Quando o trailer de Insatiable foi divulgado imediatamente gerou um protesto mundial em virtude da temática esquisita que a série estava se propondo a apresentar. Se tratava de uma abordagem acerca da "gordofobia" só que em tom cômico, na verdade em humor negro. O corte final não teve nada de engraçado, e a série se tornou 12 episódios repletos de piadas de mal gosto e bastante preconceito.

A trama gira em torno de Patty Bladel (Debby Ryan), uma menina que tem compulsão alimentar e sofre bullying por estar acima do peso. Certo dia ela leva um soco de um mendigo e acaba quebrando o maxilar, o que faz com que precise ficar 3 meses somente com alimentação líquida. Por esse motivo Patty fica magra. Agora ela quer vingança, e vai fazer de tudo para que todos sintam sua dor, além de também tentar entrar no mundo dos concursos de beleza norte-americano. 

Na minha opinião nem todo tipo de humor pode ser tratado como brincadeira. Existem coisas que não devem ser tratadas como piadas porque causam sofrimento em muitas pessoas. Estamos em 2018, fazer piada maldosa por causa do peso de alguém é simplesmente inaceitável, especialmente quando isso acontece numa série original de uma plataforma de streamming tão influente como a Netflix. Esse é o tipo de viés que não repercute bem especialmente pela época político-ideológica em que estamos vivendo.

A temática além de absurda é tratada de uma forma muito esquisita. Porque ora quer levantar uma bandeira de empoderamento com uma frase de efeito, ora todo o discursso cai por terra por causa de outra frase de efeito, que tenta sair engraçadinho, mas que sai bem "vergonha alheia".

O roteiro é bem pobre. Coloca a personagem principal em extremos pra tentar extrair comicidade, mas não soa nada risível, e na maioria das vezes só é preconceituoso mesmo. Em certos momentos parece que a piada vai ser dita para em seguida vim algo que possa ser transformado em lição, mas na verdade só é mais um momento gratuito. Também por demérito do roteiro não conseguimos ter empatia pela história de Patty, e isso não nos conecta a sua trajetória nem nos faz entender seus dilemas.

Debby Ryan está péssima com essa personagem, não consegue traduzir nenhuma das inseguranças e desafios que sua Patty precisou enfrentar até aquele momento. Isso pode ser explicado porque só a vimos gorda apenas nos 5 primeiros minutos da série, e esquecemos facilmente porque ela aparenta ser mais um bebê chorão do que alguém que só é insegura porque sofreu preconceito.

Os personagens secundários brilham muito mais que a protagonista. Em especial destaco a amiga de Patty, Nonnie Thompson (Alyssa Milano), que teve seu dilema bem explorado, já que a personagem estava descobrindo sua sexualidade, e mesmo que no início não seja tão legal vê-la à sombra de Patty, seu desenvolvimento causa empatia graças a interpretação de Alyssa Milano, e é interessante ver como ela vai se descobrindo. Ouso dizer que se a série focasse nesse dilema e nessa personagem tudo seria muito mais interessante.

No mais, Insatiable é uma série chata, que tenta ser engraçada com piadas pesadas que por vezes são preconceituosas, e que definitivamente não deve ser recomendada para pessoas que sofrem com algum distúrbio alimentar, pois o roteiro, embora tente algumas vezes ser inclusivo, só consegue transparecer que a personagem não consegue se aceitar em primeiro plano, tudo pra ela é ruim porque ela é gorda, e mesmo quando emagrece, o seu psicológico é tão mal retratado que nos parece ser só muito mimimi e não algo que deve ser levado para a reflexão.

Na verdade, eu não recomendo essa série para ninguém, é totalmente desnecessária. Confesso que quase não consigo chegar ao final. Fico me perguntando o porquê da Netflix ter aceitado um projeto tão banal como esse, e lamento que esteja no catálogo de originais da plataforma de streamming.