen imprime tranquilamente), mas por quê 90% de seu texto precisa de ser dito com tanta angústia? Se a intenção era transmitir o sufocamento da personagem, era necessário um uso excessivo? Apesar disso, é inegável que há boas cenas dramáticas, seja de Diana com os serviçais, com os filhos ou com o marido.

Por fim, temos o encerramento: uma cena abruta de Diana com os filhos que, por mais bela e divertida queseja, destoa do tom melancólico e imersivo do filme. Ao contrário de Jackie (2016), do mesmo diretor (história focada em Jaqueline Kennedy), creio que o aprofundamento em um único tom teria agregado mais ao roteiro. Ficamos sem saber a que veio Spencer...