A perfeição e o sonho eterno das casas sem muros e com jardins extensos do subúrbio norte-americano parece muito mais um delírio quando pensamos sobre a realidade. A busca por esse american dream branco e padrão não é mesmo de hoje e foi caracterizada nas obras há muito tempo. Todo esse desejo não deixaria de ser algo inofensivo caso não vivêssemos em uma realidade e principalmente em um mundo onde ser diferente comprova-se como um atestado de morte. 

Little Fires Everywhere (Pequenos incêndios por toda parte) é a nova produção do Hulu e que foi distribuída pela Amazon prime aqui no Brasil. A minissérie, baseada em um livro de mesmo nome e escrito por Celeste Ng, é estrelada/produzida por Reese Witherspoon e Kerry Washington. Temos aqui a fórmula perfeita para um novelão norte-americano sobre dramas familiares, plot twists chocantes e muita discussão, porém é muito mais que isso, tipo... muito mesmo.

A história fala sobre duas mulheres de origens completamente diferentes que têm os seus destinos entrelaçados da maneira mais insana possível, mas que gera uma trama muito intensa trazendo questões sobre amadurecimento e escolhas além de principalmente, hipocrisia, e ao fato de como a relação entre mães e filhos pode ser complicada e até tóxica.

Dentre a temática familiar que de certa forma já conhecemos nesse gênero, o roteiro deixa muito claro do que realmente está falando, o racismo institucionalizado ou estrutural é um grande mote e está presente a todo momento como um lembrete e um contraste do quanto essa sociedade utópica dentro daquelas cercas brancas com casas perfeitas, simplesmente não se encaixa no mundo real.

A ambientação dos anos noventa é perfeita para o desenrolar da história, em uma época onde o entretenimento nos Estados Unidos, comparado ao que vemos hoje, ainda engatinhava no desenvolvimento de uma linguagem menos ofensiva para as minorias e que foi abrindo espaço para grandes nomes como Chris Rock, por exemplo. Friends explodiu como uma das maiores sitcoms da história, com seis protagonistas brancos e heteronormativos. A série que dentre suas inúmeras subtramas trouxe um casal lésbico, uma barriga de aluguel e um pai transexual mais pra frente, e mesmo com incontáveis piadas preconceituosas que eram aceitas, é considerada a grosso modo como uma forma de subversão para a tv do país na época. 

Com isso tinha-se a sensação de que questões raciais estavam começando de fato a serem ultrapassadas e que naquele momento elas faziam parte de um passado longínquo e tenebroso onde o racismo perverso e segregador era mais explícito na própria constituição do país, mas que na década de noventa estava finalmente ficando para trás com os “African americans”, (O termo que, da forma como foi usado na minissérie, em uma tradução honesta fica como quando aquela pessoa preconceituosa tenta denominar uma pessoa preta) como repete a personagem de Witherspoon constantemente, “conquistando” lugares na sociedade.

Estamos em dois mil e vinte e sabemos como isso acabou.

O Fato é que essa sensação de superação coletiva, mais precisamente entre os brancos, foi deixando muito mais óbvio o tal do racismo estrutural e como ele estava/está impregnado na sociedade de uma forma muito mais profunda. 

Elena Richardson, a personagem de Reese é uma mãe que aparentemente por ser jornalista, age o tempo todo como se fosse um grande exemplo de alguém de ideias progressistas e contra o racismo, mas que no fundo, além de não se dar conta do seu privilégio óbvio, apresenta atitudes silenciosamente perturbadoras e o melhor, com toda naturalidade possível.

A forma como ela torna tudo tão normal dentro do seu universo é o mais interessante de assistir e também constrangedor. Reese está perfeita no papel, trazendo toda uma dualidade para um personagem que não consegue ser odiável o tempo todo, mas chega perto em vários momentos e claro, a forma como ela torna tudo isso real e palpável. Criando até um sentimento de culpa na gente, por se importar em alguns momentos quando ela se mostra vulnerável.

É claro que o contraponto perfeito é a personagem de Kerry Washington, Mia Warren, uma artista, mãe de uma filha já jovem e que anda pra lá e pra cá com um carro velho e que vem viver na comunidade de Elena. Completamente destoante daquela realidade, fica óbvio que a decisão de viver ali, esconde um motivo muito maior. 

No entanto, apesar do mistério ser um grande fator na história que conecta as duas personagens e que dá vazão para todo o subtexto da narrativa, ele não é tão aterrador e provavelmente nem era pra ser. O dilema que é gerado a partir de sua descoberta, ainda nos primeiros episódios, é que torna tudo mais instigante.

