Subverter uma narrativa conhecida não parece ser um trabalho fácil, ainda mais quando a mesma está relacionada a questões estruturalmente intrincadas em sociedade de uma maneira complicada. Bater de frente com a indústria, mesmo que em alguns momentos cruciais, tenha que fazer parte de sua lógica para se sair bem sucedido também não aparenta ser algo simples. Um filme com uma boa narrativa pode ser considerando maior que o contexto ao seu redor, pois quando uma história interessante torna-se atemporal nada pode cessar a mensagem transmitida por ela. 

 

Promising Young Woman, traduzido para o Brasil como, "Bela Vingança", é um filme dirigido e escrito pela atriz, diretora e roteirista, Emerald Fennell (showrunner da 2ª temporada de Killing Eve) e protagonizado por Carey Mulligan (An Education). A trama trata-se da história de uma mulher que possui um curioso hábito de ir até boates, fingir-se de bêbada e vulnerável até atrair homens que possuem segundas intenções e então lhes ensinar uma lição muito específica… 

Ao contrário do que tentei sugerir ao descrever basicamente a sinopse dessa produção, esse não é um filme aos moldes da narrativa de vingança feminina que conhecemos de uma maneira geral. Aqui não veremos homens sendo assassinados ou perdendo seus órgãos genitais de alguma forma grotesca e difícil de assistir para alguns. Jamais tirando o valor de produções que possuem narrativas como essas, o filme de Fennel segue muito mais uma lógica que mexe com o psicológico mas não se torna chato e maçante por isso, em nenhum momento. Pelo contrário, justamente várias cenas em que não há um diálogo propriamente dito estão entre as mais marcantes.

A construção do universo é precisa ao nos apresentar uma história que é facilmente relacionável e ao mesmo tempo revolucionária, a começar por Cassie Thomas. A personagem vivida por Carey Mulligan, possui uma construção de persona bastante concisa e recheada de paradoxos. O que se destaca é a forma como essa construção de personagem casa perfeitamente com a atuação, roteiro, a fotografia colorida e cheia de referências e iconicidades de Benjamin Kracun, o design de produção de Michael Perry e toda a parte artística visualmente e musicalmente falando, com um destaque para a direção de arte de Liz Kloczkowski. 

 
O colorido e mais precisamente o rosa bastante presente durante todo o filme, seja nas roupas ou na ambientação traz uma identidade muito feminina e contrastante a narrativa, principalmente nos pontos em que ela torna-se sombria.
 

A frieza da protagonista está ali por um motivo específico e nunca parece ser usada como um puro artifício de entretenimento, do contrário, a magnitude e o peso das motivações que a tornaram dessa maneira possuem uma grande relevância que é destacada em vários momentos importantes. A força da atuação de Carey, não está somente nas cenas com diálogos (que também são incríveis), mas sim, em suas expressões faciais e na forma como consegue tornar o silêncio em cena muito mais impactante que qualquer outra reação.

 

Mas isso é mesmo o que estamos assistindo?

 

 

Quando falamos sobre a experiência cinematográfica, o filme em si apresenta uma incrível capacidade de transitar entre alguns gêneros bem diferentes. Quando o longa começa, os cortes de cena, trilha sonora e atuações, nos fazem pensar que estamos vendo um thriller sangrento em que a qualquer momento vamos ver sangue espirrando na tela. Isso logo muda para uma espécie de flerte com um drama sobre crescimento pessoal e chega até mesmo ao estágio da comédia romântica. Esse ponto é importante para exaltar tanto a versatilidade de Mulligan, como o carisma de Bo Burnham que interpreta o médico, Ryan, interesse amoroso de Cassie. Esses fatores se ligam especialmente a maneira como a narrativa vai se aproximando do fim e como tudo se transforma o tempo todo, mas nunca de maneira piegas ou desnecessária. Tudo parece calculado, inclusive a mudança de ares tanto do filme, como nas próprias atuações e consequentemente na nossa interpretação como público de alguns personagens específicos. É quase uma metalinguagem do cinema, mas na verdade representa um ótimo trabalho de casting feito por Lindsay Graham e Mary Vernieu em conjunção principalmente ao roteiro de Fennell.

Fica a impressão que absolutamente todos os atores, incluindo os coadjuvantes, foram induzidos direta ou indiretamente a transformar o teor das suas atuações combinando-as a determinados estilos de gênero cinematográficos diferentes, à medida que o filme avança. 

 

Em seu ápice de comédia romântica o filme consegue induzir um clima tão positivo que faz parecer por um momento, que esquecemos sobre qual história estamos assistindo.
 

