Não é de hoje que a Coreia do Sul comprova para todos que eles são especialistas quando o tema é Zumbi! Em Trem para Busan (2016) e sua sequência Península (2020), ambos de diretor Yeon Sang-ho, ficamos maravilhados com o realismo das tramas e a boa execução de maquiagem e efeitos nos seres semi-mortos. Outra obra que confirma o domínio sul coreano da temática é Kingdom (2019),  série mistura elementos históricos com elementos de ação e zumbis. O mais novo sucesso do pais é All Of Us Are Dead.

O novo k-drama da Netflix, foi baseado em um popular webtoon Now At Our School  de Joon Dong-Yeun, e a serie se destaca em meio a esta crescente lista de conteúdo K-Zombie, pelos seus protagonistas centrais, jovens ainda no ensino médio. A tripulação de sobreviventes não são seus protagonistas armados muito menos preparados para esse caos, empunhando facões, adeptos de matar zumbis. Eles são adolescentes que literalmente têm que agarrar o objeto mais próximo deles, lembrando que eles estão em uma escola, e tentar transformar em uma arma para se defender.

All of Us Are Dead
Todos os adolescentes tentando viver

A trama

O marco zero a infecção por esse novo vírus, tem uma enorme conexão com o colégio Hyosan. Nessa escola do interior da Coreia do sul, um professor de biologia enfrenta uma situação de impotência ao ver seu único filho sofrendo bullying sem a mínima chance de se defender. E é meio a esse sentimento de impotência que o professor cria um vírus, poderoso e altamente contagioso, usando o próprio filho com cobaia.

De fato a  série apresenta uma das aberturas mais chocante de um K-drama na memória recente, mergulhando de cabeça na brutalidade da premissa do show. Começa em um telhado isolado nas horas seguintes da fictícia província sul-coreana de Hyosan, a chuva cai quando nos deparamos cara a cara com horrores provocados por um grupo de delinquentes do ensino médio, que torturam incansavelmente um colega de escola, Jin-su.

Os valentões não prestam atenção a Jin-su enquanto a vítima se acovarda e implora que parem. De repente, o comportamento de Jin-su toma uma curva de 180 graus. Ele começa a rosnar, seus movimentos como animais com sangue manchado em seu uniforme branco enquanto ele ataca seus agressores. E é ai que tudo começa a desandar.

Roteiro

Apesar de grandes pontos sociais trocados pelo roteiro, alguns pontos parecia perdidos em meio a tanta coisa que acontecia naquela situação caótica.

O show encontra seus momentos mais leves, de forma inteligente, o roteiro da espaço para que os jovens protagonistas encontre uns nos outros a razão para lutar: romances juvenis desabrocham no meio do caos, relações de amizades são criadas, são fortalecidas. Eles se vem obrigados a saírem de seus casulos e aprenderem a confiar em si mesmos e em seus amigos, independente de situação financeira, gêneros ou hierarquia escolar.

Alguns personagens ficaram um pouco perdido, como a adolescente que estava gravida e teve o bebê me meio ao apocalipse zumbi. Ninguém sabe ao certo nada sobre ela, ou o porque dela está naquela situação. Também não explica o porque nem todos se transformarem em zumbis.

All of Us Are Dead
Romance surge de onde menos se espera

Metáfora da solidão

O roteiro de Chun Sug-il vai muito além do terror de zumbis e sua sangrenta composição, no inicio da trama, ou seja o inicio da epidemia do vírus Jonas (assim que o vírus foi nomeado), vemos que sua criação foi teve como foco a inibição do medo e a utilização da raiva como gatilho de auto defesa, e de certa forma isso é prologado durante todo os episódios.

Os próprios protagonistas são jovens cheios de medos e receios, se vendo constantemente  as voltas de um impulso de desistir de tudo e se entregar ao vazio. A série propõe  que muitos já tinham essa compulsão muito antes do vírus existir, Talvez resultantes de convívio familiar, bullying escolar ou de auto cobrança sem fundamentos. Em muitos momentos de fato mostra que ele apenas sobreviviam muito antes das hordas de zumbis.

