A terceira e última temporada de Desventuras em Série chegou logo no primeiro dia do ano, trazendo a mesma dinâmica que já conhecíamos em apenas sete episódios. 

Ser mais curta possibilitou uma dinâmica muito mais agradável - e que deveria se reverberar pelas outras séries da Netflix -, tirando todo o excesso de histórias e enrolações que tomam conta dos roteiros de séries. A terceira temporada de Desventuras traz a mesma maturidade que já havíamos visto, junto com personagens misteriosos, caricatos e cativantes. Além disso, há uma carga emocional muito mais presente aqui, visto pela sensação de se caminhar para um fim definitivo.

Desventuras nunca quis ser uma série realista, e não funcionaria se tentasse ser. Com o propósito de unir o fantástico, o absurdo e a tragédia, o último ano provoca um choque de realidade no espectador e apimenta nossa relação com a história a partir do momento em que Lemony Snicket entra de fato como um personagem da trama. 

Nas temporadas anteriores, éramos constantemente alertados por Lemony para que não continuássemos a acompanhar essas desventuras nas vidas dos irmãos Baudelaire, e constantemente nos recusávamos a dar ouvidos a esse alerta. Sempre vimos Lemony como um narrador misterioso que estava inteirado de tudo e ligado a tudo isso também. Era mais do que alguém que contava e acompanhava essa história. Era uma peça fundamental nesse quebra-cabeça que envolvia a CSC, os Snicket, os Quagmire, os Baudelaire e o Conde Olaf. Finalmente pudemos ter algumas respostas e entender o motivo de todos esses avisos para que fossemos embora. A vida é triste e cruel, e não era somente com os orfãos Baudelaire. 

Em uma pegada mais família, a terceira temporada nos mostrou as consequências das ondas em um rio calmo. Como uma simples e pequena pedra pode reverberar até o oceano e tomar dimensões catastróficas. Nos mostrou também como o amor pode resultar em ações terríveis. Enxergamos a humanidade em cada personagem. As motivações deles. A trajetória que os levaram até aquele ponto de maldade. Até o Conde Olaf tinha uma bom motivo para fazer o que fazia e como sempre, o lado "bom" havia o criado e o tornado um homem ruim. 

A partir do quarto episódio vamos subindo em uma escala de grandeza e consequências que nos insere cada vez mais na narrativa e nos faz entender o que é tudo isso, todo esse jogo. Acompanhamos a inocência e virtude das crianças serem tomadas pelas dúvidas de moralidade. Nem os Baudelaire escapam desse lado obscuro que nos compõe. 

Neil Patrick Harris entrega novamente uma atuação fantástica que dá vida e personalidade forte para o Conde Olaf, e serve para representar as facetas da maldade humana quem nem sempre quiseram ser más. Nessa temporada, Olaf é muito mais do que um vilão. É um refém das escolhas dos outros. Um rapaz inocente que foi seduzido pelo lado sombrio que lhe prometera muito mais oportunidade do que o lado bom. 

As crianças entregam uma ótima atuação, como já tinha acontecido nas temporadas anteriores. Violet e Klaus equilibram uma balança peculiar de características e dão um tom mais humano e natural para toda a fantasia do universo de Desventuras. Os irmãos representam bem uma inocência - pela idade -, e uma fragilidade que são mescladas a transição para a fase adulta. Eles estão vendo o mundo como ele é, e aos poucos, por toda a maldade que presenciam, vão deixando de ser crianças e se tornando adultos com cicatrizes e arrependimentos. 

Não é possível falar de Desventuras sem citar a direção de arte que continua impecável para essa construção fantasiosa de uma época real. 

Nem todos conseguem apreciar o que a série entrega, uma vez que não se abrem para perceber que tudo se trata de uma belíssima fantasia infeliz que jamais tentou ser fiel ao mundo real; e que não há um final feliz, como Lemony ressalta em todo o episódio. No entanto, os dois episódios finais nos dá um sensação diferente da que sentimos durante todas as temporadas e deixa uma reflexão realista, repleta de dor, e amadurecida sobre as durezas da vida, e saber ver as coisas como elas são, no geral. E no entanto, nos faz enxergar que tudo é tragédia, mas é a tragédia que nos enche de histórias para contar. 

Para Beatrice - 

Quando nos conhecemos, você era bela, e eu solitário. 

Agora sou um belo solitário...