O ano de 2019 no Brasil chegou com diversas polêmicas relacionadas que abrangeram diversas camadas da sociedade, e um dos temas que mais gerou discussão em uma parcela da população foi a questão da Educação no país e como algo tão importante como ela está passando por ameaças de extinção em certas áreas. A partir dessa situação, a Globo lançou no segundo semestre desse ano o seriado Segunda Chamada, uma de suas mais aguardadas produções que estava sendo preparada desde 2017, e com o encerramento de sua primeira temporada na última terça-feira (17), o seriado conseguiu se tornar um marco para as produções do estúdio ao querer abordar temas tão tensos em meio a um ambiente tão rico para discussão como as Escolas.

Segunda Chamada conta a história da Escola Estadual Carolina Maria de Jesus, que por mais que poucos percebam, é uma das mais importantes personagens de toda essa história, pois é nela que conhecemos a história dos estudantes do curso noturno de adultos da escola pública, e esse ambiente é retratado com bastante cuidado para mostrar a diversidade que existe em sala de aula, com diversas modas, rostos e sotaques que lá vivem, e junto a esses personagens que aparecem com seus dramas pessoais para aprender e ter um futuro garantido, conhecemos  os grandes agentes transformadores dessa instituição e da vida desses jovens: seus professores, personagens que surgem na trama como um simbolo de esperança na vida de pessoas tão desamparadas nessa sociedade, e mesmo que muitos coloquem os professores em palanques e os denominem como grandes guerreiros em meio ao caos da profissão docente, o seriado vem com a proposta de mostrar que esses personagens são tão iguais quanto seus estudantes imaginam, mostrando suas fraquezas e seus dramas que se dividem em assuntos que ocorrem dentro e fora de sala de aula, e com esses dois aspectos da trama, as autoras Carla Faour e Júlia Spadaccini acertaram ao abordarem temas importantes do cotidiano para o show, como intolerância, violência doméstica, preconceitos diversos e desigualdade social.

Todo o elenco de Segunda Chamada merece uma salva de palmas por conta de suas incríveis performances que conseguem transmitir verdades aos seus personagens. Os estudantes como Linn da Quebrada Felipe Simas entregam atuações dignas de tirar lágrimas dos espectadores com seus dramas pessoais trazidos para classe, e estudantes veteranos como Teca Silveira José Dumont mostram que não existe idade pra correr atrás de um futuro melhor, e são ideias como essa que nos tiram um sorriso no rosto em meio a todos esses dramas.

Mas é difícil comentar a respeito das atuações sem falar dos incríveis atores que deram vida aos professores, e é mais difícil ainda decidir qual deles é o meu favorito, pois, ao mesmo tempo em que eles tinham em comum o objetivo de educar, cada um conseguiu apresentar um elemento único de personalidade que cativava. Todos eles são apresentados como os professores que conseguem estabelecer uma ponte de diálogo entre estudante e mestre (um tipo de professor muito sonhado por ai), e mesmo vivendo com seus conflitos, eles não se rendem quando o assunto é dar conhecimento e futuro aos seus aprendizes.

Débora Bloch nos traz uma personagem guerreira, que mesmo após tantas tragédias recentes em sua vida pessoal, não consegue perder as esperanças nas pessoas que estão em volta dela, dando sempre mais uma chance mesmo sabendo das consequências. É com sua personagem que começamos a conhecer o universo que aquela instituição tem para oferecer, e a entrega da atuação dela é forte e emocionante. Já Thalita Carauta vem como uma das mais carismáticas personagens do seriado; e mesmo que muitos lembrem dela por seus trabalhos na comédia, é no drama que conhecemos o melhor dela (lembrando que é na comédia que conhecemos os melhores atores dramáticos), com incríveis diálogos para as mais diversas soluções que a trama apresentam, sem perder esse equilíbrio em todas as suas cenas. Silvio Guindane é apresentado como um professor de artes esperançoso que aos poucos vai conhecendo a realidade onde ele está inserido no campo da docência, e mesmo no começo parecendo um personagem ingênuo, descobrimos que ele tem um passado muito abalador e isso criou uma incrível visão de mundo pra ele, que faz com que ele se expresse nas artes em sala de aula, e é com seu personagem que temos uma das maiores reviravoltas da temporada que aparece no último episódio, entregando um ótimo trabalho de roteiro e atuação. Hermila Guedes tem um dos arcos mais tensos da primeira temporada ao se comentar a respeito de relacionamentos abusivos, e com isso vemos como a personagem utiliza dos piores métodos para não focar nesse assunto tão intenso; mas mesmo que ela pareça ser uma professora fria, ela demonstra ter um passado feliz e que ainda confia nos seus estudantes, e também vemos que sua personagem sabe lidar muito bem em situações de conflito, com uma incrível atuação que mostra como um professor sabe lidar com uma infinidade de problemas no meio escolar e ser um humano fora daquele ambiente. E Paulo Gorgulho aparece como um diretor casca grossa, e mesmo que ele pareça ser chato no começo, ele só está cumprindo o seu papel na trama, e com o tempo nós entendemos que ele também acredita não só nos estudantes, mas também nos profissionais que estão presentes ali, sendo um grande amigo e dividindo um par romântico muito bem trabalhado com Débora Bloch durante a primeira temporada.

No geral, Segunda Chamada encerra sua primeira temporada de forma coesa e com um belo discurso sobre o papel do professor como agente transformador da sociedade, mostrando como é importante valorizarmos quem está em frente a nós dando lições que vão além das lições que vemos nos livros, ensinando a ter esperança e dando a devida importância a vida. É fácil falar que essa é, sem sombra de dúvidas, uma das grandes surpresas positivas do ano.