Uma boa ficção científica sempre conquista um lugar cativo no coração das pessoas. Parece universal: Quanto mais complexo o sci-fi, mais fiel seu público será. Isso vem se repetindo ao longo do tempo, e já estamos acostumados a entender esse ciclo interminável que tende a se expandir em sua própria repetição.

Se viajarmos para os anos 90, iremos nos deparar com a aclamada série “Twin Peaks”, criada por David Lynch e Mark Frost. Uma série que além de conquistar, confundiu. Sua aclamação veio justamente da sua capacidade de contar uma história consciente dos seus próprios passos, que não visava entregar tudo de bandeja para o espectador, mas esperava que surgisse uma imersão, uma cumplicidade e submissão para estar sujeito à todas as informações e mistérios. 

Em 2017, tivemos "Legion", série do FX, criada por Noah Hawley,  que trazia uma história do universo dos X-MEN, com uma abordagem jamais vista até então. Mergulhando no sci-fi hardcore, incluindo viagem no tempo, como Dark e Twin Peaks, Legion abraçou o suspense e terror psicológico juntamente com uma direção e fotografia diferenciadas. Se por um lado não tenha tido o alcance das outras duas séries, por outro, manteve o alto nível de qualidade e complexidade de roteiro. 

Com essas duas séries além de Dark, podemos apontar algumas similaridades interessantes. Elementos fundamentais para fazer uma série atingir outro patamar. Um nível acima das outras. Um lugar sagrado no panteão das séries perfeitas de sci-fi de todos os tempos. 

Com isso em mente, chegamos na terceira temporada de DARK. 

Talvez o que mais diferencie a série alemã das americanas, seja o mergulho ainda mais profundo em questões filosóficas ao mesmo tempo em que tenciona velhos conceitos do sci-fi. A forma de construção do suspense e mistério caminham para situações que se completam, como um ciclo interminável. Sim, há um apocalipse vindo, mas ainda há relações de amor, ainda há esperança sendo projetada em um futuro inevitável, mas que não impede que haja a criação de um legado que será deixado na história, como sempre teve de ser. 

O terceiro e último ano da série, começa então, justamente no instante onde o ano anterior parou. Jonas assiste Martha ser assassinada por Adam, alegando que é a única forma de evitar o fim do mundo. Ainda em choque e desesperado, ele é salvo por outra Martha, que diz vir de um mundo paralelo, uma outra dimensão. Levado para esse mundo, Jonas precisa impedir que o apocalipse aconteça nessas duas realidades e somente a partir daí que tanto ele, quanto nós, percebemos como pode ser custoso entender como esse jogo de vida e morte funciona.

A medida que vamos caminhando por essa jornada, percebemos que não estamos indo em direção a esclarecimentos, mas sim, mergulhando cada vez mais fundo nos mistérios inerentes a nossa existência e sobrevivência. Ou seja, não estamos vendo tudo se resolver. Estamos vendo tudo se expandir, indo cada vez mais longe, cada vez mais rápido, cada vez mais conectado. 

Essa viagem mais profunda fica clara logo no primeiro episódio, onde entramos com tudo nessa outra dimensão. Um outro mundo onde percebemos que não somente o tempo interfere em si próprio, como também outros mundos se interferem através de um fio vermelho como sangue, conectando tempo e espaço eternamente em um ciclo infinito.

A cada passo rumo ao final, compreendemos como os traumas dos personagens mais velhos influenciam o destino dos mais jovens, e como se não bastasse a repetição do ciclo por si só, ainda contamos com as variáveis de outros mundos, outros “eus” que interferem no nosso próprio destino, mesmo que em caminhos opostos. Essa troca de mundos explora personagens considerados secundários, trazendo-os para um papel de destaque e reforçando a forma como tudo, absolutamente tudo, contribui para que as coisas aconteçam como devem acontecer. 

É interessante perceber também a forma como a série tira um tempo para preencher as lacunas da história e revelar para aqueles menos atentos, como algumas coisas se encaixam. Embora algumas pessoas possam ver esse ato como uma encheção de linguiça, ou algo parecido com os fillers, há de se deixar claro que o ato por si só é um voto mútuo de confiança e parceria, uma vez que para compreender completamente o todo do escopo da série, é preciso realmente uma clareza de ideias sobre o que está acontecendo, e como todo produto audiovisual no mundo capitalista - único que conhecemos até então - é preciso atingir o maior número possível de pessoas. Ao revelar como algumas peças se encaixam, eu fidelizo meu espectador ainda descrente da compreensão da minha abordagem e o levo adiante segurando sua mão, ainda que não tenha revelado o todo. É uma fórmula eficiente e cativante. 

O caminho até o fim não é perfeito, assim como tudo na vida. Mas Dark chega ao final se consolidando como uma das melhores séries das últimas décadas, conquistando seu espaço no panteão sagrado das melhores produções. Isso se deve a construção precisa de uma trama que se conclui, que se fecha, e entrega mais que uma conclusão lógica, inesperada ou bem feita. Se deve também ao fato de nascer madura e ainda ser capaz de amadurecer mais. 

Todos esses elementos dão ao conjunto da obra uma capacidade extraordinária de contar uma história que, apesar de trazer toda uma mitologia complexa do sci-fi, explora as diversas camadas da coisa mais pura que nos cerca em qualquer tempo e em qualquer mundo: as pulsões emocionais que nos ligam a outras pessoas; a afeição, a identificação, o amor. 

De qualquer forma, apesar de tudo, mas mentiras e segredos, sentiremos falta de Widen.