Apesar dos silêncios como grandes pontos de destaque para a atuação da atriz principal, vários diálogos são importantíssimos aqui também e apontam mais uma vez para a versatilidade da produção. Na minha concepção, a cena mais marcante do filme trata-se de um diálogo entre Cassie e a reitora de sua antiga faculdade, vivida por Connie Britton (American Horror Story). Nesse momento temos uma das primeiras grandes explosões na construção de todo o clima de suspense que é feita desde o início do filme. É a primeira grande situação de reflexão sobre como a cultura do estupro possui um impiedoso sistema de culpabilização arbitrária e fortemente injusto e que as mulheres geralmente acabam prejudicadas.

A forma como o roteiro usa a ironia e o sarcasmo é bem interessante e nunca passa dos limites. Isso é incorporado perfeitamente em Cassie e ganha um brilho ainda maior na cena com a reitora. No entanto, estando ligado a um assunto tão importante, a roteirista parece saber exatamente até onde ir para manter a humanidade dos personagens e a veracidade da narrativa.

No filme, essa reflexão/crítica é feita através tanto das atuações como nas ações dos personagens masculinos, principalmente. A maioria apresenta em algum momento ações e palavras sexistas e conectadas ao contexto apresentado e bem encaixadas à narrativa, isso jamais é feito de forma gratuita. Além disso, toda essa construção de universo não é maniqueísta, os personagens vividos por Clancy Brown, que vive o pai de Cassie e Alfred Molina, o advogado Jordan Green são exemplos desse aparente intuito do roteiro de humanizar seus personagens e nunca categorizá-los.

 

A cultura pop como uma bola de destruição mais fatal do que se imagina

 

A trilha sonora com: Charli XCX, Maya B, Paris Hilton e outros nomes femininos apresenta mais um ótimo ponto ganho pelo longa, na construção minuciosa deste universo cinematográfico. Os covers de músicas como, “It’s Raining Men” (The Weather Gils), feito pela artista DeathbyRomy, e a reapresentação de “Toxic” de Britney Spears, feita por Anthony Willis em um teor sinistro, traz uma força diferencial a produção e complementa o contexto de uma forma muito encaixável. 

A música pop, sua decorrente cultura e vice-versa, são tratados com respeito e eloquência pelo roteiro, o tempo todo. O fato dessa cultura ser fortemente ligada a ideia do feminino não é uma coincidência aqui. A própria Emerald explicou em uma entrevista à Variety (2020), o quanto todos esses elementos desse âmbito cultural foram importantes para construir a narrativa e o próprio filme como um todo. De acordo com a diretora, a cultura pop geralmente é tratada de forma irônica ou como um “guilty pleasure” e ela quis ter certeza que todas as coisas que são ligadas a essa cultura, como roupas ou maquiagem fossem tratadas com seriedade pelo roteiro do filme. Aqui, temos um dos principais motivos de como a ótica de quem está, não só idealizando uma produção como literalmente a produzindo em vários detalhes, é de extremo peso e influência na construção final. 

 

Um final justo e coerente?

SPOILER FORTE CHEGANDO

 

 

A inovação presente no filme caracteriza-se principalmente pela finalização do arco de sua personagem principal, que dentre todas as quebras de clichês, também surpreende. No entanto, especificamente considerando os minutos finais após a morte de Cassie, a mensagem que fica vai um pouco de encontro a todo o subtexto que o filme transmite sobre como a cultura do estupro trata de formas diferentes a culpa entre mulheres e homens.

Acredito que se o filme fosse finalizado no momento em que temos uma das poucas imagens grotescas (o corpo de Cassie queimando em uma fogueira improvisada) a mensagem seria organicamente mais específica e impactante. Entendo, porém, que talvez seria exageradamente cruel com o público geral, tendo em vista a quebra de expectativa com o que o filme sugere sobre sua temática. Isso significa que a mensagem principal se perde? Claramente não, apenas dá pra inferir que a conclusão que apresenta os culpados sendo “pegos” é uma versão mais comercial e que torna o que se entende sobre o filme mais digerível, com pontas de reconforto e a sensação da justiça que a personagem tanto parecia buscar.

Promising Young Woman  ou Bela Vingança, é um filme narrativamente inteligente, bem construído, e que possui um incrível trabalho acurado na construção de universo e personagens. Esses aspectos combinam-se a uma temática que lida com um tema polêmico, contraditório e fortemente atual, mas faz isso de maneira completamente inovadora e original. Se havia uma grande mensagem a ser passada, isso consegue ser feito organicamente através da conjunção de absolutamente todos os aspectos que compõem o filme como um todo, o que o torna automaticamente um importante candidato na categoria de melhor filme no Oscar, ao que está indicado.