play_arrow
Assista ao trailer: Marvel - Demolidor: Temporada 3 | Trailer oficial [HD] | Netflix
videocam

O terceiro ano começa do ponto exato em que acabou Os Defensores. Após um prédio desabar sobre o Demolidor e Elektra, o herói é resgatado e abrigado pelo orfanato onde cresceu. Enquanto se recupera, Wilson Fisk começa a colaborar com o FBI e acaba ganhando regalias como recompensa, indo parar em prisão domiciliar, o que envolve Karen, Foggy Matt em toda a sujeira vinda dos planos do Rei do Crime. Ainda sem notícias sobre o paradeiro de Matt, Karen e Foggy tentam seguir em frente com suas vidas, lutando para aceitar o fato de que o amigo está morto. Embora lá no fundo Karen acredite que Matt está vivo, fica difícil para a jornalista lidar com a descrença de Foggy sobre a sobrevivência de Murdock.  Seguindo linhas diferentes, ambos tentarão combater Fisk. Matt, por sua vez, surge traumatizado por tudo o que aconteceu anteriormente e acaba se afastando de todos, assumindo sua verdadeira missão no mundo: Ser apenas o demônio de Hell's Kitchen para acabar de vez com a ameaça de Wilson Fisk.

Não é novidade para ninguém se dissermos que Demolidor, em suas duas temporadas anteriores, se mantinha no topo da lista das melhores séries da Marvel em parceria com a Netflix. O terceiro ano a solidifica nesse posto, fazendo quase que um retorno ao primeiro ano da série, onde tínhamos Matt usando seu traje simples e preto como uma forma de simbolizar aquilo que não pode ser visto. Seus conflitos com Fisk retornam, mas agora eles ganham um tom de conclusão necessária. Ambos já se conhecem o bastante para saber que só há uma maneira de seguirem em frente, e consequentemente, apenas um deles pode sair vivo dessa batalha. 

Após tudo o que houve, Matt decide largar sua figura humana, e por vez, assume definitivamente o manto de Demolidor. Um homem que assim como Fisk, paira longe da santidade e do heroísmo, e se vê diante de um precipício onde não há escolhas e não há volta. É preciso matar Wilson, uma vez que o sistema sempre se mostra falho, e o Rei do Crime sempre encontra um jeito de controlar tudo e todos a sua volta. O Demolidor sabe que cruzar esse limiar pode mudá-lo definitivamente, mas entende que agora, mais do que nunca, é necessário que faça tudo o que puder para acabar de vez com essa ameaça quase indestrutível. Fisk é como um tubarão branco, um deus, que consegue se sobressair em todas as situações, e sua construção no roteiro, o torna ao mesmo tempo, inatingível e extremamente humano.

É na terceira temporada que mergulhamos na vida, não só de Wilson Fisk, como de cada um dos personagens principais, e entendemos o que os move nessa luta constante contra a morte. Fisk é movido por amor. Vanessa tem uma forte influência em todos os seus movimentos, e é por ela que Fisk retoma o controle de Hell's Kitchen. É por ela que Fisk coloca a coroa como o Rei do Crime, e ao mesmo tempo em que Vanessa é o principio motivador para todas as ações e mortes que ele causa, ela também pode ser o seu ponto fraco mais claro e acessível. E ele sabe disso. 

Matt sente pela morte de Elektra, e culpa não só a si mesmo, como a Deus, que deveria ter tido piedade. Sua ira começa quando reflete em como Deus permitiu que seus amados fossem colocados em perigo enquanto tentava apenas ajudar a tornar a cidade um lugar melhor para todos. Com isso, sua raiva se contrapõe ao espaço que lhe acolhe nesse momento de indecisão e incredulidade. O orfanato onde vivera quando criança lhe recebe novamente, agora conhecendo seus segredos. Aos cuidados da Irmã Maggie, Matt se recupera física e mentalmente, reestruturando sua alma com base nos questionamentos sobre a existência dessa figura conhecida como Demolidor. 

Ao mesmo tempo, Fisk vai crescendo, vai se espalhando com um vírus, ganhando o FBI aos poucos e indo da prisão para um hotel luxuoso, onde pode usufruir de seus bens enquanto entrega líderes de facções criminosas. A série nos mostra até onde o poder de Fisk pode ir, exibindo suas proporções assustadoras e nos deixando boquiabertos e descrentes no sistema.

Cada vez mais em um tom de urgência, os episódios vão se intensificando em tensões e mortes, tudo conectado aos planos de Fisk para ter o controle da cidade. Já na metade da temporada temos a melhor cena de ação do terceiro ano - e de todas as séries da Marvel/Netflix - que consegue ir além da emblemática luta do corredor na primeira temporada, e ela resume o que significa esse ano 3 de Demolidor. Ela consegue superar as duas temporadas anteriores, que já eram ótimas. 

Nesse ponto, conseguimos perceber com total clareza o risco que Matt, Karen e Foggy correm ao entrar no caminho de Fisk. O perigo de morte é uma ferramenta de tensão que nos deixa travados com a emergência que os personagens correm ao tentar deter o Rei do Crime. E não temos essa tensão só pela violência. Isso se dá também pelos diálogos, pelos momentos de silêncios de cada cena. A direção consegue ser impecável, ampliando a  potência do roteiro. Essa sensação de morte iminente está presente em todo o momento. Vemos mortes inesperadas de inocentes, a ponto de praticamente implorarmos para que algo dê certo. Mas como Matt diz, e está correto: O Rei do Crime sempre está cinco passos a frente de todo o resto. 

Toda essa atmosfera escura e de tensão vem da compreensão de Erik Oleson, o showrunner da série, que percebe que sequências de ação a todo momento não são necessárias para se fazer uma boa série de super-heróis. O elemento que faz Demolidor beirar o impecável é o nível e complexidade do drama por si só. Entendemos e sentimos a morte, sem precisarmos vê-la de fato. Ela está ali, a espreita, esperando um comando de Fisk, que por vezes, é posto como um homem incompreendido, e nós podemos quase entender o que o levou a tomar aquelas ações. Ora, ele é apenas um homem apaixonado querendo dar a cidade para a mulher que ama. 

O terceiro ano da série traz 13 episódios, como já é de costume, porém, como um diferencial. Pela primeira vez sentimos que o número de episódios não é exagerado. A trama cabe muito bem nesse número, e sentimos um ritmo legal no desenrolar da história. Temos um episódio quase inteiro se passando em um Flashback, que de fato não ajuda a trama a andar, mas nos leva a conhecer mais a fundo alguns de seus personagens, e isso é um ponto muito importante para uma série que acredita na potência de seus personagens. Demolidor conhece seus elementos e sabe muito bem onde quer chegar com cada um deles, e com isso, a série revela que todos têm um demônio interno e que inocentes não existem. Além disso,  temos a presença de novos personagens que agregam demais a história, como é o caso do Agente Nadeem, que apesar de ser um homem bom, se vê de repente nas mãos de Fisk contra a sua vontade, e é nele que nos localizamos - enquanto espectadores - para perceber que não há como fugir do Rei do Crime. O Agente Especial Poindexter é contraponto de Nadeem, mas também representa como é fácil ser manipulador por um homem que quer a cidade a todo custo.

A série acaba esquecendo alguns personagens ao longo dos episódios, mas nada que comprometa tanto a bela execução da produção, que deixa poucas pontas soltas pelo caminho, como o fato de Matt ser um fugitivo do FBI e nada termos sobre essa caçada.