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Melhor casal da trama

Critica Social

Fica muito claro que All Of Us Are Dead, assim como em outros K-dramas, trás uma fora critica social , desta vez resgatando e atualizando a historia de zumbis como um metáfora ao sistema. Chun Sug-il, mostra um quadro bem abrangente  das violências pessoais que praticamos diariamente uns contra os outros, e como o sistema colabora e justifica tais atos, muitas vezes o incentivando. 

A série mostra bem o quanto o descaso do sistema ao sofrimento alheio, muitas vezes colocando o interesse institucional das estruturas conhecidas (governo, militares e educacionais) em primeiro lugar, acima das vidas humanas. 

O inicio do Vírus Jonas se deu devido ao fato do própria instituição escolar ignorar a ação violenta de um grupo de alunos e pro de manter do nome da escola, limpo e sem manchas. O próprio governo largou a cidade de Hyosan a sua própria sorte, para que isso não sujasse o nome do país, não importando com os cidadãos que necessitavam de ajuda. A questão que fica em nossa mente é, ate onde isso é apenas uma obra fictícia? ainda vivemos em uma pandemia, onde vidas foram perdidas devido a decisões erradas de um sistema problemático.

Personagens

Algo muito forte em All Of Us Are Dead, são os personagem marcantes, que faz o publico se identificar quase que de forma instantânea, fazendo para que torçamos para que eles fiquem vivos, alias um grande erro!

Nam On-jo (Park Ji-hu) serve como uma protagonista narrativa que se junta com seu amigo de infância Lee Cheong-san (Yoon Chan-young), sua paixão Lee Su-hyeok (Park Solomon), e a distante classe presidente Choi Nam-ra (Cho Yi-hyun) entre outros colegas de classe para lutar contra zumbis e valentões da escola.

Um deles é a pressão que jovens na Coréia do Sul sofrem pelo sucesso escolar. Jang Ha-ri (Ha Seung-ri) é uma garota prodígio no tiro com arco. A mesma não consegue sucesso em uma seletiva que a colocaria com praticamente os dois pés numa faculdade e agora a menina tem que conviver com isso. Inclusive, nos momentos que pensam na morte, um dos arrependimentos está relacionado a não poder continuar os estudos e ter uma carreira promissora.

Park Mi-Jin (Lee Eun-Saem) é outra que se preocupa com seu futuro acadêmico, porém ao mesmo tempo toca em outro ponto: a diferença financeira da população. Nem todo mundo que estuda naquela escola tem poder aquisitivo elevado. Alguns são bolsistas e ela sabe que não terá condições financeiras de fazer um curso superior. 

Embora o enredo siga um grupo central de estudantes presos no ensino médio, também nos é dado vislumbres de um político lutando para escapar de seu escritório; um influenciador de mídia social tentando cultivar a crise do conteúdo viral; e dois policiais, incompatíveis em seus níveis de coragem, correndo para recuperar o antídoto.

Todos nós somos Dead Cho Yi-hyun como Choi Nam-ra em Todos nós estamos Mortos Cr. Yang Hae-sung/Netflix © 2021
Estrategia

Veredito

All of Us Are Dead   se mistura em comentários sociais – desde as realidades não ditas do abuso físico, verbal e até mesmo sexual que os estudantes do ensino médio infligem uns aos outros, à guerra social de classes, ao cyberbullying e muito mais. Trazer tais temas para a tela é importante quando feito de maneira correta.

Infelizmente, a grande variedade de tópicos tocados pelos criadores da série, que acontecem por trás da premissa abrangente de um surto de zumbis, fazem com que eles se misturem uns com os outros, antes de eventualmente caírem pelas rachaduras.

All of Us Are Dead pode não oferecer nada exatamente novo no reino da carnificina zumbi além de sua natureza um tanto cruel e implacável, mas apesar dos tropeços a trama cumpre o que é prometido, uma série cheia de adrenalina, caos e sofrimento e lembrem-se o nome do show já alerta, Todos nós estamos mortos!


All of Us Are Dead possui 12 episódios e todos encontram-se disponíveis na Netflix.