A princípio, confesso que Barry não me soava nada grandiosa - por pura presunção, confesso. "Um assassino de aluguel que começa a fazer aulas de teatro". Seria mais uma comédia tosca para preencher a grade da emissora? Torci os olhos e pensei: "com certeza...". Hoje, três anos depois, percebo o tempo valioso que joguei fora.

Sinto como se houvesse encontrado uma mina de ouro. Uma que esteve ali o tempo todo, a céu aberto, sem nunca receber a devida atenção. Uma mina promissora, que não exaure o minério mesmo após três anos de exibição. Sem mais delongas, falemos da premiada Barry (2018)! 

Tudo se inicia quando ele, um ex-militar e atual matador de aluguel, é contratado para assassinar um bonitão em Los Angeles. O que ele não esperava era seguir o homem até o seu... curso de teatro. E é lá que Barry (Bill Hader) se encanta, pela 1ª vez em tempos! Desde o início, percebemos o quão desprovido de talento e antissocial ele é, mas ainda assim é interessante vê-lo tentando abandonar a carreira de assassino e se dedicando aos estudos teatrais. Lá, surgem o interesse amoroso (a ótima Sally) e o professor (o arrogante Cousineau), que acaba preenchendo o lugar da figura paterna do protagonista.

No entanto, a súbita mudança de vida não será nada fácil. Seu "agente" Fuches se vê frustrado com as decisões insanas de Barry e tenta convencê-lo a todo custo de voltar à vida antiga. A grande questão é que... nem precisava! O assassino de aluguel se vê em dívida com uma máfia chechena e com bolivianos, o que apenas dificulta o processo de "redenção" do personagem - se é que isso é possível. Destaque para o mafioso Hank (Anthony Carrigan) que é, de longe, o mais carismático da série.

Brilho, por sinal, é o que não falta em "Barry". Como uma série de 30 minutos, com apenas 24 episódios até então, teve o êxito de criar tantos persongens icônicos? Eis um segredo: Bill Hader, além de protagonizar a série, também fez o favor de criá-la, dirigir e roteirizar boa parte dela. Ou seja: controle criativo total! O gênio da comédia prova que também entende de ambientação e cria cenas dramáticas impressionantes! Elogiar montagem, fotografia e direção seria chover no molhado, pois basta ver alguns episódios de Barry para que você entenda do que estou falando. 

O primor de Barry (o maior deles, devo dizer) é conciliar drama e comédia de uma maneira impecável! As cenas de chacina e acidentes mais pesadas lhe arrancarão os maiores risos, com destaque para o episódio 2x06 (um dos maiores eventos da televisão). Nele, Barry deve assassinar um lutador de muai thay, mas não contava com a astúcia da filha de 10 anos do homem. O que se desenrola é tão absurdo, mas tão perfeito, que é impossível se importar com a lógica! Barry constrói tensão sem se esquecer de bater asas, apoiando-se num humor deliciosamente ácido.

E falando em tensão, essa funciona como um conta-gotas, despejando um pouquinho de caos a cada episódio. Se na 1ª temporada, o espectador ainda acredita na redenção de Barry, na 2ª fica claro que isso nunca irá acontecer. Mesmo que a comédia esteja sempre presente, com momentos absurdamente hilários e criativos, Barry também quer ser um drama profundo e sombrio - e diferente da recente Maldivas, ele consegue ser a dramédia perfeita! Na 3ª temporada, o que se vê é o matador abraçando sua podridão e suas "qualidades". E, afinal de contas, o que é mais humano do que isso?

Para aprofundar na psiquê de Barry, até mesmo os sonhos e alucinações servem de artifício (provavelmente inspirado por The Sopranos), mostrando que já não há mais salvação para ele, nem divina e muito menos terrestre. Até mesmo Sally, seu par romântico, se desprende da mulher insegura e sonhadora da 1ª temporada para se tornar uma arrogante e presunçosa atriz, capaz de tudo para se manter em Hollywood (a sátira à indústria é sensacional!). É fascinante explorar a podridão do ser humano, e Barry faz isso como ninguém (destaque para os surtos de Sally na 3ª temporada).

Além disso, um dos maiores presentes pra mim, fã de terror desde a infância, foi o final da 3ª temporada! O que vemos em tela não é mais tensão, é o horror puro! Quem diria que Bill Hader, um comediante nato, chegaria a esse ponto? Duas semanas após finalizar a série, ainda me vejo impactado por tudo que vi. As cenas icônicas permanecem em minha mente, como uma névoa que insiste em te cercar; isso só me faz ter certeza da qualidade dessa produção. E se existe justiça divina nesse mundo, uma das maiores provas recentes foi a renovação para a 4ª temporada na HBO!

Só tenho uma palavra para este evento: merecido! Que Barry ganhe mais reconhecimento fora da temporada de premiações!