Exibido entre 1998-1999, Cowboy Bebop conquistou o público e a crítica justamente pela sua ousadia. Com 26 episódios, o anime de Shinichiro Watanabe tem tudo que um fã do gênero vá gostar: personagens carismáticos com dramas bem trabalhados, ótimas cenas de ação e uma trilha sonora diferenciada.

Imagina a surpresa quando a Netflix, streaming responsável por Death Note (2017), anunciou que iria produzir um live-action baseado na obra. Era de se esperar mais uma bomba para o currículo da plataforma, mas o resultado final não chega a ser um desastre total. Fica a sensação que os realizadores apostaram no seguro e não tiveram coragem para investir em novas histórias. Tudo bem que Cowboy Bebop possui características únicas e seja bem difícil de fugir de algo tão marcante, mas uma adaptação precisa de novidades para justificar sua existência. O roteiro de Christopher Yost até tenta trazer conceitos e ideias interessantes, mas o apego excessivo ao material original prejudica o desenrolar da trama.

Cenas, falas e cenários icônicos do anime são recriados de forma falsa e sem vida. A ação é pouco inventiva e as lutas possuem coreografias medíocres. Faltou criatividade por parte da direção para que os momentos fluíssem de maneira coerente. O mesmo vale para a trilha sonora da Yoko Kanno. A compositora japonesa não conseguiu repeti a originalidade que teve em 1998. 

Algo que funciona é a caracterização dos três protagonistas. É a química entre eles que consegue esconder alguns problemas do roteiro. Um baita acerto em colocar o grupo sendo uma espécie de família. Jet Black (Mustafa Shakir) é o coração da equipe e muitas vezes rouba o protagonismo que deveria ser de Spike Spiegel (John Cho). Faye Valentine (Daniella Pineda) não é muito bem desenvolvida, mas a personagem se destaca quando pode. O problema surge quando a série tenta trabalhar os dramas do trio principal em apenas 10 capítulos. A graça de Cowboy Bebop era descobri aos poucos o passado dos personagens. Mas o live-action achou que seria uma ótima ideia acabar com os mistérios. Em pouco tempo já ficamos sabendo que Jet é um ex-policial, Faye foi misteriosamente colocada em sono criogênico e Spike já trabalhou como assassino de aluguel.   

Vicius (Alex Hassell) era uma das grandes promessas do programa. O produtor André Nemec já havia deixado claro que o antagonista e Julia (Elena Satine) receberiam mais tempo de tela. Uma pena que o arco envolvendo os dois seja sem graça. Muitas vezes a história do casal não se encaixa nos episódios. Existe uma tentativa de mudar os rumos de Julia, mas a reviravolta envolvendo a personagem não é bem trabalhada.

Diferente de outros live-actions baseados em animes, Cowboy Bebop não destrói tudo logo de cara. A série ainda tem potencial para ser explorado em uma provável segunda temporada. É necessário que a equipe criativa traga identidade e não faça com que o projeto seja apenas uma cópia.