Uma história de suspense geralmente se apresenta em extremos, ou é muito boa ou muito, muito ruim. Porém, isso não é uma regra. Quando misturado a uma boa dose de drama, ainda que esse não tenha a melhor das construções, um suspense pode navegar no meio termo e se tornar assistível, mesmo que não impressione ou traga um entretenimento realmente satisfatório ao final.

Defending Jacob, ou Em defesa de Jacob na tradução brasileira, é uma adaptação feita por Mark Bomback, do livro homônimo de Willian Landay e produzida pela Apple TV+, o novo serviço de streaming que recentemente chegou ao Brasil.

Na história, uma família lida com o fato de que seu filho de apenas 14 anos foi acusado de assassinar a facadas o seu amigo de classe.

A produção nos apresenta um ponto de vista aparentemente literalmente cego, pois realmente não sabemos quem de fato assassinou o garoto e temos apenas suposições e indicações bem incisivas. A tensão construída desde o primeiro momento, no entanto, está não só no fato de querermos saber quem foi o assassino e como isso ocorreu, como, principalmente na possibilidade do “garotinho” Jacob, de 14 anos ter cometido.

A série se apresenta também como um drama de tribunal, no qual, esse (que não necessariamente trata-se de um julgamento convencional a que estamos acostumados) é o fio condutor, ou ao menos uma tentativa desse, que parece não funcionar. Usar esse momento não consegue ser impactante o suficiente como motor para a narrativa seguir, o que termina deixando tudo com uma sensação de não termos um rumo. 

No quesito construção de alguns personagens específicos a série ganha em alguns pontos principais, um deles é a atuação de Michelle Dockery (Downton Abbey) que interpreta Laurie Barber, uma mãe atormentada pela culpa e pelo sentimento de angústia de não poder confiar no próprio filho, algo que só cresce ao longo dos episódios e alcança uma espécie de catarse no último momento. 

Daniel Henshall também consegue se destacar bastante dando o tom misterioso e estranhamente infantilizado de Leonard Patz, um dos principais suspeitos do assassinato, e ele faz isso muito bem, mesmo sem ter muito tempo de tela.

Ainda seguindo no mesmo ponto, vamos à quem dá título à minissérie, Jacob Barber, Jaeden Martell, uma criança estranha mas que apresenta sinais que podem ser facilmente identificados com os caminhos tortuosos do início da adolescência ou simplesmente com um sinal alarmante de uma possível questão psicológica que poderia o ter levado ao assassinato de seu colega. Além de claramente, recursos de flashbacks que permeiam as paranoias da mãe indicando que possivelmente seu filho teria inclinações sérias para a violência desde muito criança. 

Porém, quando se avalia a história de uma forma completa, incluindo obviamente o final do último episódio, tudo isso não parece ter muita importância. 

Muitos dramas de suspense que apresentam um mistério como engate, acabam não precisando solucioná-lo, pois ele não passaria de um impulso para a narrativa prosseguir. Aqui, isso está muito longe de acontecer. Os dramas não são tão relacionáveis, apesar de usar um contexto atual o que poderia aproximar mais o espectador à história. Não fica claro se o problema está nas atuações de uma forma geral ou simplesmente na forma como a história foi escrita/concluída.

Se a intenção era deixar uma sensação de ambiguidade sobre quem de fato é essa criança, ao não dar as respostas que o espectador queria, isso é feito até certo ponto, mas não o suficiente para deixar de passar a sensação que isso poderia ser apresentado de uma forma mais legal.

Só para deixar um pouco mais claro, a produção não alcança as expectativas por conta de problemas no solucionamento do mistério principal e sim porque a construção em torno dele, não instiga, ou ao menos não como deveria. Do ponto de vista dos enigmas, tudo acaba sendo muito óbvio, um exemplo é quando um dos grandes plot twists, ou talvez o construído para ser o maior deles, é facilmente decifrável muito, mas muito antes da série revelar algo, e o roteiro não parece reconhecer isso o que termina subestimando o espectador e isso não acontece apenas uma vez.

O subtexto termina sendo o mais interessante e ainda que não seja maravilhosamente executado, dá pra ver um grande esforço em vários pontos específicos. Esse é um drama sobre como podemos ser definidos ou não pela nossa história e de como, de uma forma ou de outra, estaremos sempre ligados à nossa família. Contudo isso não significa que não podemos subverter essa herança e criar uma nova história, desde que reconheçamos do que somos formados e também de quem viemos.

O conceito de família e mais precisamente de herança genética está aqui como uma maldição que sempre está ali, realmente em todos os momentos, sem medir sua gravidade e mesmo no momento mais inoportuno de todos. Assim como, finalmente reconhecer que você vem de determinado lugar pode significar uma falsa liberdade, que aparenta apresentar um novo caminho mas no fundo leva para exatamente o mesmo lugar de sempre.

Outros pontos como questões que são levantadas como, perseguição jornalística exacerbada e até que ponto a liberdade de uma criança dentro da internet pode vir a ser um fator prejudicial no seu crescimento e que cria uma barreira ainda maior entre essa e os pais, são levantados de formas promissoras e que contribuem com o crescimento da história ao longo dos episódios.

Além do próprio elenco que mesmo sendo uma história policial se passando em uma cidadezinha pequena e tradicional dos Estados Unidos com uma família branca e padrão no papel principal, possui um cast feminino forte e diversificado.

What a twist!

Apesar disso, voltando ao aspecto condução da história, que aqui é personificado pelo personagem do Chris Evans, ainda que apresentando uma atuação esforçada e centrada, é nele que ficam evidentes a falta de uma sensibilidade maior na narrativa. Seu embate com o personagem Neal Loguidice vivido por Pablo Scheiber, é mal construído além de parecer imposto para termos um antagonista. A participação de J.K simmons é interessante, porém não parece muito bem aproveitada, principalmente quando entendemos que ele faz parte da reviravolta óbvia desde o começo.

Ao final, Defending Jacob é uma produção que parece interessante e chega sim a ser, pelos aspectos específicos citados acima, contudo, visto ainda que foi baseada em uma obra já existente, temos a sensação que poderia ter ousado muito mais e construir uma narrativa primorosa e com muito mais impacto, e não, não é porque já vimos uma história antes que essa mesma tenha obrigação de ser contada sem a profundidade merecida.