A série dirigida pelo storyboard e escritor Ryan Andrews (que esteve em Ultimato, Doutor Estranho e outros) é uma versão das séries originadas nos quadrinhos que estreiou em 1977. O Homem-Aranha tornou-se parte do Quarteto Fantástico nessa reinvenção de ideias e situações nas HQs, assim como o Wolverine matou o Hulk ou até o Magneto dominou a América. Na série animada, outras alternativas são abordadas que são mais interessantes ao Universo Cinematográfico, trazendo personagens memoráveis (e outros nem tanto assim) para reconstruir de um novo modo historias já vistas até então, porém em linhas temporais alternativas. 

A série que teria dez episódios e chegaria no ano passado, terminou sendo lançada em agosto de 2021 com nove episódios que, apesar de contar histórias dispersas entre si, apresenta um material coeso e completo. A ideia principal de What If…? se dá pela visão do narrador e espécime alienígena Uatu , o Vigia ( O Vigia ). A voz e a interpretação em geral de Jeffrey Wright  como o personagem dá o toque especial: um observador distante que conhece bem cada ser e suas várias trajetórias, não podendo interferir de forma alguma no que acontece. Sem ele, talvez, ficasse confuso e até tosco acompanhar certos episódios e desfechos.

Ao seguir esses atores do MCU em rotas diferentes, há uma fusão de sentimentos como nostalgia, curiosidade, alegria, frustração e tantos outros que nos deixam confortáveis em saber que mesmo sendo uma realidade paralela, a alma e o carinho àqueles personagens continuam 100% presentes. As principais criaturas até a terceira fase ganham destaque nos episódios, alguns aparecendo mais que outros. O destaque fica para a Capitã Marvel , Doutor Estranho e Thanos (precisamos de mais Thanos!). Vale destacar a presença de diversos outros que não são protagonistas mas que tem o carinho dos fãs. Ou personagens que aqui são explorados de forma diferente, como Ultron e Killmonger, tornando-se mais marcantes. E claro, não poderia faltar: easter eggs  - principalmente nos episódios 2 e 7.

As aventuras são bem dosadas, contando com um perfil de encaixe bem padrão para as obras da Marvel. Os roteiros são minimamente distintos e criativos, com alternativas ao universo conhecido sendo variáveis condizentes. Apesar das condições mudarem, há o âmago de cada personagem que continua o mesmo, os reconhecíveis por nós nas novas situações. Há aqui o humor Marvel em quase todos os capítulos, menos nos mais dramáticos 4 e 8. Porém, como já virou um padrão da produtora, sempre há um doseamento errado: no episódio onde deveria haver mais olhos lacrimejando pelas muitas perdas, tenta-se contornar isso com humor, o resultado é um deslocamento do que tinha potencial para ser o melhor episódio da temporada até agora. 

Fato é que há tramas rasas e mais cômicas, típicas dos quadrinhos; ao mesmo tempo que tem-se abordagens profundas, questionando as faces desses heróis e vilões. E isso faz da série ser o que ela é: uma apreciação àquele universo. A animação é simplesmente estupenda. Assistir ação fica, ouso dizer, que mais envolvente que em live-action. A pancadaria realmente empolga, lembrando as vezes  o exagero presente em animes. Essa nova leva de produtos tem um ar de cartoon na tecnologia 3D que ganhou destaque em Homem-Aranha no Aranhaverso (2018) e tem conquistado seu espaço. O caso de aproveitarem a feição dos personagens, assim como sua vozes, ajudou bastante a estabelecer melhor a conexão entre o público.

Por vezes, os roteiros se perdem e tentam buscar o gancho em soluções simplistas demais. Acontece indigestões em diversas ocasiões, resoluções preguiçosas que, de certa forma, algumas são compreensíveis pelo curto espaço de tempo para desenvolvimento, mas outras são apenas desdobramentos ruins. Certos momentos, a trajetória dos personagens são deixadas de lado em prol do que deve e tem que acontecer. Há limitações também em como o multiverso ocorre em si, pois se limita a saídas simples, deixando de lado a complexidade existente nessa teoria. Isso desempolga, pois o multiverso parece existir apenas para justificar a existência das mudanças propostas em comparação ao universo regular conhecido.

Com toda certeza, gostaríamos de ver mais de What If ...? , assim como ver mais séries animadas da Marvel, aproveitando esse visual. What If…? não é dispensável como pensávamos. Ele é necessário para se ter uma melhor ideia do que é aquele conjunto de universos e como ele funciona com o seu multiverso. A série consegue ter um arco, mesmo com os seus médios trinta minutos por episódio. Tem seus lapsos, que necessitam de mais atenção para não se tornar algo metódico. Mas asegunda temporada virá e promete, com um novo contexto e sempre com a frase que nos deixa com apulga atrás da orelha: o que aconteceria se…? 
 

Pondere a questão: por que não fizestes isso antes, meu filho ???