Após a conclusão de Fragmentado (2017), Kevin Crumb (James McAvoy), o homem com 24 personalidades diferentes, passa a ser perseguido por David Dunn (Bruce Willis), o herói de Corpo Fechado (2000). O jogo de gato e rato entre o homem inquebrável e a Fera é influenciado pela presença de Elijah Price (Samuel L. Jackson), que manipula seus encontros e guarda segredos sobre os dois.

Foi preciso 19 anos para termos a conclusão desse universo de super-heróis de Shyamalan. Lá atrás, nos anos 2000, quando Corpo Fechado chegou aos cinemas, o diretor foi instruído a não divulgar a  obra como um filme de heróis, e vejam só onde estamos hoje. O cinema conversa e pede por filmes do gênero e Shyamalan é um dos responsáveis por esse movimento. 

A trama se passa no hospital psiquiátrico da Filadélfia. Uma decisão muito acertada de Shyamalan  sobre construir uma dimensão dramática sobre um mesmo teto.

Em Vidro, o diretor apresenta uma mudança radical em suas "regras". Se a verdadeira narrativa se mostrava com a aproximação super-realista e deprimida da figura de um super herói, ou através de um terror psicológico que se transformava em uma meditação sobre como a dor poderia ser uma essência formadora de um super-vilão, aqui temos um cerne mais palpável ao gênero, e isso o tira um pouco da mesma linha dos filmes anteriores.

Mas é preciso lembrar de uma frase:  Filmes são retratos de seu tempo; e mesmo diferente, seus traços ainda são fortes e marcantes em um filme excelente. 

Se em 2000 filmes com super-heróis eram uma coisa de nicho, e praticamente inexistente, hoje é a maior fonte de renda do cinema Blockbuster. Ou seja, por mais que Shyamalan tenha seu próprio esquema estrutural para seus roteiros, era inevitável que ele tinha que se "adaptar" ao modelo que temos hoje. Isso o "obrigou" a aplicar uma lógica narrativa rigorosa e também expor suas surpresas com cálculos mais simples, mais tangíveis. Em resumo, o filme nasce com a proposta de ser uma obra mais abrangente, falando de público.

David e Kevin entram no hospital psiquiátrico ao mesmo tempo, após um breve confronto, no entanto, o Senhor Vidro está ali há mais de uma década. O grande foco de Shyamalan é detalhar a rotina desses ditos super-humanos, mas antes que faça isso, o diretor ambienta e insere o espectador naquele local, naquela atmosfera gélida e ausente de uma espécie de humanidade. Algo suspeito. 

É muito interessante como a relação de Dunn com o filho é dada. Os dois formam uma dupla de vigilante e "nerd da cadeira", em uma unidade muito equilibrada, fruto de anos e anos trabalhando juntos para manter a cidade um pouco mais segura. 

Após a internação, entramos totalmente no hospital, e ali vemos Shyamalan dando seu show de direção com uma mise-en-scène muito bem construída e organizada por cores. A inserção da personagem de Sarah Paulson dá uma nova camada à trama. A doutora Ellie Staple, estuda os efeitos do cérebro e tenta provar que nenhum deles possui poder físico ou mental; com isso, cabe ao trio - Kevin, David e Ellijah - se questionar e decidir se acreditam ou não em si próprio e suas habilidades extraordinárias. 

A doutora Staple apresenta dados muito convincentes e cria a dúvida na cabeça do espectador. O ambiente tenso e desequilibrado surge a partir dessas dúvidas e o filme caminha em um ritmo mais lento, do qual gosto muito. 

Enquanto a trama principal é construída, convergindo os caminhos de Vidro, Kevin e David, o diretor, sabiamente, força esses limites e explora as personalidades de Kevin, em mais uma atuação PRIMOROSA de James McAvoy. A direção dá liberdade para o ator exprimir essas mudanças de personalidades sem cortes bruscos e que afastam essa sensação de simultaneidade. 

A presença do Sr. Vidro na trama é crescente. Começa vagarosa e silenciosa, explorada pelo olhar frio de vida, mas sedento por uma espécie de provação. O personagem atua como um arquiteto, um roteirista que vai construindo aquela história, passo por passo, certeiro, saindo das sombras, para libertar a tal Fera e provar ao mundo que eles não são loucos, e sim, super-heróis e vilões. 

Shyamalan acerta em seu desejo de humanizar o incomum e sair do modelo padrão para filmes de super-heróis, antes mesmo de existir um padrão, como fez em 2000. Agora, dado todo o cenário, sua missão era muito mais difícil, e mesmo cedendo aqui ou ali, ele consegue outra vez! Ele integra um universo heroico ao seu modo, e entrega sua originalidade de uma HQ feita exclusivamente para o audiovisual.

Os outros personagens, intimamente ligados a cada um dos três protagonistas, como Joseph, Casey e a mãe do Sr. Vidro, agregam novos tons da essência humana ao se deparar com aquelas coisas sobrenaturais. 

Como deve imaginar, é muito difícil fazer uma crítica sobre algum filme do Shyamalan sem dar spoilers e estragar a experiência de quem ainda não viu. Então vamos deixar para explicar esse universo usando os conceitos e explicações apresentados em Vidro, em uma outra matéria revelando tuuuudo.