Como um filme sobre Suzane von Richthofen pode ser desinteressante?, você se pergunta. A adoração do brasileiro pelo true crime e a espera brutal de um ano e meio geraram ainda mais ânsia pelo nascimento dos filmes. A questão é que, infelizmente, quando A Menina Que Matou Os Pais e O Menino Que Matou Meus Pais chegaram ao mundo, as expectativas morreram já nos primeiros minutos de exibição.

Inicialmente, o roteiro seria de um longa-metragem só, mas os roteiristas Raphael Montes e Ilana Casoy perceberam que tinham em mãos duas histórias diferentes. Não apenas eles, como todo o Brasil: afinal, quem está com a verdade quando duas pessoas contrapõe uma a outra, contando histórias repletas de inconsistências? Suzane é vítima do namorado oportunista, ou seria ela cruel a ponto orquestrar a morte dos pais? Qual a linha tênue entre os estereótipos? Já que a proposta não é trazer respostas sólidas, o roteiro optou por contar as duas versões separadamente, baseando-se apenas nos autos do processo. E talvez os erros já comecem por aí...

Por mais interessante que seja a premissa, a impressão é que houve, de fato, pouca inventividade. Ambos os filmes seguem à risca os depoimentos do casal e pouco se permitem criar além disso, o que torna cansativa a experiência de assisti-los. Se houveram revelações de ambas as famílias (até mesmo do próprio irmão de Suzane), não seria mais interessante abrir asas dentro da história?

As próprias menções ao que aconteceu no pós-crime são poucas e rasas, já que vários eventos importantes como o julgamento, o enterro dos von Richthofen e as primeiras horas do pós-crime foram deixados de lado. Perde-se, então, a chance de contar uma história verdadeiramente interessante. E todos que conhecem o caso sabem que essa trama é tudo, menos desinteressante.

Se por um lado, diálogos e personagens poderiam alavancar a trama, parece que não é bem o que ocorre aqui. Em O Menino Que Matou Meus Pais, o que se tem é um compilado de cenas corridas e mundanas, sem qualquer dilatação. O pouco tempo em tela dos pais de Suzane (dois atores globais, diga-se de passagem) é jogado fora, graças aos diálogos frágeis e superficiais, que mais parecem ter sido transcritos de um filme universitário de primeiro período. Aqui, reações de famílias estereotipadas ganham todo o espaço possível. Sobra para Carla Diaz e Leonardo Biteco sustentarem a carga dramática do filme, com atuações esforçadas e uma química inegável enquanto casal.

Já em A Menina Que Matou os Pais (o segundo a ser visto por indicação do diretor), percebe-se um ligeiro salto na qualidade do texto. Desta vez, é Carla quem interpreta a maquiavélica da história, imprimindo em Suzane um olhar apático, nebuloso e sádico, bem diferente daquele que vimos no primeiro longa. Finalmente, surge o magnetismo da trama!

Por outro lado, a proposta do roteiro força o diretor a recriar as mesmas cenas do primeiro filme, se restringindo apenas a troca de ângulos e uma temperagem diferente aos personagens e seus parentes. Infelizmente, os estereótipos de "família problemática" apagam parte desse potencial. Já os quadros permanecem estáticos e maçantes à maior parte do tempo, optando pela câmera na mão apenas no momento dos crimes - recurso que, talvez, pudesse ter sido usado desde o princípio para dar ênfase à turbulência do casal. Não há intenção de ousar em momento algum, o que não é necessariamente ruim, não fosse pelo produto final: um filme sóbrio, sem voz e superficial.

Ao final, a sensação que fica é que estamos diante de dois filmes teen com pitadas de comerciais anti-drogas dos anos 1990, com uma ênfase excessiva em quem do casal fumou primeiro e ensinou o outro a tragar, o que aparentemente deu início a "transformação de personalidade" de um deles. Ao final de A Menina Que Matou Os Pais, por exemplo, é absurda a maneira com que Suzane e Daniel convencem o irmão dele a participar da chacina, de maneira tão veloz e inverossímil. No geral, faltou profundidade e inventividade. Se por um lado, o próprio crime foi uma bagunça do início ao fim, com uma execução extremamente amadora, os longas passam a exata mesma impressão...

Ainda assim, não deixo de indicar a ninguém o trabalho de Raphael Montes, roteirista do filme. Também escritor da série Bom Dia, Verônica, Rapha é um autor nacional de suspense, extremamente bem sucedido por aqui e internacionalmente. Caso o gênero seja do seu agrado, romances como Dias Perfeitos e Jantar Secreto não podem faltar na sua prateleira. Entre erros e acertos, trata-se de um autor que ainda tem muito a mostrar.