Orange Is the New Black chega ao fim de sua jornada não tão inovadora e quebradora de tabus como veio ao mundo lá em 2013, mas ainda assim, garante seu lugar na fila daquelas séries que falam sobre temas pertinentes, principalmente em se tratando do período sociopolítico que estamos vivendo mundialmente e mais especificamente, nos Estados Unidos.

Era certo que essa temporada viria para finalizar a história. As pontas soltas deixadas no último ano, deixaram isso claro. Tivemos a prova final de que Piper Chapman (Taylor Schilling) é a protagonista e que fez o tempo todo, o papel de ligar o público principal que a série atinge, à história daquelas mulheres dentro e fora da prisão. No entanto, isso não significa que acompanhar a finalização do plot isolado da personagem, tenha sido um deleite, na verdade foi um pouco longe disso...

Foi interessante e é evidente que era esperado, vermos como seria a realidade da não mais simplesmente loirinha de classe média, depois de tudo que viveu na prisão; todo o perrengue pra arrumar um emprego, reatar com a família e simplesmente poder morar em algum lugar e claro, a comparação com as outras detentas e como de um certo ponto de vista, foi muito mais fácil para ela, reingressar na sociedade. Partindo desse ponto, entramos em um mérito que a série sempre teve – a crítica social aos Estados Unidos e ao governo atual.

No fim da última temporada, a temática que iria ser trabalhada ficou clara: a questão dos imigrantes ilegais no país. A narrativa foi ferrenha contra a política de Donald Trump e fez questão de colocar o enredo de personagens específicos a favor disso, deixando de lado vaidades e sendo quase sanguinária em alguns encerramentos específicos. A narrativa ganhou muito com isso.

Por outro lado, sabemos que como sendo a última temporada, algumas tentativas de agradar os fãs ainda iriam aparecer. O foco em Piper por exemplo e seu relacionamento com a Alex  Vause (Laura Prepon) que irá passar os próximos três anos presa, foi algo trabalhado incessantemente, sem tanta necessidade, ainda que tenha sido interessante e divertido em alguns momentos. Porém, como sabemos, o ponto principal de Orange sempre foram seus personagens e a forma como a história individual de cada um, acabava construindo o enredo final.

Some então um enredo com muitos personagens e o final de uma série que ainda se preocupa em agradar os fãs, ainda que saiba o limite disso e tenha um resultado que pode não ser tão legal assim na fórmula geral. Por isso, alguns encerramentos de personagens não foram suficientes ao que a série sempre apresentou. Red (Kate Mulgrew), por exemplo, foi praticamente descartada de ter uma história que nos envolvesse mais. Seu encerramento não foi ruim, mas fraco, frente ao que sempre vimos dela.

Isso pode dever-se também, ao quanto ficou claro o foco e o entendimento de que esse final seria realista (com todas as ressalvas possíveis que sempre conhecemos sobre a retratação de um presídio feminino para uma série pop) e muito, muito melancólico. A tristeza tomou conta e quase não tivemos muito espaço para o humor dessa vez, ainda que a série nunca tenha chegado ao seu ápice de narrativa pesada como aconteceu especificamente, no segundo e quarto ano, foi interessante ver que no geral eles presaram uma narrativa que não nos fizesse acreditar que só porque amamos muito essas personagens, elas iriam ter um final feliz.

Orange nos lembrou que elas estão em um presídio e que odeiam estar ali e muitas vezes odeiam a si mesmas. Dessa forma, foi cortado o cordão umbilical que nos ligava as narrativas de cada uma, dando a sensação que as conhecíamos profundamente e que aquele ambiente era familiar e por isso; com tantas piadas, sexo e romance, parecia uma espécie de colegial com mulheres criminosas e carcereiros corruptos que – quando não sabíamos em que momento a série iria terminar, torcíamos para que elas cometessem algum delito para ficar mais tempo presas e podermos acompanhar mais “aventuras” dentro do presídio de Litchfield. Ainda assim, estamos longe de um ápice emocional aqui, infelizmente a série já apresentou algo mais bem trabalhado nesse quesito.

O paralelo entre Taystee (Danielle Brooks) e Piper continuou sutil como sempre foi, o que talvez tenha sido um dos pontos mais decepcionantes quando a personagem sequer cita a situação extrema de injustiça que a colega de prisão estaria sofrendo e não tenta fazer mais nada pra ajudar. É compreensível que com isso a série esteja mais uma vez tentando nos passar a imagem de que quando você se livra do inferno, a última coisa que você tenta é uma ligação que o faça retornar de alguma forma e que sim, as pessoas são egoístas ou ao menos, precisamos ser egoístas dentro dessa realidade.

Taystee, que mais uma vez foi o ponto alto da temporada, dividiu o protagonismo com Dogget (Taryn Manning), que teve sua história tomando grandes proporções, aos poucos, para nos entregar um final satisfatório e surpreendente. Era óbvio que alguém iria morrer, mas a forma que escolheram foi interessante e encerrou a narrativa da personagem que é o antônimo de Piper de forma perfeita e nos entregou uma ótima atuação de Brooks.

A despedida de Crazy Eyes/Suzanne Warren (Uzo Aduba) como um dos personagens mais icônicos, se não o mais da série inteira foi interessante e não decepcionou. O retorno de Lolly (Lory Petty) como um duo crazy e suas conjecturas a respeito do mundo e de todas as teorias de conspirações possíveis foi uma ótima adição a storyline de Suzanne. A trama das galinhas foi um ótimo pretexto metalinguístico, para fazer uma crítica de como o ser humano possui a incrível e horrenda capacidade de não aprender com os próprios erros e o próprio sofrimento e de que quebra ainda nos fez sentir uma nostalgia lá da primeira temporada. Apesar da pouca interação direta de uma das personagens mais importantes de toda a série com a narrativa principal, a mesma foi responsável por uma das cenas mais emocionantes do episódio final.

A dinâmica entre Linda Fergunson (Beth Dover) e Tamika (Susan Heyward) foi uma linha ótima para a série nos explicar da sua forma mais característica, como até mesmo o que parece ser uma subversão de valores e a possível prova de que a sociedade está realmente mudando e deixando de lado antigos preceitos preconceituosos, não passa de uma tática de capitalização sem nenhuma profundidade ou compromisso social.

A relação entre Caputo (Nick Sandow) e Figueroa (Alysia Reiner) foi o exemplo perfeito para nos provar que Orange não só sempre foi boa em construir narrativas humanas e críticas, como também em construir seus personagens recheados de um texto marcante sem se tornar piegas. É claro que Alex e Piper e a forma como seu relacionamento foi abordado durante todos esses anos não é o maior exemplo disso, mas ainda assim, elas conseguiram nos entregar algo bom ao final de tudo.

No mais, o último ano de Orange Is The New Black nos apresenta um encerramento que não necessariamente é morno e sim, não consegue atingir o ápice já alcançado pela própria narrativa da série. Porém, com tantos personagens e um enredo que tinha muitas chances para ser mais enrolado e ter sido muito mais complicado do que pareceu, os roteiristas conseguiram amarrar várias pontas soltas, nos entregando um encerramento não só emocionante como coerente no geral.

A série que foi uma das grandes responsáveis por catapultar o maior serviço de streaming atualmente que por sua vez revolucionou a indústria do entretenimento, encerrou-se no momento necessário e soube entender que sua grandiosidade e relevância tinham tempo para acabar.