Na ficção, sabemos que uma história não precisa ser realista pra fazer sentido. Basta haver um universo crível e fiel à sua proposta inicial, seja ela ligada à fantasia, drama ou magia. Dito isso, você provavelmente se lembra de alguma série que testou seus neurônios recentemente... Uma que te trouxe a sensação de "nada faz sentido" ou que "a trama desandou total".

   Exemplos típicos da cultura pop? Produções como as falecidas Pretty Little Liars, Game of Thrones (7ª e 8ª temporadas) e a mais recente bomba da NETFLIX Quem Matou Sarah? romperam um contrato básico com a audiência, abrindo mão da coerência por completo. Eram pistas falsas pra lá e pra cá, tramas inúteis e superficiais, teorias jogadas no ar - apenas para serem esquecidas futuramente - e personagens que foram completamente descaracterizados. Em outras palavras, uma sucessão de tapas na cara do espectador. Consequentemente, não é de se espantar que até o público mais fiel torça o nariz e abra mão da série. No pior dos casos, como nos ensinou Game of Thrones, um final desastroso pode apagar uma série por completo...

   No entanto, quando nos deparamos com tramas verídicas, nossa reação diante do absurdo muda instantaneamente. O pé fincado na realidade revela que, mesmo as histórias mais rocambolescas e alopradas, podem sim acontecer no mundo real. E neste, não há uma equipe de roteiristas com finais guardados a sete chaves; tampouco uma verdade escondida que está ali, apenas esperando ser achada. A resposta pode ou não vir à tona... 

   Em O Caso Evandro, por exemplo, fica claro o quão nebulosa a verdade pode ser. A insanidade da trama faz com que a minissérie crie asas e voe alto, apenas para logo cair em terra e percebermos que, o tempo todo, estávamos diante de um retrato do Brasil - um show de absurdos, é claro, mas um caso assustadoramente real. O suficiente para nos fisgar e embarcar numa infinidade de teorias!

   (Guaratuba, interior do Paraná/ local do crime)

   A sinopse, por si só, já é atraente aos fãs mais ávidos de mistério: dois garotos desaparecem numa cidadezinha no interior do Paraná, numa época em que se consolidava uma epidemia de sequestros de crianças no estado (1992). O cenário, a pequena Guaratuba, também nos soa familiar... A típica cidadezinha, que nunca experimentara um crime parecido, de repente fica paralisada no tempo; a população se vê imersa no luto, em busca de respostas que poderão nunca vir. Os principais suspeitos? Figuras do mais alto escalão, adeptas de bruxaria, num ano em que o pânico satânico ainda estava em alta no mundo todo. Mas nada, absolutamente nada em O Caso Evandro é tão óbvio assim...

 

   Há de se reconhecer, inclusive, o grandioso trabalho do professor Ivan Mizanzuk e a equipe de profissionais que costuraram toda a trama num podcast de 38 episódios. No meio tempo, houve o convite para a adaptação em formato de minissérie da Globoplay. Ainda que a trama seja composta de apenas oito episódios - enxugados em relação à imensa quantidade de material base - reviravoltas não faltam na trama, com direito a desaparecimentos, assassinatos, tortura, corrupção, satanismo, vingança e “mortos” retornando à vida. Em O Caso Evandro, não há espaço para bocejos nem encheção de linguiça, muito pelo contrário: o trabalho árduo foi justamente selecionar o quê mostrar ou não.

 

   O grande destaque da série, sem dúvidas, é o choque com a corrupção judicial e policial. Pensando bem, talvez espanto não descreva o sentimento com exatidão; creio que revolta seja a palavra adequada. E é a partir de uma indignação implícita que a minissérie, como todo documentário, assume um ponto de vista sobre a situação (neste caso, um que critica o sensacionalismo). Afinal, até que ponto deixamos de olhar para os crimes de maneira realista e com a devida seriedade, apenas para dar voz às teorias de conspiração? E ao mesmo tempo, como não especular? Em quem acreditar quando todos parecem esconder algo? Numa investigação onde a negligência foi a grande protagonista da vez, fica difícil apontar os verdadeiros culpados, principalmente num caso que beirou o "surrealismo". Mas fato é que, mesmo com várias questões em aberto, O Caso Evandro consegue entregar resoluções satisfatórias, graças a um trabalho jornalístico minucioso que se atém aos fatos.

  Após uma longa jornada de 8 episódios, recheados de reviravoltas, personagens aprofundados, depoimentos densos e tocantes (famílias, acusados, policiais e advogados) e um belíssimo trabalho de fotografia, é possível encontrar momentos de respiro e vislumbres de justiça - além, é claro, de uma excelente opção de entretenimento. E quanto menos detalhes você souber antes de dar play, melhor será sua experiência com a série...