Desde os primórdios do tempo, inclusive na literatura, somos arrebatados por personagens à margem da lei. Há um certo fascínio pelo proibido que nos encanta, e não importa qual seja a natureza dessa criminalidade sedutora, somos fisgados e é um caminho sem volta. 

A Netflix acertou em cheio ao distribuir Lupin, que além de contar com uma história envolvente, por vezes simplista, conta também com a presença ilustre de Omar Sy. Um talento brilhante que emana um carisma contagiante que, inclusive, sustenta os momentos fracos dessa primeira parte da série e os faz parecer irrelevantes. Basta que ele sorria.

Criado por Maurice Leblanc, no começo do século XX, Lupin é conhecido como um ladrão esperto e incrivelmente habilidoso na arte dos disfarces, e a escolha do roteiro em trazer a série para os tempos atuais, ajudou a enriquecer essa característica do personagem, que agora faz uso da tecnologia para se misturar na multidão através dos seus disfarces. 

Omar Sy é Assane Diop, um imigrante do Senegal que, no começo da adolescência, viu seu pai ser incriminado pelo roubo de um colar incrivelmente valioso. Antes de ser preso, no entanto, o pai de Assane, motorista dos donos do colar, deixa um último presente para o filho. Um livro de Arsène Lupin. A leitura se torna praticamente um refúgio para os acontecimentos recentes, e acaba se tornando uma inspiração para Assane elaborar uma vingança contra os patrões que jogaram o nome de seu pai na lama.

Bebendo da fonte de inspiração de Sherlock Holmes, - mesmo que de forma inconsciente, - a série se pauta pelas reviravoltas que têm a função de avançar com a narrativa e se misturar com elementos do passado e do presente, construindo paralelamente a história. Essa construção é orgânica, e pode causar uma certa confusão no início, mas a gente acaba entendendo essas transições e vendo que é puramente o estilo narrativo adotado para a produção. Um acerto!

Referências à obra original estão espalhadas pela série a todo momento, e são declaradamente parte da história, uma vez que o personagem literário é a motivação e inspiração para Assane, que inclusive, constrói seus pseudônimos através de anagramas com o nome do ladrão de casaca. O que parece apenas uma coincidência, acaba chamando a atenção de um policial fã de Lupin.

E então temos uma fórmula muito atraente e viciante. O clássico jogo de gato e rato com a polícia ou com algum capanga, se agrega à dramaticidade dos esquemas e ganha uma pitada ainda mais elegante quando se expõe as razões sentimentais para que Assane se sujeite a esse risco. Some tudo isso aos debates sociais que a série propõe que estão intimamente entrelaçados com o protagonista e temos um resultado extremamente positivo. 

A série perde um pouco de fôlego e ritmo na reta final dessa primeira parte e muito se deve, na verdade, à agilidade dos primeiros episódios que tinham um foco diferente. Na reta final, entendemos mais das motivações de Assane, e também entramos com mais afinco em sua vida pessoal, e notamos que essa vingança já lhe custou o casamento e o relacionamento com o filho.

Terminamos essa “meia história” com ganchos interessantes que só alimentam uma expectativa muito boa para a segunda parte da produção francesa. E com isso, Lupin se prova um grata surpresa em 2021 e não vemos a hora de ter Omar Sy novamente nas nossas telas.