Desde o primeiro capítulo, você percebe que não está diante de um drama convencional. Leva-se pelo menos três episódios até que o espectador entenda, de fato, o que diabos é Succession. Mais uma série de filhos disputando uma herança bilionária? Talvez, mas é a melhor que você verá até então.

Eu poderia citar os diversos prêmios arrebatados pelo elenco competentíssimo, mas não é necessário; tampouco serve de parâmetro de qualidade absoluta. Mas fato é que: desde o falecimento de Game of Thrones (2019), Succession tornou-se o carro chefe da HBO e a queridinha do público, atingindo recordes impressionantes de audiência na emissora e tendo um hype maior recentemente no Brasil. O quê a torna, afinal, tão especial assim?

Um dos principais motivos são os personagens egocêntricos e profundamente humanos. Você vai amar odiá-los, assim como sentirá o peso da culpa ao defendê-los. Logan Roy, dono de um conglomerado bilionário de mídia, não ensinou os filhos a "conquistar seus próprios bilhões", uma meritocracia da qual ele se orgulha veementemente. Mimou-os ao máximo, impedindo-os de vivenciar os riscos do mundo. O resultado? Quatro filhos mimados disputando o posto mais alto da empresa - ainda que não tenham necessariamente o talento e o esforço para isso.

O primogênito, Connor, na faixa dos sessenta anos, é o único que se ausenta do drama familiar, vivendo de mesada e com delírios de se candidatar à presidência da república. Já Shiv, a única filha, revela-se uma leoa quando o assunto é manipular e confrontar; Kendall, o segundo, se esforça para o ocupar o posto do pai, mas seu vício quimico e os conflitos existenciais sempre prejudicam-no. Por fim, temos Roman, uma criança que destila comentários ácidos e obscenos a todos. Isso sem falar no hilário Greg, um primo distante que cai de paraquedas em Nova York, na busca de alavancar sua carreira. 

Quanto à trama, temos sempre episódios com começo, meio e fim bem definidos. Todos, absolutamente todos os episódios, possuem alguma cena absurda e catártica - em geral, um momento melodramáticos com humor ácido, o qual você dificilmente esquecerá. A primeira temporada introduz um problema que ameaça o bem estar dos Roy, enquanto a segunda apresenta um conflito jurídico - tudo isso enquanto os filhos se matam, em troca do reconhecimento do pai. Já na terceira, a série se mostra um campo minado, e qualquer passo em falso pode ser mortal quando o assunto são negócios.

As jogadas de marketing, as trapaças e os golpes baixos são fenomenais, com direito a reproduzir "Rape Me" (Nirvana) no meio de um discurso empresarial para sacanear um irmão. Confie em mim: mesmo tomando atitudes inescrupulosas, você torcerá por eles em algum momento. Acompanhar o dia a dia na empresa torna-se uma tarefa divertidíssima e imprevisível, funcionando ainda como uma paródia do mundo absurdo e quase intangível dos bilionários. Tudo isso graças a um roteiro criativo, ousado e dinâmico.

A fotografia, aqui, dá o toque essencial à comédia: ela remete a uma sitcom documental, como The Office ou Modern Family. Em cenas de reuniões ou disputas, é possível espiar a reação de todos, com direito a vários zoons e a famosa câmera tremida. Se o humor constrangedor é a sua praia, então prepara-se para banhar em Succession! Talvez seja a melhor junção de drama e humor vista em uma série desta magnitude, resultando num dos maiores roteiros da atualidade. Você rirá e prenderá o fôlego com a mesma frequência - basta dar uma única chance à queridinha do momento.