Quando Elite foi renovada para a 4ª temporada, um misto de alegria e receio tomou conta dos fãs. Se por um lado o universo da série ganhava uma sobrevida, o que havia para inserir de novo? Após três temporadas de ménages, crimes e drogas ilícitas, como trazer ar fresco à trama? "Todos se tornarão assassinos até o fim do ensino médio?", nos perguntávamos. A resposta, até então, parece um grandioso sim. Cada vez mais, a série segue os rumos da finada How to get away with murder, tanto em termos de recursos narrativos quanto de roteiro. E não, esse definitivamente não é um bom sinal...

   Mais uma vez, estamos diante de um crime. Os que acompanham Elite desde o princípio sabem que os mistérios sempre foram superiores às resoluções. No entanto, desta vez não há uma morte intrigante; o mistério não decola, graças a um péssimo trabalho de roteiro e montagem. "Mas se o crime parece broxante", pensei, "talvez o andar da carruagem compense." Eu não poderia estar mais enganado... As temporadas 3 e 4 parecem mesmo a sina das séries teen, que já não sabem mais o que fazer com a repetição das tramas escolares e um elenco já próximo dos 30 anos.

   Ao contrário do que se espera, as relações interpessoais estão mais frágeis do que nunca. Cada personagem parece isolado em seu núcleo, havendo pouquíssimas interações entre eles. Quase não há uma troca de confidências entre amigos, algo bastante irreal dado o caos que eles já enfrentaram juntos; mais do que nunca, os laços deveriam se fortalecer, como ocorria nas temporadas anteriores. O que se vê, no entanto, é a desconstrução de um longo progresso psicológico. Primeiro, o roteiro descarta completamente o bromance de Samuel e Guzmán, que vinha sendo construído lentamente desde o fim da 2ª temporada. Em seguida, há relação de Omar e Ander que, mais uma vez, é aniquilada por toxicidade (por Deus, como entender Ander?). Já os novos personagens ganharam a difícil missão de suprir o carisma do elenco falecido, o que não vinga - nenhum deles gerou a identificação necessária na audiência.

   Para ser minimamente justo, não é como se a trama prometesse acontecimentos bombásticos. Tudo beira a superficialidade desde o princípio, mas o mínimo que esperávamos era.. algo que não se resumisse a sexo. Todos os núcleos da temporada giram em torno de um envolvimento carnal. Até mesmo o trio de irmãos Benjamin, que esboçava complexidade, foi sugado por uma espiral de sexo matinal sem proteção (a qual, pelo menos, possui uma estética agradável e coreografias interessantes). Tanta safadeza para, no fim, culminar na resolução mais previsível e porca da série.

   Para finalizar a leva de episódios, esqueça a sutileza. Esqueça que os personagens mudam de personalidade como quem troca de roupa. Esqueça que dois alunos do colégio foram assassinados (afinal, se essas mortes já são águas passadas para o corpo estudantil, então por quê ainda nos apegamos a esses pequenos detalhes?) Esqueça que os roteiristas estão isentos de ideias, nada aqui foi feito pra ter sentido mesmo.

   Destaque para Cayetana e Rebecca, as únicas que não sofreram transplante de personalidade e conseguiram crescer, mesmo ancoradas em tramas fracas. Ênfase também nos curtas Histórias Breves que, diga-se de passagem, trouxeram mais profundidade que boa parte da série, além de serem uma excelente oportunidade de nos despedirmos de Carla e sentirmos um pouco mais o luto por Lucrécia. E para os mais saudosos das primeiras temporadas, aqui vai uma lembrança para acalentar o coração: