Ao ler a sinopse da série japonesa Alice in Borderland, flashs de Jogos Mortais, Sword Art Online e Jogos Vorazes me invadiram à mente. São inúmeras as comparações na internet. No entanto, quando se parte de uma premissa conhecida para criar seu próprio universo, é aí que avistamos o potencial da trama. Potência esta que tornou Alice, baseada em um mangá de sucesso, uma das séries mais divulgadas da NETFLIX em 2020 - com direito à renovação para uma 2° temporada.

Os motivos?

                                                    OS PERSONAGENS

Para nos importarmos com quem vive ou morre nesse tipo de série, é essencial uma dose de humanidade a cada personagem. Alice sabe disso, trazendo à tona as fragilidades e sutilezas de cada um dos jovens protagonistas. Cada um deles tinha suas preferências, objetivos e segredos... Até o momento em que foram, de alguma maneira, trazidos à uma Tokyo paralela.

Lá, são obrigados a participar de jogos mortais, que desafiam o senso de lógica e habilidades básicas. A cada jogo ganho, os personagens recebem tempo de vida em troca. Caso recuem, são mortos de qualquer maneira. A partir de dado momento, é impossível não se importar com o destino de cada um deles.

Seguindo os princípios de Game of Thrones, nossas expectativas aqui são quebradas a todo momento. Se apegar aos personagens é um risco constante. Afinal, qualquer um pode morrer. Qualquer um pode trair. Às vezes, o instinto de sobrevivência prevalece à mais pura das amizades.

                                                                    OS JOGOS

O roteiro nos presenteia com uma história familiar, porém com jogos extremamente criativos. Antes de cada partida, os jogadores recebem as instruções, bem como descobrem o naipe de cartas do jogo. Alguns indicam que é um jogo onde a traição é necessária. Já outros requerem o uso da lógica, e por aí vai.

Ainda que a intenção dos games seja liquidar todos os participantes, Arisu (o garoto de blusa branca) não demora a identificar as brechas de cada um. Há sempre uma maneira de vencer e continuar vivo e, a cada episódio, somos presenteados com sequências de ação incríveis, nos deixando aflitos por quase todo o capítulo.

Algo que os jogos também revelam são as características dos personagens. É certo que metade deles se mantém frio e racional durante as partidas. Os outros até tentam, mas se perdem na agonia e acabam pagando com suas vidas. Já Arisu, o protagonista, é a perfeita união entre emoção e lógica. Ao mesmo tempo em que ele luta para decifrar os jogos, há um turbilhão de emoções percorrendo suas veias. O garoto, que antes vivia à base de games, sem estudos e grandes objetivos, agora se vê encurralado por dilemas morais, raciocínios lógicos e decisões de vida ou morte.

                                                                   O UNIVERSO

Para explorar todo o potencial, no entanto, é necessário um pouco mais que cenas de ação e personagens densos. É importante que haja uma expansão do universo, para que possamos teorizar sobre o que de fato está acontecendo. O que se passa, por exemplo, enquanto os jovens não estão jogando? Quem está por trás do jogo? Agora que 99% da população de Tókio desapareceu e só restaram eles, como conviver em sociedade novamente? Como sobreviver?

Vemos, aqui, uma tentativa dos sobreviventes de criar um modelo de governo: uma comunidade chamada "A Praia". Mas não seria interessante, de fato, sem as devidas traições, personagens corruptos e plot twists aos quais estamos acostumados em tramas assim.

Para os fãs da finada "The Society" e da franquia "Jogos Vorazes", temos aqui uma ótima opção de entretenimento.