Uma das melhores temporadas de Bojack Horseman consegue a proeza de se aprofundar ainda mais nas camadas de seus personagens, chegando a um local sombrio onde reside o verdadeiro "eu" que tem plena consciência do quão terrível e prejudicial pode ser para aqueles que estão ao redor, e o pior, além da convicção de todo esse mal, ainda existe a certeza de que isso é imutável. Toda a escuridão da nossa alma, que por vezes, consegue ser repreendida, é apenas uma massa expessa do nosso mais sincero retrato subjulgado para a sociedade, e que mais cedo ou mais tarde, toda essa fumaça será exposta e não há nada que possamos fazer para mudar isso. 

A quarta temporada se encerrou com um fim positivo para BoJack, e não é surpresa ele ter voltado para o mesmo ciclo de auto depreciação e alcoolismo depois de Hollyhock ter ido para a faculdade. As filmagens de Philbert, uma série sobre um detetive alcoólatra que tem muitas semelhanças com o protagonista acaba o afetando de formas avassaladoras. Ele tem um péssimo relacionamento com Flip, o criador da série, o que repete o ciclo dos conflitos que ocorreram em Secretariat

O divórcio entre Diane e Mr. Peanutbutter tem gerado efeitos negativos para os dois. Ao mesmo tempo em que Diane tem problemas de se encaixar em sua nova vida e a frustração na carreira, o cachorro tem que lidar com o fato de não amadurecer, o que acaba cansando suas parceiras dessa personalidade alegre ao extremo e do fato dele nunca estar prestando atenção. Todd, agora dormindo no sofá da Princesa Carolyn ainda tenta lidar com sua sexualidade. A gata empresária finalmente recebe o tratamento de roteiro que merece, com direito a um mergulho em seu passado para explorar suas motivações e desejos. Carolyn pretende adotar uma criança, mas a carreira de agente e os problemas com BoJack acabam entrando no caminho. 

A quarta temporada já tinha conseguido ir muito além do que podíamos imaginar no que tange os círculos e problemas de BoJack. O fato iminente de ser de repente pai, fez com que nosso astro tivesse uma visão mais ampla de tudo aquilo que estava flutuando ao seu redor. Ao final de sua jornada pela quarta parte da série, BoJack assume suas falhas, se aceitando como um cara que nunca estará preparado para ter uma filha e mantê-la segura, e vê nos olhos da jovem garota, um reflexo estranho, onde enxerga por um momento que  poderia ser muito mais do que aquilo que pensava. E no desejo de tentar ser o pai que Hollyhock precisava, o cavalo percebe que apesar de suas tentativas, o cara bêbado, descontrolado e insensível ainda estava ali, mas que isso era parte dele, e o que poderia fazer era pelo menos tentar mudar. 

Agora estamos em 2018. Sarah Lyn, Beatrice Horseman e Herb Kazzaz estão mortos. O que eles têm em comum? Todos tiveram em suas vidas a presença conturbada de Bojack. 

Os personagens nunca foram tão transparentes. Princesa Carolyn e Mr. Peanutbutter compartilham de uma saga que os leva a confrontar seus anseios, sua solidão e seus traumas escondidos na parte mais profunda de suas almas. Bojack e Diane guiam a temporada se contrapondo e guerreando um contra a hipocrisia e medo do outro. Enquanto Diane representa e aflora sua fala mais feminista, BoJack parece se esconder atrás de uma crosta da sua masculinidade tóxica e essas direções opostas levam a trama para lugares expecionais. Todd perde um pouco de potência ao sair da casa de BoJack e todos os seus dilemas, vícios e medos se rendem ao teor cômico que pode gerar. Essa mudança combina muito bem com o personagem, já que trata de um assunto muito polêmico e perigoso, a assexualidade. 

Já no primeiro episódio dessa nova temporada conseguimos perceber qual sentimento será mais gritante em todos os episódios: o desespero. Se nas temporadas anteriores havia uma fagulha de esperança que resultava na tentativa de reconciliação com o mundo, além de uma notável transformação, aqui temos apenas a desistência; a aceitação do caos. Sendo assim, não há salvação para BoJack. Não há salvação para Hollywoo. Assim como cada astro da indústria caminha numa corda bamba em busca de sua mais profunda existencialidade, a verdade é que apesar dessa busca constante, a certeza é clara de que suas almas são apenas papeis picados e quase queimando á beira de um abismo sem fim. Não há caminho de saída, nem Deus Ex Machina que possa salvá-los. Nem mesmo a morte pode apagar seus erros, e o que resta é apenas condenação. Um grito de socorro que ninguém ouve, ou então, finge não ouvir.  A sujeira dessa industria é visível a olho nu e parece que quem se atreve a tentar limpá-la, acaba se contaminando e morrendo muito antes de poder gritar.

Toda essa trama ainda carrega aquilo que foi mostrado na primeira temporada. O humor ácido, a profundidade dramática, e os personagens cada vez mais densos. No entanto, há um ingrediente a mais nessa receita. BoJack agora parece se perder no personagem que interpreta na série Philbert. O uso da metalinguagem eleva os episódios para um nível tão alto, que não há um episódio sequer nas temporadas anteriores que seja capaz de superá-los. O universo de BoJack belisca mais o real e isso não tira ninguém da linha de fogo dos tiros afiados que a série dispara. Serviços de streaming, diretores, assédio sexual na indústria, ninguém escapa.

Com isso, a quinta temporada de BoJack Horseman chega em um ponto muito distante daquele onde partimos em 2014. Tanta coisa aconteceu, principalmente entre Diane e BoJack. Em um movimento instável durante todas as temporadas, os dois se afastaram e se aproximaram ao longo do tempo, mas agora a aproximação parece ser mais do que inevitável. Um só tem ao outro para recorrer, por mais que isso seja odiável e decepcionante por parte deles. A raiva e a angústia entre os dois ainda está lá, cada vez mais à flor da pele, mas em movimento passivo de tentar aguardar um pouco mais antes de explodir novamente. Parece haver a certeza entre os dois de que a redenção nunca virá para nenhum deles, mas se eles foram o que sobraram para o outro, o que resta é abraçar os demônios amigos para tentar sobreviver mais um dia. 

Apesar de tudo, Diane é quem mais conhece BoJack e vice-versa. Eles estão presos em uma corrente de quase esperança de que as coisas um dia vão ficar bem. O astro de Hollywoo, que busca apenas se tornar alguém melhor só consegue se afogar em si mesmo; cada vez mais, cada vez mais fundo, sem poder ver a luz do sol. Diane busca o mesmo. Mas se afoga naquilo que não consegue ser. Uma mulher que vive o que fala e que está bem com isso. No fundo, Diane sabe que não há esperança que o futuro será melhor do que o hoje, e mesmo assim, parece cada vez mais fugir da realidade em um complexo jogo de cegueira, onde deseja não enxergar aquilo que tanto lhe estapeia a face. Talvez por isso seja tão diferente e igual à BoJack. Ambos estão acorrentados em um apocalipse individual e a única esperança para passar por tudo isso é estando juntos.