Se existe algo incontestável a respeito de Discovery, é que diferente das outras séries de Star Trek, o espírito aqui é trágico. Discovery é uma série trágica por essência e não é no sentido pejorativo. A essência da produção é marcada pelos traumas e pelas superações dos nossos limites e até onde podemos chegar, e além disso, como iremos chegar até lá.

Essa questão do “Eu”, ser em constante transformação é o que permeia os roteiros, as narrativas, aqueles personagens carregados do idealismo e da pureza da humanidade, ainda que evoluída, seguindo em constante processo de evolução. Humanos pela galáxia, explorando novos mundos e aprendendo novas lições.

Quando a segunda temporada terminou e saltamos para quase mil anos no futuro, tínhamos a sensação de estar entrando em um beco sem saída. Um caminho inexplorado, - o que de fato era, já que nunca estivemos tão no futuro assim em Star Trek -, mas que tinha um potencial quase ilimitado para contar novas histórias. 

O que esperar então? Logo de cara, encontramos um futuro distópico de alguma forma. O Dilítio, combustível primário e essencial para as viagens interestelares, tinha explodido simultaneamente por toda a galáxia, eliminando toda e qualquer possibilidade de comunicação e até mesmo a unificação de planetas. Sem esse trânsito e diálogo, a Federação havia deixado de existir. 

A Discovery parecia ser a nossa última esperança para reverter esse quadro, já que possuía o motor de esporos, que ainda que estivéssemos mil anos no futuro, ainda não havia sido replicado. Viajar pela rede micelial era a única forma de descobrir o que de fato ocorreu para que esse dilítio explodisse, e paralelamente a isso, poderíamos tentar encontrar o que restou da Federação, e quem sabe, revivê-la para o bem da galáxia, agora abandonada e desunida. 

Desde o momento em que Michael aterrissa solitária sem a Discovery e é obrigada a enfrentar esse novo presente confuso e caótico, passando pelo encontro com Book, até o último episódio, onde finalmente a protagonista assume a cadeira de capitão, a série passou por altos e baixos, mas mesmo assim, não deixou de explorar as possibilidades de brincar com gêneros, tons e apresentar novos personagens que deram um recheio para essa trama e agregaram significativamente todo esse universo. 

Sem a Federação como esse centro de unificação e ordem - sem autoritarismo - a galáxia se viu à mercê da Corrente Esmeralda, liderada por Osyraa, que partia da premissa escravagista e violenta para controlar planetas e liderá-los. Inegável que esse foi um dos pontos mais fracos da temporada, uma vez que Osyraa, apesar de apresentar um potencial interessante para ser aquela grande vilã, deixou a desejar quanto ao seu desenvolvimento, que foi apresentado de forma rasa e até mesmo jogada, como se não fosse ter uma relevância ao longo da temporada. 

Enquanto pensávamos que ela era mais uma vilã de episódio, e que a grande trama seria mesmo embarcada pela descoberta das origens da Queima, Osyrra era satisfatória para o andamento de alguns episódios, mas a medida que fomos caminhando para o final, e percebemos que ela tinha sim, um grande papel nessa temporada, a falta de substância não somente para ela, como para a Corrente Esmeralda como um todo, deixaram um vácuo na narrativa que perdia intensidade e força quando a já encontrada Federação era desafiada por essa organização criminosa que não era tão ameaçadora assim, mas que de uma hora para a outra passou a ser. 

Um outro ponto negativo para alguns, - não para mim -, foi a presença de Georgiou (do universo espelho) na terceira temporada da série. Quando vamos para o universo espelho no episódio duplo “Terra Firma", há um estranhamento nessa mudança brusca. Damos um “pause” na narrativa principal - que é a descoberta das origens da Queima -, e atravessamos para o outro lado, onde notamos que Georgiou, a grande Imperatriz terráquea, já não se sentia tão bem assim cercada por aquela violência caricata - da qual já estamos acostumados - do seu universo de origem.

