Uma jovem introvertida e com depressão bipolar viaja pra Califórnia, numa jornada de auto-descoberta. O que pode dar errado? Tudo, do momento em que você se hospeda no Cecil Hotel.

A fama do hotel nunca foi das melhores. O Cecil foi projetado para ser uma das maiores hotelarias de luxo do centro de Los Angeles mas, com a grande depressão de 1929, o sonho não durou mais que alguns anos. Para completar, o edifício está localizado em Skid Row, uma área de 54 quarteirões no centro de Los Angeles, famosa pela degradação urbana.

O que começou como uma região que atraía desempregados e alcoólatras se tornou, ao longo do século XX, uma das maiores cracolândias dos EUA. A oferta de heroína e crack aqui é intensa, além da infinidade de moradores de rua. 

Com esse contexto, começamos a entender o histórico de violência que afeta o Cecil Hotel. Afinal, a Skid Row atraía não apenas moradores de rua, mas também figuras como serial killers e traficantes. Pessoas que queriam ao máximo evitar contratos de aluguel ou qualquer registro oficial viam no hotel uma moradia barata, minimamente acomodável.

Assim, os quartos do Cecil se tornaram palcos de suicídios, assassinatos, overdoses... Um dos entrevistados, que residiu por anos no edifício, conta que não tinha coragem de ir além do 14° andar. Uma terra sem lei.

Para nos contar os últimos anos do Cecil, o documentário nos presenteia com uma personagem importantíssima: Amy Price, a última gerente do hotel

Em seus dez anos de gerência, ela afirma ter noticiado cerca de 80 mortes no hotel. Uma média de um morto a cada 45 dias... Haja psicológico, não? Fora as ligações para a polícia e ambulatórios, que eram uma constante em sua rotina de trabalho.

Mas quando uma garota, Elisa Lam, desaparece no hotel, a gerente se vê surpresa. O último registro dela em vídeo é no elevador, onde aparenta estar sendo perseguida e faz gestos um tanto quanto... macabros. As questões pairam no ar, como uma nuvem densa e carregada: onde está Elisa? Se está morta, quem ou o quê a matou? Por quê o vídeo do elevador foi editado? O hotel está encobrindo algo? Alguém perseguia Elisa? Ou o que vemos é uma alucinação?

Por mais que pareça ser só mais um real crime, a profundidade atingida pelo diretor aqui é um feito e tanto. Um exemplo é Elisa Lam, que não se resume a mais uma vítima do hotel. Nós a conhecemos intimamente. Temos acesso ao seu Tumblr, aos seus pensamentos mais profundos, à luta contra a depressão e o transtorno bipolar.

A ambientação também é um grande acerto do diretor: sentimos um profundo incômodo com os relatos e imagens do hotel, o principal personagem desta história trágica. Um misto de pavor, agonia e claustrofobia. Ao mesmo tempo, o roteiro é versátil em nos contar sobre a Skid Row e todo o seu contexto socioeconômico. Há, de fato, uma sensibilidade ao abordar cada esfera da trama.

Por fim, levamos um tapa na cara, quando entendemos como teorias da conspiração podem deturpar investigações. O quanto elas são, por vezes, rasas. Os depoimentos de YouTubers famosos, e até mesmo de investigadores, são inseridos na montagem dos episódios para corroborar com a tese.

Para os fãs de Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy, temos aqui seu presente de Carnaval. Afinal, ambas as minisséries são do mesmo diretor - e eu confesso ainda não ter escolhido minha favorita...