Eu sei que a maioria das pessoas tiveram algum tipo de problema com a primeira temporada de Punho de Ferro. Seja pelo roteiro redundante em algumas vezes, seja pelo ritmo diferenciado que a série conduzia sua trama. O fato é que foi pouco dito sobre as diferenças do universo mistico que a Netflix/Marvel trouxe para esse mundo compartilhado entre Jessica Jones, Demolidor, Justiceiro e Luke Cage.

Quando começamos a conhecer a jornada de Danny Rand nos propomos a assinar um contrato que inclui aceitar uma outra realidade e cultura onde a visão de mundo difere daquilo que a gente conhece e está acostumado. Enquanto as séries vizinhas exploram um certo tipo de ritmo ditado mais pela progressão de violência e consequências estendidas dos atos, Punho de Ferro nos entrega um caminho diferente. Aqui, seguimos uma narrativa guiada pelo senso psicológico e afetivo que gira em torno de Kun'Lun e suas tradições. O foco da série - e ainda estamos falando da primeira temporada - nunca foi nos banhar com lutas - embora devesse em algumas vezes - e/ou uma certa violência gratuita. Pelo contrário, Punho nos diz que há uma outra camada que ultrapassa essa mais rasa onde está localizada as outras séries da Marvel e todo o MCU

A reclamação generalizada da primeira temporada sempre citava a artificialidade das lutas e a lentidão para que os fatos seguissem em frente. Particularmente, o primeiro ano da série foi um dos melhores de todo esse universo fruto da junção entre a Netflix e Marvel - tirando as lutas -. A razão é muito simples. Tivemos uma nova percepção. Punho de Ferro nunca quis ser como as outras séries, uma vez que ela apresenta um mundo totalmente fora daquilo que fomos apresentados desde 2008 com Homem de Ferro. 

Temos dragões, culturas milenares e monges. Temos uma cidade invisível ao mundo comum e conhecemos guerreiros. Era claro que tentar trazer isso para o mundo atual numa plataforma de streaming onde se tem séries como Demolidor, que se banha da realidade crua e escura, tal como Batman já fez algumas vezes na construção de Gotham City, seria uma forma repetitiva de retratar uma coisa superior a toda essa questão mundana. Não quero dizer que a primeira temporada é perfeita. Ela apresenta muitas falhas, principalmente no modo de retratar as cenas de batalhas entre os antagonistas, mas é inegável o fato de que a construção de personagens e ritmo apropriado para os eventos casa direitinho com o que se propôs. Dito isso, vamos para a segunda temporada de Punho de Ferro. 

Antes de começar de fato, queria ressaltar como a evolução dos personagens é bem feita nesse segundo ano. E vale destacar Ward Meachum que é o personagens mais humano de todas as séries da Netflix/Marvel e que nos dá uma nova visão sobre esses homens comuns em um mundo onde alienígenas existem e batalhas são travadas todos os dias. Ward nos dá a visão de um homem simples com seus problemas pequenos se comparados, por exemplo, ao incidente de 2012 - Vingadores - onde descobrimos que alienígenas existiam, e vimos com nossos próprios olhos quando Loki decidiu escravizar a raça humana. 

A segunda temporada é totalmente dependente da primeira. Os fatos que se iniciaram lá ainda geram consequências e temos inclusive Davos retornando como o oponente de Danny ao "cargo" de portador do Punho de Ferro Imortal. Aliás, vilões não faltam nessa segunda parte e a Marvel cumpre bem o seu papel de construir com riqueza todo o plano de fundo desses antagonistas. A parceria Netflix/Marvel ainda continua competente quando se trata de retratar seus vilões, e justificar - não tirando a culpa - mas dando suas visões e apresentando os caminhos que os levaram até o embate com os heróis. 

A segunda temporada se aprofunda na transformação de Danny, um personagem que se desenvolve como um peixe fora d'água, fazendo seus caminhos no novo mundo, batalhando com quem ele é. Nesta temporada, Danny prometeu que, com a ausência de Matt Murdock, ele irá proteger a cidade. Mas uma reviravolta ameaça sua identidade e ele deve dominar seus demônios para proteger a cidade e as pessoas que ama"

Nesse segundo ano, temos um mergulho nas motivações de cada um dos personagens principais. Ward e Joy representam o lado mais familiar de Danny e travam uma guerra entre os dois que acaba recocheteando nas questões do Punho de Ferro. A junção dos quatro (Danny, Colleen, Joy e Ward) resulta na aliança de Davos com um dos irmãos Meachum para derrubar Danny e roubar o Punho de Ferro Imortal.

Colleen, agora sem dar aulas de karatê, se vê sem lugar nesse mundo, mas de certa forma, conformada com o rumo que sua vida está seguindo agora. Oficialmente namorando com o herdeiro das empresas Rand, ela se afasta de suas habilidades de luta para tentar ter uma vida normal, algo que seu namorado não está conseguindo. De alguma forma, os poderes do Punho estão afetando Danny e ele passa a sair pela cidade todos os dias tentando cumprir a promessa que fez à Matt Murdock, também conhecido como Demolidor. Com isso, Danny apresenta uma face mais obscura e violenta disposta a tudo para acabar com as guerras de gangues que afetam todos ao redor. É justamente a questão de lidar com os demônios internos, e isso gira e afeta todos os personagens. 

Enquanto tudo isso ocorre em conjunto com uma iminente descoberta ao passado de Colleen, e gangues prestes a se matarem, Davos está cada vez mais perto de conseguir o que tanto procurou durante toda a sua vida, e com a ajuda de um dos irmãos Meachum e da nova vilã Walker, a posse do Punho de Ferro parece ficar cada vez mais instável. 

Todos os personagens passam por uma cruzada de amadurecimento e isso solidifica o fato inegável de que Danny Rand não consegue ser o protagonista solo da série. Colleen é o equilíbrio perfeito e por muitos momentos se sobressai ao herói. - inclusive isso está ligado a uma grande reviravolta - 

Temos a participação - já prevista - de Misty Knight que volta brilhantemente ao papel e configura um trio muito legal, porém, mais do que isso, ela forma uma dupla excelente com Colleen.

Se você não sabe, nas HQs, elas sã conhecidas como as Filhas do Dragão, agindo juntas no combate ao crime, e já tivemos inúmeras referências a essas histórias, tanto na primeira temporada, quanto em Defensores, e agora não é diferente. Por favor, Netflix, queremos uma série das duas. 

Para finalizar temos os arcos se completando e novos caminhos a serem seguidos para uma provável terceira temporada. Os últimos 3 episódios - e vale lembrar que esse ano a série conta com 10 - são de um primor quase inacreditável e tão bem definido quanto a série do Demolidor. Finalmente temos respostas para perguntas ainda da primeira temporada, e também novas perguntas que vão resultar em junções de personagens que a gente nem imaginava.

Como dito no início, Ward cresce demais e agora, finalmente, ele parece se aceitar e isso é tão inesperado quanto harmonioso e bonito para o personagem. Temos chão para trilhar no futuro e uma das maiores certezas que temos com essa segunda temporada, é que o Punho de Ferro Imortal agora finalmente tem o respeito de todos!