O compromisso em contar uma boa história é a premissa perfeita para qualquer adaptação que vale à pena. Muitas vezes o excesso de criatividade em cima de um enredo que já possui determinado potencial para brilhar de uma maneira mais orgânica e padrão, pode ser perigoso demais e até mesmo estragar um pouco da experiência final. Porém, uma história interessante, às vezes se torna mais importante que qualquer outra coisa.

A Vida e a História de Madam C. J. Walker (Self Made: Inspired by the Life of Madam C. J. Walker) é a nova série limitada da netflix e como esperado, talvez não seja nada pretensioso em dizer que além de ser uma história muito intrigante de se acompanhar, principalmente por ser baseada em fatos;  Octavia Spencer no papel principal foi o que salvou a produção como um todo em alguns aspectos específicos.

É necessário dizer que o estilo usado para contar a história, semelhante ao que aconteceu no filme, O Grande Gatsby (2013), onde grosseiramente falando, iremos buscar uma semelhança entre as obras, no fato em que ambas, tratam de um passado distante mas possuem em aspectos como; trilha sonora, movimentos de câmera e até mesmo algumas linhas no roteiro; que são muito mais de uma linguagem contemporânea. O que o filme, dirigido por Baz Luhrmann, faz com muito estilo, a nova minissérie da netflix não consegue realizar, o que acontece na verdade, é a criação de uma confusão na narrativa, ainda que não a estrague de fato.

Baseada na biografia On Her Own Ground: The Life and Times of Madam C.J. Walker de A’Lelia Bundles, a premissa é fácil e muito convidativa, onde a sinopse foi vendida como “uma história incontável e altamente irreverente” sobre a pioneira e magnata dos cuidados com os cabelos negros, Madam C. J. Walker e como ela conseguiu se tornar a primeira milionária americana com recorde registrado no Guiness Book e isso tudo bem na virada do século passado, uma época hostil para qualquer mulher, principalmente se ela fosse negra.

Em quatro episódios de quase 50 minutos cada, acompanhamos as várias fases da magnata, com uma linguagem facilmente encaixável em um gênero mais focado no drama que funcionaria muito mais sem as inserções de imaginação que acontecem. Esses momentos fantásticos que surgem como uma metáfora do momento que a protagonista está passando, como quando ela se imagina em um ringue de luta com sua rival no primeiro episódio, vão diminuindo ao longo da narrativa dos outros capítulos, ainda que continuem aparecendo.

Isso dá a impressão de que eles notaram que talvez não tenha funcionado tão bem na versão final e tentaram “consertar” a medida que tudo ia sendo filmado. Por esse motivo essas cenas parecem não tão encaixáveis quando se analisa o todo.

As atuações seguem o primor natural apresentado por Octavia, com Tiffany Hadish se saindo muito bem como A’lelia Walker, nos rendendo uma cena emocionante no último episódio, além de outro destaque como Carmen Ejogo, interpretando a grande antagonista, Addie.

É compreensível e imaginável que em uma indústria como Hollywood onde histórias com pessoas pretas mais reconhecidas terminem muitas vezes limitadas em filmes sobre escravidão ou sobre superação e geralmente são contadas de uma forma mais tradicional sem muitas novidades criativas, que talvez, os produtores; DeMane Davis, Eric Oberlando e Lena Cordina; além da própria Octavia Spencer (uma das produtoras executivas); tenham tentado apresentar essa narrativa de uma forma inovadora, diferente do que já se era esperado para esse tipo de enredo, principalmente sendo baseado em fatos. No entanto, o miolo da minissérie está justamente nos momentos mais tradicionais.

Com toda essa roupagem mais atual, a trilha sonora também possui muitas músicas contemporâneas com letras que exaltam a mulher negra, incluindo artistas como Janelle Monáe, Queen Latifah e Lady Wray. A escolha das músicas é a parte mais interessante dessa proposta em mesclar uma roupagem moderna para uma história de época. (Acesse aqui a playlist com a soundtrack no spotify).

Isso não significa que essas histórias precisam ser contadas de uma maneira sempre tradicional e sim que dessa forma que foi feito, funcionaria melhor. Contudo, a tentativa de dar um tom diferente a uma adaptação que poderia muito bem ter ficado em sua zona de conforto, é interessante e promissor para essa mesma indústria cinematográfica. 

Como um todo, a jornada de Madam C. J. Walker claramente também pode ser vista como fonte de vários ensinamentos de vida, no entanto, o que acaba se destacando muito mais é a própria força da personagem em manter seu "fogo nos olhos", sempre que algo dá errado. Ela parece ensinar muito mais com suas atitudes do que com grandes momentos reflexivos (que acontecem em algumas cenas).

Com ótimos personagens e tramas relacionáveis, A Vida e a História de Madam C. J. Walker consegue passar bastante verdade, mesmo que em alguns momentos confunda um pouco pelo estilo optado em contar sua narrativa, porém como um produto no geral se apresenta como uma aposta positiva de entretenimento, conhecimento e até inspiração.