A ousadia da HBO não é surpresa pra ninguém. Enquanto muitas emissoras recusam os roteiros considerados "afrontosos", a queridinha do streaming entende a importância de traze-los ao mundo. Um exemplo é a incrível Angels in America que, ainda que pouco lembrada atualmente, carrega consigo um importante legado da teledramaturgia. Trata-se de um produto com um elenco do alto escalão de Hollywood, corajosa o suficiente para retratar, com veracidade, uma década bastante traumática para a comunidade gay.

Adaptada de uma peça de teatro homônima da Broadway, a trama se passa na Nova York dos anos 1980. O presidente, Ronald Reagen, faz pouco caso da pandemia de AIDS que assola os Estados Unidos (e o mundo). "Uma punição divina aos homossexuais," dizia. Dentre os "punidos", temos o jovem Prior. Ao descobrir a doença e se ver diante de uma sentença de morte, é abandonado por Lou, seu namorado. O que poderia ser pior do que definhar sozinho lentamente?

Lou, por outro lado, não consegue vislumbrar felicidade no mundo em que vive; o milênio se aproxima, os republicanos estão no poder, seu namorado está à beira da morte e o capitalismo é uma ameaça constante. Trata-se de um niilista de primeira, sempre pronto a apontar culpados e apavorado em esbarrar com o próprio reflexo no espelho.

Paralelamente, temos a história de Joe, advogado  mórmon, republicano e casado com mulher, que trava um embate contra a própria sexualidade. Para completar, ele trabalha para o temido Roy Cohn (personagem da vida real, tido como um dos advogados mais monstruosos da história dos Estados Unidos), que o leva para o lado obscuro do Direito a todo instante - se aproveitando do fato de estar morrendo. O que o homem esconde, no entanto, é que seu diagnóstico não é câncer de fígado, e sim HIV. Seu orgulho jamais o deixaria assumir tal fato.

Ao longo dos seis episódios, não tarda para que todos esses personagens se entrelacem. O republicano Joe, por exemplo, se interessa pelo democrata Lou, gerando conflitos éticos, políticos, sexuais e religiosos. Em contrapartida, em meio à ausência de esperanças com o mundo, Prior e a esposa de Joe são visitados por anjos. Isso mesmo, anjos! Inicia-se, então, o embate entre religião e política: teria Deus abandonado aqueles que criou? Os humanos teriam progredido além da conta? O que é preciso para que surja uma ponta de esperança em meio ao tsunami?

Para os mais céticos, como Roy Cohn, o importante é surfar por cima. Seu intérprete, o icônico Al Pacino, nos transmite prazer em assistir este ser humano asqueroso, que manipulou milhares de processos judiciais, condenou uma judia à cadeira elétrica e roubou diversos clientes. Quando descobre-se que foi ele o mentor de Donald Trump, fica fácil compreender certas atitudes do ex-presidente estadunidense. O aprendizado ali foi como um intensivão de final de semana - ou vários, melhor dizendo.

Em meio aos diálogos intensos e teatrais, Angels in America traça uma poesia diante da morte. Quando não há salvação aparente, ao quê recorremos? Sexo? Religião? Política? Se por um lado a série escancara o horror vivido pelos homossexuais na época, o roteiro nunca deixa de lado a dualidade, inerente ao ser humano. Lou, por exemplo, grita aos quatro ventos que é um homossexual democrata, mas o amigo negro faz questão de lhe apontar o quão racista ele pode ser. O amigo, por sinal, é o enfermeiro do hospital onde, ninguém mais, ninguém menos que Roy Cohn está internado. A partir daí, é delicioso acompanhar os choques de realidade que a série traz, dando tapas de luva no mais confortável dos espectadores. Afinal, não seria esta uma das funções da arte? Não apenas confortar o incomodado, mas incomodar o sossegado? Especialmente quando falamos deste retrato fiel da pandemia de AIDS, a última sensação que se pode esperar em Angels é a de comodismo. 

Outra trajetória nada linear é a do próprio mormon: Joe, ainda que trace uma jornada de autodescoberta, estaria mesmo vivendo um arco de redenção? Ser gay lhe concede automaticamente uma blindagem de caráter? A mãe mórmon e homofóbica, interpretada com primor por Meryl Streep, é mesmo um ser humano imutável? Quais ensinamentos e sentimentos podemos transpor deste episódio caótico para a pandemia da COVID-19, a qual não distingue gênero, raça ou condição socioeconômica? 

Sabemos que, na vida real, a predominância é a dos tons cinzentos e Angels capta todas essas sutilezas - o que garante o final poético e surpreendente. Basta aceitar a proposta teatral da série, regada a um tom surrealista aqui e acolá, para abraçar toda a sensibilidade e proeza da minissérie, ganhadora do Emmy e do Globo de Ouro de 2004. Destaque para Jeffrey Wright, o Bernard de Westworld, que interpreta aqui um icônico, cético e sensível personagem gay. Mas ressaltando: esse destaque fica a gosto pessoal. Não há alma viva neste elenco que não entregue cenas dignas de arrebatar premiações!