A forma como Kerry mergulha na história de Mia, torna a personagem tão real que quase parece que ela existiu, mesmo tendo uma história tão singular em certos pontos específicos e ao mesmo tempo tão próxima da realidade em muitos outros. Até nos trejeitos essa entrega se prova, com um tique constante que ela faz com a boca.

Mia se mostra como a antítese de tudo aquilo que Elena sempre acreditou, ou ao menos se forçou a isso como consequência de suas escolhas pessoais. É a prova perfeita e até assustadora de que a liberdade existe de várias formas distintas e que se desprender daquilo que na sua cabeça te torna perfeito aos olhos das outras pessoas, não é mesmo o fim do mundo.

No episódio que conta o passado das duas, ficamos sabendo finalmente sobre o grande mistério que envolvia Mia e do que a levou a isso. Além de como Elena se transformou de uma jovem inconsequente e aventureira, para o que se tornou no futuro. Todo esse capítulo funciona como um paradoxo tanto entre passado e ao que conhecemos do presente da história, tanto como entre as protagonistas. O poder da escolha é o ponto principal aqui, quando uma delas se torna uma adulta infeliz porque escolhe de certa forma ser presa aos padrões estabelecidos e a outra faz exatamente o contrário, ainda que tenha que lidar com sérias consequências no futuro.

Aliás um grande salve para AnnaSophia Robin que interpreta a Elena jovem e entrega outra grande atuação, talvez uma das mais importantes de sua carreira até então. 

Repara se não é a própria filha da Elle Woods?

A escolha do cast é rica e cheia de rostos muito promissores, além de que foi feito um ótimo trabalho de busca por feições parecidas entre mães e filhos. A que mais chama atenção nesse quesito é a atriz, Jade Pettyjohn que faz a exata cópia da mãe, Lexie Richardson e que claramente não foi contratada apenas por seus traços que lembram muito Reese. Uma cena específica do último episódio, explica bem isso.

Lexi Underwood que atua como Pearl Warren, a jovem e única filha de Mia, provavelmente é o grande destaque entre o elenco mais novo e entrega cenas grandiosas, não só entre ela e sua mãe como também com a personagem de Reese. É incrível como ela consegue ter química com absolutamente todos os personagens. Outro ponto é como sua evolução ao longo da narrativa é absorvida pela sua caracterização, que vai mudando à medida que ela se transforma, ou ao menos tenta, em uma garota do subúrbio

Outra integrante da família Richardson que se destaca é a subversiva, Izzy que é interpretada por Megan Scott. A filha que destoa completamente do que sua mãe prega, é um dos pontos principais da história. Ela representa de uma forma bastante curiosa, uma espécie de realização de alguns dos desejos mais profundos de sua mãe, isso fica evidente no último episódio, mais especificamente na cena que encerra a minissérie e deixa claro tudo que estava nas entrelinhas do porque Elena sempre rejeitou tanto a própria filha.

Izzie é a subversão em pessoa, ainda que com toda sua ingenuidade, que é confrontada brilhantemente no roteiro pela própria Kerry Washington, e esse é um dos muitos momentos que a gente entende realmente qual a importância de ter essas mulheres não só atuando como produzindo e construindo esses pequenos detalhes que fazem a obra se destacar como um todo.

Numa das cenas mais emocionantes, a personagem tem uma conversa séria com Mia, com quem nada curiosamente consegue desenvolver uma ligação forte quase de mãe/filha. A personagem está sofrendo por não entender os entremeios de sua própria sexualidade  e principalmente a forma como nunca é aceita, em casa ou na escola. Mia, torna tudo aquilo mais fácil, simplesmente fazendo tudo o que a própria mãe de Izzie não fez e dizendo que é possível ser feliz de qualquer jeito e que ela deveria se orgulhar por ser ela mesma.

Lembra quando todo mundo se reunia sempre na sala para assistir TV? Não? Eu também não muito. Mas era assim nos anos 90.

Outro ponto importante é a ambientação da série que trás os anos noventa em todos os detalhes possíveis, fazendo a gente se acostumar outra vez com crianças reunidas na sala para assistir tv e claro, em um mundo onde simplesmente não existiam celulares como hoje. É um pouco estranho no começo, principalmente quando a narrativa apresenta as tramas entre as crianças, que geralmente são tão ligadas a tecnologia, mas o roteiro contorna isso perfeitamente e nos familiariza com o universo facilmente e isso criando uma sensação como se ao mesmo tempo eles fossem jovem hoje em dia.

Por fim, trazendo tantos significados, discussões e conceitos importantes, principalmente para o que o mundo está vivendo nas últimas semanas, Little Fires Everywhere representa uma grande entrega de uma história rica e com um drama que é impiedoso e certeiro, sem fazer rodeios. A narrativa é crua e cheia de humanidade e definitivamente um dos grandes nomes desse ano.