A era dos super-heróis no cinema e na TV está num crescente fenomenal. As mídias atuais buscam jogar programas e filmes com diversos tipos de personagens dos quadrinhos o tempo todo, e isso pode gerar eventos icônicos nos cinemas (como no MCU) ou até mesmo em um universo mais contido como o Arrowverso na TV. E mesmo no meio dessa multidão, o DC Universe conseguiu se destacar com Patrulha do Destino

Com equipes que contém uma base de fãs já estabelecida como a Liga da Justiça e os Jovens Titãs, trabalhar com uma equipe pouco conhecida pelo público geral como a Patrulha do Destino poderia ser uma ideia ousada demais para ser adaptada para a TV , e ousar sempre foi o principal intuito do serviço de streaming da DC desde seu anúncio. Quando a equipe foi apresentada no episódio quatro da primeira temporada de Titãs, poucas informações são pinceladas sobre quem são os membros daquela estranha família, e com a atmosfera  sombria da série, parecia que o futuro daquele time seria tão obscuro quanto, e durante a apresentação do episódio piloto, descobrimos que a proposta da série é seguir o extremo oposto (de forma positiva) do que Titãs se mostrou.

Muitas vezes, séries baseadas em quadrinhos buscam trazer grandes batalhas de heróis contra vilões, mas Patrulha do Destino entrega uma coisa diferente. Ao invés de mostrar belas sequências de ação com um show de efeitos visuais, a série busca aprofundar ainda mais na relação que seus personagens têm com seus poderes, que são retratados como a manifestação de seus traumas: Como o Espirito Negativo de Larry Tainor/Homem-Negativo, que é usado para retratar uma complicada relação de um homem com sua homossexualidade, ou como as personalidades de Crazy Jane, as quais representam uma válvula de escape que a personagem criou para se proteger dos abusos de sua infância.

Enquanto a maioria das séries de quadrinhos busca apresentar um vilão ou uma crise diferente em cada semana, esta série consegue passar um episódio de uma hora focado em uma sessão de terapia em grupo e ainda assim n consegue ser chata em momento algum. Cada episódio faz com que os personagens conheçam seus medos e os medos daqueles que estão em volta deles, pois, para salvar o mundo e seu líder e consequentemente se tornarem uma equipe firme; primeiro eles precisarão se salvar.

Uma das coisas que faz com que a série seja muito boa é a premissa de apostar num grupo de heróis que não se consideram heroicos. Eles são retratados apenas como pessoas que se encontram perdidas e solitárias, e essas características juntas a uma bela direção e roteiro fiel ao material fonte - com algumas novas visões exploradas - conseguem criar personagens cativantes tanto para quem já conhecia os personagens como para quem está sendo introduzido pela primeira vez nesse mundo. Personagens como uma barata cristã falante e uma rua genderqueer são alguns dos bizarros exemplos de ideias jogadas num universo que acabam funcionando perfeitamente para todos, e cada detalhe jogados nos episódios são uma grande homenagem a obra criada nos quadrinhos da equipe (principalmente durante a fase de Grant Morrison).

Mas os personagens dessa série não seriam nada se não fosse por seus intérpretes. Cada um deles (seja dublando ou tendo sua presença física em tela) conseguem passar uma verdade tocante e fenomenal ao mesmo tempo, e é difícil conseguir escolher um personagem favorito no show.

A interpretação de Diane Guerrero como Crazy Jane é fenomenal do começo ao fim, pois interpretar alguém que contém múltiplas personalidades é uma tarefa muito difícil, e fazer uma personagem que contém 64 personas dentro de si foi algo que Diane entregou com bastante naturalidade, pois a atriz soube vida a cada detalhe que faz suas personalidades serem únicas. O Ciborgue de Joivan Wade entra na série como uma antítese aos outros membros da Patrulha do Destino, por começar sendo apresentado como um herói já estabelecido, sendo um exemplo de como os outros personagens seriam se eles enfrentassem seus medos, mas no decorrer da temporada, o personagem vai entrando em decadência e em conflito pessoal ao mesmo tempo em que os outros personagens vão evoluindo, e o trabalho de Wade consegue fluir muito bem ao mostrar a trajetória do sucesso ao fracasso de um herói.

April Bowby entrega uma versão da Mulher-Elástica que mostra a construção de uma líder. Ao ser introduzida como uma mulher ranzinza e fora de seu tempo, as interações de Rita Farr na série são apenas um gatilho para sua insegurança e no desenvolvimento de seus poderes, mas no decorrer da temporada, aquela mulher fria que o show nos apresentou no começo passa a evoluir para se tornar a líder que a Patrulha ganha mais a frente em suas missões. 

O Chefe de Timothy Dalton é totalmente fiel ao que já foi mostrado nos quadrinhos, sendo ele um homem cheio de mistérios e rancor mas que ao mesmo tempo demonstra um grande afeto por seus companheiros na Mansão Destino, e o carisma presente na performance de Dalton mostra muito do mentor forte e acolhedor que Niles Caulder sempre foi, o que fica perfeito para bater de frente com seu grande inimigo: O Senhor Ninguém de Alan Tudyk. O trabalho de Tudyk na série vai além do excelente, com um personagem que rouba a cena sempre que aparece em tela, construindo a jornada de vingança de um zé ninguém que nasceu para ser mal, e a forma como o vilão brinca com a quebra da quarta parede e ao fazer críticas pesadas as narrativas e outras séries ou com o próprio serviço de streaming de forma caricata impressionam ainda mais no show.

Mas duas das principais performances da série não estão nas expressões físicas, mas sim na dublagem de dois personagens: O Homem-Negativo e o Homem-Robô, interpretados por Matt Bomer Brendan Fraser, respectivamente. 

Fraser e Bomer emprestam suas vozes a dois personagens que seriam difíceis de mostrar expressividades pelo simples fato dos dois serem os únicos que apenas dublam dois seres cobertos por bandagens ou por uma roupa prática de robô - traje construído pela produção do show que dá um ar de realismo ao personagem em tela; e quando os personagens estão representados com seus dublês de corpo (com Riley Shanahan como o Homem-Robô e Matthew Zuk como o Homem-Negativo). Juntos as vozes dos dubladores, a naturalidade daquilo que parece ser o trabalho de uma só pessoa existe graças a uma bela colaboração entre todos os seus intérpretes. Fraser traz seu grande retorno como Cliff Stell depois de muito tempo recluso das telas e consegue encantar o público como um robô que está tentando corrigir seu statos como homem e tentar proteger quem está junto a ele (que é retratado na relação paterna que Cliff tem com Jane durante a série). Já Bomer consegue passar os traços de um homem que tenta fugir de seu passado, mas que se vê numa constante batalha para poder assumir ser quem ele realmente é, e sua parceria com o Espírito-Negativo mostra como esse medo pode ser trabalhado e vencido, e mesmo nas vezes em que o ator aparece em cena carregado com maquiagem, conseguimos ver sua expressividade máxima em tela, sem deixar a desejar em momento algum.

Patrulha do Destino aposta em personagens desconhecidos e ao mesmo tempo cativantes, com histórias repletas de bizarrices e com um belo e divertido desenvolvimento. Tanto os fãs de longa data quanto os de primeira viagem vão ganhar muito com essa que já pode ser considerada a melhor série da DC (e de heróis em geral) até o momento.