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Assista ao trailer: House of Cards | Temporada 6 | Trailer oficial [HD] | Netflix
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House Of Cards sempre foi uma série de recurso afiado, roteiro eficiente e atitudes de deixar muitos de queixo caído. A premissa de apresentar como funciona a política por trás dos muros do congresso, senado e Casa Branca foi o grande acerto por trazer a sabotagem e a corrupção em primeiro plano pela busca implacável pelo poder. Em muitos momentos ficamos chocados com os acontecimentos da série e até onde ia à capacidade do ser humano. Diversas vezes comparamos com os momentos políticos vivenciados no Brasil. Cada temporada em que se evoluía tínhamos mais certeza da força que a série tinha e proporcionava.

Já no processo de gravação da sua sexta temporada foi divulgado o escândalo envolvendo Kevin Spacey, ator que vivia Frank Underwood na série. A Netflix então tomou a decisão de afastar o ator e permanecer com a história, tendo assim um adiamento da data de estreia e uma mudança no roteiro, além da decisão dessa ser a última a ser lançada.

Ao poder desfrutar finalmente dos acontecimentos dessa última temporada, me bateu uma extrema decepção pelo o que foi apresentado frente ao potencial que a série e seus personagens tinham. A primeira decisão acertada foi reduzir o número de episódios de 13 para 8. O que achei que seria uma medida para evitar uma história arrastada e cenas desnecessárias provou-se não ser tão eficiente assim. Uns dois episódios foram arrastados demais e não trouxe informações suficientes para merecer um episódio inteiro só para eles. Para mim, algo ficou faltando ali e os personagens não pareciam ser os mesmos.

Consigo compreender a premissa de que a morte de Frank abalou nossos personagens, o que fez eles ficarem diferentes, mas em muitos momentos o potencial que eles tinham não foi usado em sua totalidade, sim, estou falando da Claire (Robin Wright). A mulher poderosa e imbatível que se mostrou durante toda a série e finalmente tinha sua hora de comandar a seu jeito ficou metade da temporada enquadrada a outros personagens e até mesmo a Frank. Era o seu momento, mas sempre davam um jeito de deixa-la em segundo plano. Aliás, fizeram ser ela contra o mundo durante toda a temporada.

É percebido que de fato queriam mostrar a força e a capacidade de se moldar, que sua história tinha muito embasamento e um quê de plot twist, mas sempre ficava a sensação de que ela estava sendo podada, mesmo quando estava com as rédeas da situação. Sempre dando a entender que ela estava a frente do que estava acontecendo, por muitas vezes duvidei que ela realmente estava comandando tudo aquilo tranquilamente. Visto o que ela vivenciou com seu vice Mark (Campbell Scott) e os irmãos Shepherd, mesmo com sua “vitória” sobre eles no final, ainda assim ela ficou muito a mercê dos dois.

E falando neles, Claire tinha uma relação antiga com os irmãos, principalmente Anette (Diane Lane), mas algo ali não ficou 100% claro pra mim. Que tipo de problema elas tiveram que culminou em todo esse ódio atual? As cenas das duas de fato foram as melhores da temporada, com todo o cinismo e veneno escorrendo por elas. Bill (Greg Kinnear), que era para ser o grande pé no saco da temporada, se resumiu em um cara amargurado, invejoso, incapaz de amar e se reconhecer no outro. Seu fim, doente e sozinho, resumiu bem tudo o que ele plantou nesses meses de discórdia à presidente.

Outro ponto muito importante da série foi tratar sobre o feminismo. Era inevitável tocar no tema por conta de Claire, mas em alguns pontos ela usou desse artifício em prol de sua conveniência. Lógico que houve cenas emblemáticas, como quando ela apresenta seu novo gabinete composto só por mulheres ou quando ela diz que não deixará nenhum homem mandar nela, mas em outros momentos isso era anulado como quando ela expõe a Secretária de Imprensa para encobrir seu romance com Tom Yates (Paul Sparks).

Ainda assim, pouco crédito é dado pela ascensão de Claire e pelo fato dela ser a primeira mulher presidente dos Estados Unidos. Constantemente ela é criticada e subestimada e, apesar disso ser muito comum na nossa realidade, essa era a oportunidade da série exaltar esse fato. Os flashbacks de seu passado abusivo dão autoridade para Claire reivindicar sua luta contra o machismo, mas se perde quando e é só mais uma forma dela ganhar alguma coisa.

Abro espaço aqui para fazer um comentário, achei as cenas de quebra de quarta parede muito forçadas, além de óbvias, longas e com grande parte do conteúdo sendo exposto de forma desnecessária. Faltou a suavidade e o quê de tapa na cara que o Frank sempre expunha em seus comentários para os telespectadores. Mas isso é só uma opinião pessoal minha. E falando em quebra de quarta parede, para mim a do Doug não acrescentou em nada e só banalizou o recurso.

Me incomodou o fato de mesmo Frank não estando em cena, seu nome ser constantemente citado e a história girar em torno dele. Lógico que esperava que alguns plots o envolvessem, até porque existia a necessidade de se ligar Doug (Michael Kelly) a Claire, mas os oito episódios tiveram motivações envolvendo ele, inclusive dos Shepherd. A história de Doug era a única plausível de ser guiada pelo fantasma de Frank, pois após a morte dele ele precisava encontrar um norte para se guiar.

Apesar de tudo Robin Wright se mostrou incrivelmente capaz de poder comandar a série sozinha, pena que o roteiro não a ajudou. Ela conseguiu brilhar em suas cenas e fazer o público ficar do seu lado. Mas preciso confessar, se tivesse conhecido somente a Claire da sexta temporada provavelmente a personagem não ia me ganhar da mesma forma.

Seu final é pautado pela obviedade e apesar de ter um conceito até fácil de ser entendido, achei fraco e entediante. Me acostumaram mal com os grandes acontecimentos de House Of Cards, que nessa temporada foram quase nulos. Alguns detalhes ficaram sem respostas, como o que estava na gravação que Claire recebeu de Doug, entre outros. Me irritou ficar as escuras com o que estava sendo mostrado nas cenas.

Sim, House Of Cards provou que soube ser criativa e inventiva ao permanecer fiel à sua história mesmo com os escândalos, entretanto não significa que foi o que todos esperavam e muito menos que supriu a expectativa para o final de uma história tão poderosa e manipulativa.