Histórias sobre máfia podem ser verdadeiramente fascinantes. Breaking Bad, Narcos, Sopranos, Boardwalk Empire... Todas estão cientes do magnetismo dos chefões do crime, principalmente quando testemunhamos a deterioração do personagem e daqueles ao seu entorno. Com Ozark, não foi diferente: ao longo de três temporadas, presenciamos todo o horror que a família Byrde sofreu/causou. E como muito bem diz o poster da nova temporada: "Ninguém sai limpo". O destino veio cobrar seu preço.

Por mais que algumas resoluções de roteiro possam soar absurdas, é muito difícil torcer o nariz quando se assiste Ozark. O conceito de ação e reação é tão onipresente que sabemos que nenhuma saída é fácil. Não há solução que não venha ancorada em outro problema, transformando qualquer bola de neve em uma avalanche catastrófica. Desta vez, Marty e Wendy quebram a cabeça tentando negociar a liberdade de Navarro, o chefe do cartel, com as autoridades. Surge, então, uma interessante sátira sobre os Estados Unidos.

Além das hipocrisias de Wendy e Marty, que usam a família como justificativa para tudo que fazem, entra em cena uma gananciosa empresa farmacêutica, senadores duvidosos e um corrupto FBI. Afinal, a "terra da liberdade" entrega o que promete? Ou somente quando o lucro é visível? Alguém respeita limites quando o assunto é obter influência nacional? 

Jonah, filho do casal, não se deixa mais enganar. Ao se posicionar contra a mãe e começar seu próprio negócio, o adolescente de 14 anos entrega um excelente arco narrativo, em busca de uma possível independência daqueles que tanto condena. No entanto, por pura ironia, seu ganha-pão não é nada lícito. Não foi o que os pais lhe ensinaram, afinal de contas. Já Charlotte mostra-se um jovem protótipo de Wendy, manipulando até mesmo uma ex-amiga para se proteger. É interessante o conflito entre aquela que aprova o trabalho dos pais e aquele que tanto os despreza atualmente.

Mais interessante ainda são as camadas que Laura Linney traz à sua Wendy: a personagem, junto com Ruth, é a maior da série, alternando entre uma mãe consternada e a própria encarnação do diabo. É impossível desvencilhar os olhos quando a atriz está em cena, principalmente quando manipula absolutamente todos ao seu redor.

Ruth, por outro lado, também continua seus empreendimentos, formando uma parceria grandiosa e suspeita com Darlene. Uma não confia totalmente na outra, já que as personalidades similares acabam convergindo, o que faz Wyatt se dividir entre a prima e a namorada. Para piorar, a máfia do Kansas está de volta, buscando vingança contra a fazendeira, além das ameaças de Navarro para que ela interrompa a produção de heroína. Darlene nunca esteve tão ameaçada como agora. "Ninguém sai limpo". Outro acréscimo grandioso ao elenco é o sobrinho de Navarro: Javier. Um bandido tão imprevisível quanto Darlene, e tão feroz quanto. 

Por mais que os personagens tentem se purificar, apontando os dedos uns aos outros, qualquer possibilidade de redenção já se esgotou. A alma lavada não vale de mais nada: é matar ou morrer (ou fugir, possivelmente). A temporada trabalha novamente a maior qualidade de Ozark: borbulhar lentamente até que a panela de pressão exploda de vez. O "lentamente", no entanto, é referente à chegada ao clímax do último episódio - pois no que se refere à agilidade do roteiro, não há entrave algum, algo bastante raro em qualquer produto televisivo.

A série se prova mais uma vez como um dos melhores dramas da atualidade, sempre presente nas premiações- devido, também, ao excelente elenco e trama. Resta aguardar pelo desfecho, provavelmente mortal e possivelmente impecável, que virá  parte 2, ainda em 2022.