Vinte anos após deixar o comando da nave capitânia da frota estelar, Jean-Luc Picard retorna para mais uma aventura repleta de conspiração, espionagem, androides e arrependimentos. 

Logo na primeira cena, enquanto contemplamos o espaço, a fronteira final de todo explorador, e observamos cada curva exuberante da inesquecível Enterprise-D, lembramos de cada passo dado até chegar ali. Cada barreira ultrapassada, cada raça alienígena encontrada, cada batalha, seja ela com os Ferengues, Klingons, Romulanos ou até mesmo os Borgs. Cada vitória e cada perda. Cada pessoa que ficou pelo caminho ao longo dos anos. Jean-Luc agora é apenas um homem marcado pelo tempo. Velho, fruto da linearidade da existência, cuja própria natureza foi questionada em alguns encontros com o inigualável Q

Picard agora é um homem com a reputação inabalável, mas tocado pela fragilidade de ser apenas um homem. Um pequeno humano ferido pela vida e sozinho no caminho que ele mesmo escolheu. Nas suas lembranças, o mais fiel e amado dos amigos: Comandante Data. O androide que além de ajudá-lo a encarar todos os desafios no comando da Enterprise, se sacrificou para que ele continuasse a viver. 

Começar a série com um jogo de cartas entre os dois, assim como foi o final de Star Trek: New Generations em 1994, é encantador, belo e simples. Ver o retorno de Brent Spinner ao papel de Data, e notar como mesmo sendo um sintético, o tempo também lhe foi sentido, beira o sublime para aqueles que tiveram uma forte ligação com a série que durou de 1987 a 1994.

Os tempos mudaram, e a estrutura das séries também. Enquanto na maioria das antigas séries do universo de Star Trek tínhamos episódios que começavam e terminavam em si, com algumas exceções, em Picard, acompanhamos uma linha narrativa linear que se desenvolve continuamente a cada episódio. Essa mudança na estrutura altera nossa relação com o universo, mas expande as possibilidades e amplia a imersão na trama, visto que temos um grande arco narrativo que não se desvia em cada capítulo. Resumindo: A nova abordagem funciona muito bem. 

Jean-Luc agora mora na Terra. Mais especificamente, no Chateau Picard, na França. Uma fazenda sossegada como sempre almejou retornar enquanto viajava pelo espaço. Após um sonho conturbado, que começou com um jogo de cartas com Data e terminou com uma forte explosão nas proximidades de Marte, o agora Almirante, sente que algo está estranho. Enquanto isso em Boston, Dahj, uma garota até então comum, é atacada por alguns, aparentemente, Romulanos e descobre que tem um grande poder para matar. Uma convergência de eventos faz com que os dois se encontrem e com isso, Picard assume a missão de salvá-la seja lá de quem for. Tudo dá errado. A garota é morta, Picard se coloca contra a Frota e as coisas começam a se confundir. O Almirante precisa de uma nave e um tripulação para investigar a suposta irmã de Dahj, que ele acredita ser filha de Data. 

Essa jornada de Picard de volta ao espaço, o leva a encontrar duras verdades sobre a frota e os Borgs e no meio de tudo isso, vemos o desenrolar da trama construindo novas histórias sem esquecer do passado. Referências e homenagens estão presentes em todas as partes e é perceptível na atuação de Sir. Patrick Stewart, o quão emocionado ele estava em retornar para o papel. 

O tom e a estética da série se pautam nas produções mais recentes, entre elas Discovery e os filmes, mas expande essa estética ao ponto de criar sua própria cara e se distanciar de tudo o que veio antes. É uma fórmula eficiente. A produção pega as bases do que tem sido feito atualmente e constrói sua própria estética em cima disso, mantendo uma similaridade que se difere. É algo novo, mas que parece familiar. É o que dá aquele calorzinho no coração. Essa criação tem um preço, e a CBS estava disposta a pagar. Os custos da série se assemelham aos valores de uma produção cinematográfica.

Aliado a estética, o ritmo de desenvolvimento da trama também é muito assertivo. A série quebra essa expectativa da ação incontrolável a todo momento e nos leva para uma abordagem mais serena e contemplativa das coisas, quase que como no ritmo de Picard, um senhor de idade. Os acontecimentos são graduais, a aparição e desenvolvimento dos personagens, também. É uma forma bonita e tranquila de acompanhar essa jornada pelo espaço. 

O espírito de liderança de Picard ainda estão ali, embora ele não seja mais um herói como antes. O respeito que o roteiro tem pela idade do protagonista, nos ajuda a caminhar no mesmo ritmo das ações da série, deixando-a envolvente, intrigante e elétrica quando deve ser. 

Picard se depara com seus próprios demônios, com seus arrependimentos e amarguras e precisa lidar de frente com eles, juntando todo o conhecimento adquirido até aqui. Ele sabe que não será fácil enfrentar e desmontar essa tal conspiração que parece tomar conta da Federação. Não será fácil encontrar novamente os Borgs e os Romulanos, e também não será fácil reencontrar velhos amigos e ainda assim, seguir em frente. A história de Jean-Luc é abordada em um arco intenso, emocional, contemplativo e completo. Ele se fecha e nos dá pistas sobre o futuro. Sem dúvida alguma, um grande adicional para todo o universo de Star Trek. 

 obs: sim, temos o retorno de alguns personagens queridos da série Star Trek: New Generations. <3