No entanto, assim que esquecemos a trama principal e deixamos a Imperatriz nos guiar, somos levados numa narrativa até que bela, onde vemos o desespero de Philippa para salvar Michael, - feito que não conseguiu no passado -. Essa mini trajetória, que na verdade era um teste aplicado pelo Guardião do Tempo - sim, a mesma entidade poderosa da série clássica -, para entender se Georgiou era de fato uma nova pessoa que não pertencia aquele universo bruto, e para onde ela poderia ir, nos levou para um dos momentos mais satisfatórios dessa relação Michael-Philippa, e logo na abertura do episódio (Terra-Firma - parte I), temos um paralelo com o primeiro episódio de Discovery, onde as duas andavam pelo deserto de areia, dessa vez, um “deserto” de gelo, num planeta inóspito, indicado inclusive por Zora, os dados da Esfera.

Na temporada anterior, Michael tentava ressaltar a sua Philippa na Philippa do espelho, tentando salvá-la de alguma forma. Desta vez, foi Philippa que tentou salvar sua Michael original. Um paralelo belíssimo que complementa e encerra a trama das duas, uma vez que a Imperatriz, agora transformada, foi levada pelo Guardião do Tempo para um outro momento na história, onde sabemos que fará parte da nossa série de Star Trek, sobre a Sessão 31.

Apesar de entendermos a importância dessa despedida de Georgiou, ficamos com a sensação de que ela roubou demais um tempo que era precioso para mergulharmos na trama principal e descobrirmos o que de fato causou a Queima. 

A medida que vamos nos aproximando do final, mais especificamente nos três últimos episódios que formam uma trinca importante, notamos que apesar dessa gangorra de qualidade nos nove episódios anteriores - alguns perfeitos, outros apenas ok - do episódio dez em diante, temos um equilíbrio entre os personagens e o encaminhamento para a resposta das nossas perguntas e então temos Su’kal. Pensando em termos de alcance de calamidade para a galáxia, parece simplório que a Queima tenha sido causada por um momento de raiva e tristeza de uma criança kelpiana que foi gerada envolta em radiação de dilítio que transformou suas células, fazendo-o se comunicar diretamente com o combustível. 

No entanto, apesar de ser grande em termos de efeitos, Discovery estava ali conversando com o simples. Com a conexão entre as pessoas e em como a comunicação era fundamental para que todos caminhassem juntos em um tempo de paz e compreensão. Paralelo assertivo com os tempos atuais e pandêmicos, onde essa conexão está cada vez mais perdida - Lembro que a temporada foi gravada antes da Covid-19, então o tema é uma coincidência triste com o mundo real.

Sem a Federação, o universo estava sem diálogo. Era cada um por si, e claro que aproveitadores surgiriam. Sem leis, há o caos e o caos é o cerceamento de diálogo, comunicação e empatia. Ruína de toda e qualquer sociedade. 

A presença de Discovery era de fato a última esperança da galáxia para que houvesse uma tentativa de unificação dos planetas. Se as alianças foram rompidas, até mesmo da Terra com a Federação, outras haviam se criado. Romulanos e Vulcanos, agora viviam sobre o mesmo solo, e isso não significava que eles estavam em pleno acordo sobre tudo, mas havia um diálogo. Enquanto a Terra se fechou, a Federação foi perdendo espaço, e com o tempo, era apenas uma lenda. Uma frota de naves de diversos planetas que tentavam a todo custo, ajudar aqueles que precisavam, membros ou não, da Federação. 

Discovery ressaltou que basta apenas uma fagulha para que uma grande queima comece. Se a fagulha for medo, ele irá se espalhar. Mas se for esperança, ela irá com muito mais força. Michael, mais uma vez, é a líder desse movimento humano insistente e teimoso que acredita que tudo pode ficar bem se fizermos algo. Mas não sozinha. Todos ali tiveram um papel fundamental onde se aprendeu demais sobre o nosso propósito na vida. Saru, agora capitão em licença. percebeu que ajudado um de sua espécie, ele pode salvar toda uma raça. Seu coração agora tem uma bússola.

Nossa clareza de ideias e racionalidade é o que fazem da Federação de Planetas Unidos, uma entidade guida pela empatia por todas as raças e todos os povos. A Federação é a luz que guia o universo para tempos de diálogo, e que lição bonita tivemos aqui. Família. Seja em uma nave estelar ou em um quartel general, ou até mesmo em um planeta inteiro, somos família. Vivendo sobre uma única diretriz. Esperança.

Juntos, vamos voar. Vida longa e próspera.