Um mafioso com crises de pânico começa a fazer terapia.

   Essa era a premissa de The Sopranos, série da HBO de 1998, que abriu o leque para os "homens complexos" da televisão. Walter White (Breaking Bad), Don Draper (Mad Men), Thomas Shelby (Peaky Blinders)... Todos possuem um quê de Tony Soprano, o pai de família mafioso que conquistou o público. 

   A identificação do espectador foi tamanha que, por diversas vezes, o roteiro fez questão de escancarar a brutalidade de Tony - fosse agredindo sua terapeuta, os filhos ou a esposa. Afinal, para o showrunner David Chase, era assustador que as pessoas realmente gostassem de Tony- um homem agressivo, bronco, inculto e, obviamente, assassino. "Lembrem-se: ele é um monstro", as cenas pareciam gritar. Mas o grandalhão trouxe exatamente o que a audiência queria: complexidade! Apesar de tudo, Tony exalava carisma e cenas cômicas. Ainda que por linhas tortas, era visível seu esforço em ajudar à família e apoiar os colegas de trabalho. Mas, acima de tudo, Tony era frágil. Daí a importância do seu arco com a terapeuta.

   Após décadas de sitcons, novelões e séries procedurais (como Law & Order, onde cada capítulo possui uma trama específica), a tv americana finalmente se arriscava em narrativas complexas, que perduravam por temporadas e temporadas. E ao contrário do império luxuoso de O Poderoso Chefão, Sopranos trazia uma máfia classe média, sem cultura e requinte, e com questionáveis raízes italianas. Ou seja, eram bandidos palpáveis- algo mais próximo do americano médio. O acerto foi tamanho que, até hoje, a série é consagrada como uma das maiores da história. 

  E mais uma vez, nos pegamos torcendo pela máfia. Como num cruzamento perfeito entre The Sopranos e Breaking Bad, nasce Ozark. Aquela série escondida nas profundezas da NETFLIX, que pouco escutamos falar, devido ao baixo hype e divulgação no Brasil. Ainda que a sinopse remeta o assinante à Breaking Bad, a pegada aqui é outra. Em meio às várias histórias de crime, Ozark sustenta identidade própria, graças a um roteiro que sabe exatamente por onde quer trilhar.

   Na primeira temporada, o sentimento é de estranheza. Os Byrde, uma família americana comum, trocam Chicago pelo interior do Missouri, obrigados a lavar dinheiro para um cartel de drogas. A cidade é o que chamaríamos de "no meio do nada" (ainda que Ozark seja um ponto turístico importante do estado, graças à sua imensa represa. O equivalente à represa de Furnas em Capitólio, Minas Gerais).

                

   Em meio às poucas opções de comércio, Marty (o pai), precisa urgentemente investir em lugares de fachada para realizar a lavagem. Ele, um grande financista, possui inteligência o suficiente para conquistar seus futuros parceiros de negócios. Mas quanto mais ele adentra o universo de Ozark, fica claro que a cidade respira à atividade ilegal. A igreja, o bordel, a fazenda de papoula... todos já possuem suas ligações com o tráfico. Somando à gama de ameaças, temos o cartel mexicano, que constantemente pressiona à família a cumprir com o objetivo. Do outro lado, um duvidoso agente do FBI, que visa encurralar Marty a qualquer custo. 

   Graças às inúmeras ameaças e grandiosos personagens, o roteiro permanece ágil a maior parte do tempo, sem nunca abrir mão do desenvolvimento dos personagens. Com sua narrativa, a série subverte inúmeros clichês do gênero, sempre propondo reviravoltas plausíveis e ganchos magistrais. Acrescente isso às atuações impecáveis e você tem, simplesmente, uma das melhores séries da NETFLIX. Portanto, não espere por resoluções fáceis de 1 minuto à la Riverdale. Todas as relações interpessoais são extremamente bem trabalhadas, regadas aos tons azulados que ambientam a série.

   A frieza da fotografia, no entanto, não elimina o alívio cômico: são tantas as situações constrangedoras e de autorreferência que torna-se impossível não cair na risada de vez em quando. Ruth, por exemplo, é uma caipira que está sempre xingando a própria sombra. Trata-se de uma astuta ladra de 19 anos, que aplica rasteiras em todos - incluindo os próprios tios. O resultado de tantas tramoias foram grandiosas cenas para a atriz Julia Garner, que levaram-na a receber dois Emmy Awards e uma indicação ao Globo de Ouro

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   E falando em mulheres, a força do elenco feminino em Ozark torna-se o grande chamariz. O maior destaque é, sem dúvidas, de Wendy, esposa de Marty. A mãe de família, que já trabalhou em campanhas políticas, interrompeu sua carreira para se dedicar à família. Com o decorrer das três temporadas, no entanto, a loirinha se torna fiel ao cartel de drogas.

   Ainda que agindo por necessidade, Wendy sente o prazer da manipulação. Ela sabe que o marketing é, de longe, sua maior qualidade. É na 2.ª temporada, inclusive (na qual o casal se envolve diretamente com senadores) que ela mostra todo o seu potencial. Em meio à tantas comparações com Breaking Bad, talvez Wendy esteja mais para Walter do para que Skyler... 

   E falando em Breaking Bad, creio que o núcleo familiar seja a maior divergência entre ambas as séries. Aqui, como exemplo, o trabalho dos pais não é segredo algum para o casal de filhos. Pelo contrário: Charlotte, aos 15 anos e Jonah, um pré-adolescente, se veem obrigados a amadurecer e ajudar os pais da maneira que podem. Afinal, em meio a tantas ameaças, não há para onde correr. E como Sopranos bem ensinou aos espectadores, o mundo do crime possui três fins comuns: prisão, morte ou fuga. E assim como Tony Soprano e Walter White, os Byrde não estão dispostos a abaixar a guarda. É preciso criar raízes e impor seu poder.

   Poder, por sinal, adjetiva com destreza a 3.ª temporada. A Empreendimentos Byrde está mais consolidada do que nunca e voltar atrás já não é mais uma opção. As atitudes que os levaram até aqui (a temporada mais sombria da série) são absurdamente condenáveis e toda, absolutamente toda ação ocorrida na série, ainda gera algum tipo de reação. O roteiro, aqui, ainda possui uma imensa facilidade em liquidar os personagens quando necessário - algo que Sopranos e Breaking Bad sentiam dificuldade.

   Voltando ao elenco, não há como analisar essa temporada sem enaltecer, novamente, o casting feminino. Wendy e a advogada do cartel constroem uma dupla imbatível, solucionando qualquer tipo de crise. Ruth está gerenciando os negócios dos Byrde, deixando para trás a bandida amadora da primeira temporada. E Darlene, uma fazendeira produtora de heroína, brilha com seu temperamento impulsivo e os trejeitos icônicos, sendo ora aliada e ora inimiga dos protagonistas. 

   E que venha a 4.ª e última temporada, onde o chefe do cartel mexicano estará ainda mais presente na trama.