Quem nunca fez uma boa maratona daquela série que à primeira vista parece não ser tão profunda a ponto de nos fazer pensar demais? Geralmente é aquela produção que nos faz apenas embarcar nos dramas, geralmente de adolescentes ricos que agem como adultos e fazem o espectador se realizar em suas ações, provavelmente completamente inimagináveis dentro de um contexto real. Dessa vez, de certo ponto de vista, talvez não tivemos tanta sorte assim…

Sangue e Água, Blood & Water do título original é a nova série distribuída pela Netflix que conta a história de uma adolescente que teve sua irmã desaparecida quando ainda era um bebê e após completar dezessete anos e ir em uma festa completamente aleatória, descobre uma garota que se encaixaria perfeitamente no perfil dessa irmã; Essa mesma, trata-se de um prodígio, que todos amam e invejam, mas que também possui os seus segredos.

Trama batida claramente não é e provavelmente nunca será o problema quando temos uma boa construção ao redor dela. Um bom roteiro é naturalmente interessante quando ele sabe se encaixar em um contexto específico, sendo intrigante de qualquer maneira e sabendo lidar com o público que deseja atingir. Temos alguns exemplos de séries de grande sucesso com o mesmo público alvo dessa nova produção, ainda que em épocas bem diferentes, como Gossip Girl, Pretty Litte Liars e até a mais recente, Elite. O que todas essas possuem em comum é a realização que a nova produção da netflix apenas deseja apresentar, no entanto infelizmente não chega ao seu objetivo.

Ao terminar os seis episódios da produção, fica a sensação que provavelmente pensar uma história nesses moldes talvez seja bem mais difícil do que imaginamos. É notável que um grande esforço é feito aqui, a série acerta muito ao ir com os dois pés contra reproduções de estereótipos, inclusive muito presentes nessas produções citadas acima, além do óbvio que é trazer um elenco repleto de personagens pretos, incluindo sua protagonista. Estes que geralmente são retratados como, no máximo, personagens apoios para desenvolvimento dos protagonistas brancos e dentro dos padrões de Hollywood, agora ganharam suas próprias camadas, ainda que dentro de uma narrativa que não se desenvolve bem por vários fatores. O que é triste.

As atuações não ajudam, porém talvez a escalação seja de fato o problema. Um grande exemplo é a própria atriz Ama Qamata, que interpreta a protagonista Puleng. Ela parece ter um potencial escondido, mas não funciona muito no sentido de fazer a gente se importar com suas ações e pretensões. Absolutamente 99% de suas atitudes são egoístas, dissimuladas ou simplesmente desprovidas de qualquer, e repito, qualquer mínimo de noção.

Isso se reproduz em todo o restante dos personagens, a falta de qualquer senso de lógica é praticamente unânime e sim, é compreensível que assistir uma série com essa temática nos faz obrigatoriamente a usar nossa suspensão de descrença. No entanto, a obra extrapola em vários momentos, um deles é quando a protagonista usa o cartão da mãe escondido para comprar um teste de DNA na internet e a própria não faz nada a respeito, e ainda esconde embaixo de sua cama, como se ninguém fosse achar. Outro momento é quando Wade Daniels Dillon Windvogel, não só estudante como também o filho da diretora da nova escola de elite que Puleng vai estudar e que aqui faz o papel do amigo com uma paixão não correspondida, simplesmente faz uma visita a cadeia sozinho e usando uniforme da escola…

Natasha Thahane consegue trazer um ótimo frescor com sua audaciosa Wendy, que é um dos pontos fortes de toda a produção. Ela funciona como uma ótima antagonista relacionável na trama, mas brilha mesmo em um breve momento quando apresenta uma das críticas mais diretas feitas pelo subtexto da série, quando questiona sua professora em sala de aula sobre porque os alunos que vivem no continente mais pobre do mundo, precisam ser obrigados a dar tanta atenção a tragédias europeias quando na verdades eles sempre tiveram a sua própria para conhecer, o que não o fazem.

A direção dividida entre Nosipho Dumisa, Daryne Joshua e Travis Taute parece ainda menos interessante quando trazemos à tona aspectos que poderiam ajudar a salvar a produção, como edição e montagem das cenas, que parecem completamente deslocadas e tentam ao tempo todo estabelecer um suspense que não é sustentado em nada pelo roteiro. A produção parece ter a intenção em alguns momentos de parecer querer trazer uma proposta diferente que termina não fazendo muito sentido, principalmente quando levamos em conta o contexto.

Além de muitos outras questões que revelam a falta de um senso do exagero de até que ponto esses jovens podem fazer o que desejam, a série consegue ser interessante pelo sua conjuntura que inclui toda a ambientação na Cidade do Cabo, a trilha sonora com artistas da região e mais especificamente, as tomadas aéreas que nos fazem familiarizar com o universo. E claro, a proposta da netflix de distribuir mundialmente uma história de colegial que não é ambientada nos Estados Unidos ou qualquer outro país onde a língua falada seja o inglês e que a maioria dos personagens sejam brancos e heterossexuais e reproduzam o tempo todo uma lógica hipócrita de monogamia. A série ganha com isso, mesmo que no meio do caminho algumas meninas se xinguem de piranha, quando na verdade a culpa é de algum homem.

No fim dos seus enfadonhos seis episódios, Sangue e Água é uma produção que não consegue atingir a inovação narrativa a que brilhantemente tenta impor como proposta idealizada, ainda que chame atenção pelo contexto de produção e por trazer uma retrato mais fiel da adolescência atualmente, não consegue ter profundidade e parece não possuir nenhuma mensagem a passar através do seu roteiro, o que é algo triste, pois a série possui bastante potencial, só precisa de uma boa história para ser contada.