"Minha idade não define minha maturidade, minhas notas não definem minha inteligência e as fofocas que fazem de mim não definem quem eu sou". Provavelmente essa é a oração que melhor pode revelar Sierra Burgess é uma loser, a nova comédia romântica original da Netflix, que aparentemente está tomando os corações e anseios do público teen.

A proposta traz uma versão revisitada e moderna da peça Cyrano de Bergerac, inspirada na vida do homônimo escritor francês. A referência pode soar nova para aqueles que desconhecem a vida do escritor, isso sugere que a escolha na temática do filme foi tão inteligente quanto a Disney, em 1994, lançar O Rei Leão, inspirado na obra de William Shakespere, Hamlet

Pobre Sierra, assim como tantas outras garotas, finalmente chegou ao período das trevas conhecido por ensino médio. E quão sombrio esse período pode ser para aqueles que de alguma maneira estão "fora dos padrões". Ela, assim como o título já revela, é uma fracassada. Não tem vida social, não tem um corpo escultural, não tem rosto angelical, na verdade, Sierra não tem nada aparentemente agradável. Sua vida não inspira o melhor em ninguém, suas palavras não são das mais grandiosas... a coitada só tem cérebro. Puxa vida, o pecado de Sierra é ter cérebro. Como alguém pode ser tão pavorosa a ponto de só saber utilizar aquela massa cinzenta acoplada a ossos cranianos?

Em comparação, Verônica, a garota mais popular, a mais bonita, a mais seguida no instagram, tem tudo o que Sierra não tem. É como se uma completasse a outra. E porquê não juntar as metades dessas laranjas? Pois bem, a roteirista Lindsey Beer escutou a música Alma Gêmea de Fábio Júnior, e entendeu que quando duas forças se atraem de fato o sonho é lindo de se ver. E sabendo que uma completaria a outra resolveu por pura pirraça (leia-se clichê de roteiro típico desse gênero), que elas conseguiriam formar um bom time para se ajudar a finalmente resolver suas vidas amorosas.

Mas é engraçado, porque mesmo sabendo o rumo que o roteiro vai tomar, quem assiste, se depara com algo até estranho, um clichê que Beer consegue transformar em uma sequência de diálogos incrivelmente interessantes, trazendo à tona determinadas situações que são típicas da fase do público a que o filme se destina, e fazendo isto, ela consegue estabelecer um elo entre público e roteiro cheio de empatia e esperança. Beer tem consciência de que nem todo mundo que vai assistir ao longa é adolescente, e para quem já passou desta fase o sentimento é extremamente nostálgico.

A direção de Ian Samuels dá o toque que a parceria com o roteiro de Beer precisava. É super interessante ver que o enquadramento que ele utiliza, nas mais diversas situações, conseguem exprimir todas as sensações que Beer tinha colocado em seu roteiro. Não há nada de extraordinário na direção de Ian, ele apenas conseguiu dar vida ao que o roteiro tinha estabelecido, e todos os jogos de câmera dão brilho aos rascunhos de Lindsey Beer.

Shannon Purser nasceu pra ser Sierra. Ela consegue transmitir tudo que sua personagem clama, todas as inseguranças, a ansiedade, a delícia que é beijar quem a gente ama, as frustrações, o desespero, e os ciúmes. Purser nos faz querer amar e lutar por Sierra simplesmente porque vale a pena. Kristine Froseth faz com que Verônica também tenha seu espaço, afinal Sierra não é totalmente boa, e sua personagem (assim como em todos os casos de filmes do gênero) tem motivos pra ser como é. Ainda sim, há bondade em Verônica, e Froseth transmite isto apenas com o olhar.

Noah Centineo apresenta um Jamey que não é real, ou será que é? Ainda existem meninos tão incrivelmente perfeitos? Centineo teve uma tarefa muito fácil, porque é gostoso se apaixonar por Jamey, ele é aquele velho "tudo o que toda garota sempre quis". Ou não, vai saber o que tu quer. E para fechar o quarteto fantástico, o alívio cômico ficou com RJ Cyler e seu Dan, que não é tão presente durante o filme, mas rouba a cena cada vez que a câmera olha pra ele.

No mais, Sierra Burgess é uma loser é mais uma investida certeira da Netflix num gênero que dificilmente tem baixa audiência. Mas nesse caso, o mérito é todo do filme. O longa tem vida própria mesmo sendo muito clichê. Além de ter uma temática que dificilmente vai virar piegas, afinal, todo mundo foi ou será adolescente. E existe fase mais chata que essa? Se sim, desconheço!