Adentrando o melhor catálogo de séries atualmente (HBO MAX), encontramos uma bela surpresa, senão a melhor comédia do ano até então. Protagonizando a trama, temos Deborah (Jean Smart), uma lendária figura do stand up que, vendo sua carreira em declínio, se vê forçada a trabalhar com Ava (Hannah Einbinder), uma roteirista iniciante para, assim, alavancar sua imagem.

Está formado, então, o grandioso conflito geracional da série. A fórmula de junção de personas opostas não é nenhuma novidade mas, quando bem exercida, agrega à trama com várias camadas. E neste caso, fique tranquilo: os resultados não são apenas positivos, como também primorosos!  Em Hacks, o grande chamariz é mesmo a relação tragicômica entre Ava e Deborah.

Para começar, ambas partilham de famílias disfuncionais. Ava, por exemplo, encara um término de namoro e a instabilidade da vida como roteirista, fato que desagrada e preocupa a mãe. O pai, por outro lado, mostra-se mais amigável, mas se vê inválido após um AVC.

Já com Deborah, o buraco também é mais embaixo... Após estrelar uma sitcom de sucesso com o marido, ele a troca pela sua irmã, fato que muda a vida da artista para sempre. 40 mais tarde, a relação com sua única filha também não é das melhores. Seus comentários ácidos e cruéis fazem com que não só sua cria mas todos se mantenham afastados, o que faz ela reafirmar a si mesma que seu grande amor é mesmo seu trabalho. 

Antes que você pense, não: Ava não está em O Diabo Veste Prada. Mesmo que sua insegurança e solidão sejam identificáveis, também vemos um lado oportunista e egoísta da personagem, assim como Deborah possui cenas que a tornam extremamente palpável e não apenas uma megera qualquer.

Ainda que as duas mulheres estejam em fases distintas da carreira, ambas topam qualquer coisa para sobreviver no ramo artístico, e isso inclui traçar um plano de convivência. Se de início o conflito geracional soa desgastante, não tarda para que Ava e Deborah descubram camadas interessantes na relação. O humor, em especial, é o grande mecanismo de sobrevivência das duas, literalmente.

A icônica frase de Paulo Gustavo assumiria, aqui, a grande "moral amoral" da história: "rir é um ato de resistência". O espectador só tem a agradecer pelos 10 episódios recheados de piadas bem escritas, diálogos sensíveis e ótimas atuações. Os aspectos técnicos também não deixam a desejar em nada, com enquadramentos interessantes e tons quentes enfatizando a locação da trama: Las Vegas

Como toda e qualquer boa dramédia, o roteiro ágil de Hacks (que, na tradução, equivale a incompetentes) não só tangencia como se aprofunda em muitas temáticas. Deborah mostra que envelhecer enquanto mulher na indústria do entretenimento é ainda mais difícil, assim como Ava traduz o medo e a instabilidade de qualquer artista iniciante. A todo momento, o conflito de gerações vem justamente pela diferença absurda do ponto de vista entre as duas, incluindo em questões como assédio, família, términos de relacionamento e reflexões sobre vida e morte.

Já em outros momentos, as personagens estão aos berros, rindo das situações aleatórias da vida e produzindo as esquetes dos shows de Deborah. E assim, lentamente, os papéis de "mãe" e "filha" que tanto lhes faltaram começam a ser preenchidos. Orbitando o elenco principal, temos coadjuvantes que dão conta do recado: o funcionário de Deborah, um personagem gay e negro que possui plot próprio (já era hora, não é mesmo?); a filha quarentona de Deborah, rebelde e com sentimentos mal resolvidos; a família e ex-namorada de Ava e muitos outros. 

E para quem amou a trajetória dessas duas, trago as boas notícias: a HBO confirmou a 2.ª temporada de Hacks, que já é destaque na lista do Emmy 2021! Além disso, para os saudosos, recomendo fortemente Mare of Easttown, onde Jean Smart, em mais um papel tragicômico, interpreta a mãe de Kate Winslet na trama (minissérie imperdível!).