Filmes dramáticos e que demonstram com sinceridade e crueza o sentimento de luto e perda sempre são meio intragáveis de se assistir. Pieces Of a Woman é um retrato fiel de uma mulher que sofre com a morte prematura de um filho recém-nascido e que precisa aprender a lidar com isso sem apoio e sem um emocional forte.

A dolorosa história traz uma das narrativas que não nos acostumamos a lidar: a dos pais perderem os seus filhos. Imagina só você se preparar nove meses para receber um serzinho e por um lapso ele simplesmente não estar mais ali. Esse inclusive é um problema que poucas mulheres conseguem superar na vida e que culmina em problemas sociais e de relacionamento muitas vezes irreversíveis.

A temática além de forte é carregada de tabus. Como uma mulher deve se portar ao perder seu bebê após o parto? Quais sentimentos ela deve nutrir? Mas principalmente: como seguir em frente?

Não dá para ignorar que houve uma vida ali, mesmo que de fato eles não desfrutassem de muitos momentos dela juntos. E a forma poética, dramática e sensível que o filme da Netflix apresenta a seus telespectadores é importante de ser compartilhada.

Pieces Of a Woman conta a história de Martha, vivida por Vanessa Kirby, que junto com o seu companheiro Sean (Shia LaBeouf) esperam pelo nascimento da primeira filha do casal. Logo no começo do filme somos apresentados a fortes cenas de um trabalho de parto feito em casa, com o auxílio de uma parteira. As cenas geniais são longas e sem cortes, onde podemos acompanhar todo o sofrimento de Martha com as contrações e a próxima chegada da filha.

O primeiro impasse surge quando a parteira contratada pelo casal não consegue chegar até a casa deles e manda uma substituta. Mesmo assim Martha se entrega nas mãos da mulher e continua seu desejo de um parto em domicílio.

A experiência de acompanhar essas cenas não é das mais agradáveis. E isso é proposital, principalmente por estar locada em um ambiente fechado, onde circulamos por quase todos os cômodos da casa. É angustiante e cansativa, mas fundamental para entedermos todo o processo de luto vivido depois que o parto termina em tragédia.  

A pequena bebê Yvette não sobrevive e morre por conta de um sofrimento fetal vivido durante o trabalho de parto. A partir disso surge os questionamentos: porque o bebê morreu? De quem é a culpa dessa fatalidade? Eles se perpetuam durante todo o restante do filme, quando a família de Martha resolve entrar com um processo contra a parteira por negligência.

O filme se torna assim um grande amontado de cenas de sofrimento em silêncio, onde observamos as expressões e dores que o casal leva consigo, resultando numa separação constante entre os dois. É ainda mais simbólico quando vemos que o tempo vai passando de acordo com a construção de uma ponte onde Sean está trabalhando, indo em contramão a mensagem de união que deveria gerar dessa perda, que só os faz afastar mais e mais.

E mesmo com diversas cenas em silêncio, os fortes diálogos são ainda mais responsáveis por sentirmos a complexidade que cada personagem leva consigo. Não dá para julgar sentimentos ou ações decorrentes após a perda de Martha, e aqui podemos destacar o brilhante trabalho de Vanessa Kirby que deve brigar por uma estatueta de melhor atriz.

A direção, cenografia, escolha de takes ou qual personagem vamos acompanhar naquele momento é feito de maneira orquestral, dando destaque a produção de arte, mas principalmente aos atores e suas expressões.

Todo o sentimento de Martha ainda é pautado pela própria confusão que é a sua relação com a mãe, cheia de turbulências e julgamentos, que são também transferidos a forma que Martha lida com a perda da filha. Assim, o título do filme se torna um perfeito retrato do que acompanhamos da vida dessa mulher, que se tornou em pedaços ao ter que viver um luto.

O filme assim se completa em uma imensa história de dor e angustia, onde não vemos como os personagens tentam superar esses sentimentos, mas vivemos essas sensações com eles. O foco aqui não é no julgamento da parteira ou em como essa mulher vive suas dores, mas sim em como luto afeta as relações e pode modificar a vida de uma pessoa para sempre.

Filmão cheio de metáforas e ensinamentos, usando de recursos poéticos de como devemos olhar e levar os nossos piores momentos nessa imensa trajetória que é a vida.