Séries como "Desperate Housewives" e "Only Murders In The Building" remetem bastante à premissa de Maldivas. Vizinhanças/prédios/condomínios repletos de figuras caricatas, situações tragicômicas e crimes misteriosos. Enquanto que as duas primeiras aproveitam o potencial do absurdo, Maldivas vai pelo caminho oposto e comete o pior erro possível em uma comédia: se levar a sério demais...

Ainda que a série com Manu Gavassi e Bruna Marquezine tenha semelhanças a Only Murders, foi na fonte de Desperate Housewives que a roteirista de Maldivas bebeu - e até demais, arrisco dizer. Para contextualizar: Desperate Housewives (2004) foi uma série norteamericana de sucesso estrondoso, que se estendeu ao longo de oito temporadas. As protagonistas, como o próprio nome já diz, eram donas de casa, vivendo a pacata vida de subúrbio. O diferencial, no entanto, eram os crimes de cada temporada, que instigavam a curiosidade das mulheres e as faziam sair de sua zona de conforto, numa busca incessante por respostas.

Aos poucos, isso contribuiu para que elas retomassem o controle de suas próprias vidas, traçando uma bela jornada de amadurecimento ao longo dos anos. Mais do que isso: as quatro protagonistas eram carisma puro, mesmo com seus excessos (necessários, já que falamos de uma comédia). Até mesmo a narração em off (feita pela personagem que comete suicídio, logo na primeira cena da série) se mostrava interessante, aconchegante. Era como uma guia turística nata, que nos apresentava pouco a pouco as loucuras daquela insana vizinhança. Não estávamos diante de uma série perfeita, longe disso, mas o brilho que conquistou legiões de fãs já estava impregnado na tela.

A roteirista Natália Klein, por sua vez, não esconde que Desperate foi sua grande inspiração. Prova disso, além da sinopse e argumento de Maldivas, foi que ela deu à sua personagem o desnecessário posto de narradora - o que talvez seja um dos maiores problemas da série. Afinal, qual o objetivo em repetir o que está explícito na imagem? Além de soar irritante, a voz em off não se justifica, rendendo algumas poucas risadas - com texto e tom praticamente idênticos ao de Desperate Housewives. Certas homenagens mais se assemelham à cópias baratas, já que não se vê personalidade alguma em Maldivas. Estamos diante de mais uma série brasileira com síndrome de vira-lata, onde um hit de axé parece ser o único elemento nacional da trama. Tentaram empurrar até mesmo um apelido estadunidense para a personagem de Carol Castro.

Enquanto nossas novelas apostam no diálogo expositivo, Maldivas utiliza um texto implícito e sarcástico na trama central. Alguns diálogos até funcionariam em séries estadunidenses, mas quando traduzidos, não soam em nada como o brasileiro. O flerte de Bruna Marquezine com o investigador, por exemplo, é composto por algumas das falas mais constrangedores que já vi. O texto dado à Ângela Vieira, uma atriz global, é extremamente aquém do seu talento, tamanha a pobreza e rigidez dos diálogos. Com Liz, interpretada por Bruna, o erro é ainda pior: a apresentação da protagonista é rasa e impotente. Um dos piores momentos da série é, de longe, quando revelam um "pequeno" detalhe sobre Liz, ao final do 3º episódio. A partir daí, é impossível não sentir o roteiro lhe dando uma bofetada na cara.

Talento algum consegue contornar a superficialidade do texto, tampouco do mistério central. A investigação policial é conduzida de maneira amadora, tosca e com falhas pífias de direção e montagem. O próprio assassinato, que encerra o 1º episódio, não passa de um mistério óbvio e preguiçoso. Talvez nada disso incomodasse tanto, não fosse a arrogância de um roteiro que tenta ser dramático. Provavelmente, se a série tivesse abraçado de vez o absurdo da comédia, teria atingido o carisma merecido.

Mas se o drama não funciona, ao menos a comédia é garantida, certo? Mais ou menos. O humor tenta se equilibrar num malabarismo difícil, entre o pastelão e o sarcasmo. Sobra para as personagens de Manu Gavassi e Natália Klein carregarem nas costas toda a comédia da série, mas suportar tanto peso sozinhas é praticamente impossível... Afinal, nada ao redor delas faz a série decolar, seja o condomínio de luxo que mais lembra um apartamento comum de três quarto ou os plots "dramáticos" das protagonistas.

Pior ainda é perceber que o marketing prometia torná-las suspeitas de assassinato mas, na prática, não vemos esforço algum em conectá-las ao crime. Além da superficialidade de suas tramas solo, a amizade do trio (Manu, Sheron e Carol) não convence tanto assim. Veja: não se trata de falhas na atuação, visto que todo o elenco dá o melhor de si. No entanto, com o texto que lhes foi entregue, o que fizeram foi tentar tirar leite de pedra.

Ainda sobre as relações interpessoais, outra promessa não cumprida foi a de Bruna Marquezine como a outsider/forasteira no condomínio de ricas, já que as interações entre ela e as ricaças do Maldivas são pouquíssimas. Houve um momento em que eu já não me importava mais se alguma delas fosse em cana ou até mesmo baleada. É difícil se conectar com algo tão vazio, e nem mesmo o gênero comédia justifica o descaso aqui ocorrido.

Nos episódios finais, o que restou foi focar exclusivamente na trama policial, retirando de uma vez o núcleo cômico da série. E se protagonista, vilão e mistério e possuem zero carisma para guiar o espectador, o que nos resta? Nos contentar com o entretenimento barato de (amém!) apenas sete episódios curtíssimos. Quando digo barato, faço menção até mesmo às economias toscas da série em efeitos especiais, fotografia e iluminação, que mais lembram filmes universitários de baixo orçamento. Méritos, no entanto, para a direção de arte - infelizmente, não é sempre que fotografia e direção a aproveitam da devida maneira.

O que dizer, ainda, de uma reunião de condomínio (onde residem centenas de moradores) em que estão presentes menos de 30 pessoas? Se em Elite, a dona NETFLIX não economizou em testes de COVID para montar as orgias dos estudantes, aqui o orçamento foi mais enxuto. Uma pena. A sensação é de que todo o carinho na divulgação da série foi mesmo por mera publicidade e obrigação. Quem dera o buraco fosse mais embaixo...