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Assista ao trailer: ELITE: Trailer principal | Oficial [HD] | Netflix
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A “novelização” das séries muitas vezes pode ser tida como um grande defeito que as melhores produções acabam cometendo ao longo do tempo. Histórias inacabadas, plot twists exagerados, parentes desconhecidos que surgem do nada, mortes mal resolvidas e assassinos que conseguem se esconder facilmente... Todos esses aspectos podem acabar realmente tornando uma boa história um simples genérico, que vai chamar atenção exatamente por isso, não por ser especial.

Elite nasceu como uma novela, a criação de Carlos Montero e Dário Madrona é honesta ao se auterreferenciar como um novelão daqueles, o grande porém é como eles conseguiram fazer disso, algo atual, interessante e longe do comum.

A produção que se passa na escola e claramente chamou atenção de um público adolescente, atravessa sua primeira quebra de padrão e enquadra uma classificação de 18 anos. Esse patamar dá abertura para tornar a trama mais real e com menor possibilidade de se manter como um produto artificial. A personagem Marina vivida por María Pedraza (La Casa de Papel) é um dos grandes pilares da história, levando o público a entender e conseguir compreender o que pode vir a afligir crianças tão ricas e inconsequentes.

Sim, essa é uma história que fala em seu subtexto sobre a separação de classes sociais e como isso afeta a convivência e a evolução pessoal. Nada de novo dentro de uma temática adolescente, certo? Talvez não. A maneira como questões delicadas foram inseridas no texto, consegue interagir com o espectador, tornando aqueles dramas relacionáveis e ao mesmo tempo instigantes. É nesse ponto que o fato da produção lembrar em alguns momentos as características novelescas, ajuda a manter o suspense e criar um clima singular que consegue a proeza de diferir a história, como uma mistura muito bem feita.

O recurso de apresentar vários personagens com histórias importantes, com cada um tendo o seu momento de foco narrativo, se mostrou como uma ótima escolha de roteiro, porque reflete na maior identificação do público com cada um. A personalidade ambígua dos personagens e o não julgamento do próprio roteiro, aumenta ainda mais a atmosfera de não saber o que estamos esperando para o final. É claro que isso acabou causando alguns efeitos colaterais no que era para ser a narrativa principal.

A personagem Carla Rosón (Ester Espósito) representa uma dessas consequências. A forma como ela é apresentada é despretensiosa, mas não demora muito para reconhecermos sua face astuta, cínica (em uma interessante maneira) e manipuladora. Esses aspectos tornam a personagem, aos poucos, uma intrigante integrante da elite que usa de todos os seus artifícios para controlar as pessoas ao seu redor, esses, nem sempre estão relacionados a sua riqueza e sim simplesmente a sua personalidade forte, o que a difere claramente das personagens de Marina e Lucrecia.

Há uma espécie de quebra de expectativa na forma como essas últimas duas são construídas. Mesmo sendo personagens interessantes, Marina, por exemplo, exagera em seu cinismo e chega muito próxima da estupidez, enquanto Lucrecia sinceramente dá um pouco de sono quando tenta a todo custo alcançar um patamar de maquiavelismo que provavelmente não é seu. Ambas acabam se salvando quando levamos em conta o lado emocional, além da atuação das atrizes, que acaba tornando tudo mais humano e por isso compreensível, criando um sentimento de compaixão do espectador com suas narrativas.

Dá para perceber como o roteiro insistiu em ser atual e consciente, sabendo exatamente como desenvolver uma narrativa simples e tão previsível dentro de um espectro sensível e aparentemente interessado em retratar minorias sociais com clareza e respeito. O texto é claro sobre isso, e não perdoa o preconceito presente em seus personagens, mesmo aqueles a quem esperamos um pouco mais de sensatez. A série se propôs a retratar várias minorias demarcadas, trabalhando bem suas storylines e principalmente as conexões com a narrativa principal. Há uma fuga de estereotipar esses personagens, mesmo que questões como intolerância religiosa e falta de aceitação apareçam, elas são resguardadas pela construção de personagens complexos dentro de um roteiro sensível e pragmático a respeito dessas questões.

A Mistura de personagens bem construídos dentro de um roteiro instigante, além da classificação indicativa, representa uma produção que também pode chamar a atenção dos adultos, mas todo o contexto em que a história é ambientada não deixa dúvidas de que o público jovem-adulto é o foco.

A série peca ao mesmo tempo quando força o protagonismo, justamente naquele personagem que não emplaca e não possui carisma suficiente. Isso pode muito bem ser consertado na próxima temporada, que inclusive já está confirmada, dando o foco para aqueles personagens que realmente se mostraram com grande potencial.

A falta de pudor, dá pontos que Elite soube usar completamente a seu favor, investindo essa liberdade na própria construção de seus personagens, que possuem várias camadas e demonstram isso através do sexo, por exemplo.  A nudez serve para fazer enxergar esses personagens em seus mais profundos desejos e contribui para deixar a narrativa ainda mais realista do que acontece realmente nesse meio. Todas essas boas construções fazem com que a narrativa do assassinato, não roube completamente o crédito de um ótimo roteiro.

O personagem escolhido para ser morto, representa a coragem da narrativa e a escolha do momento certo para a revelação é provavelmente o que faz o espectador querer assistir até o último episódio.

Elite, é uma ótima produção que mistura drama, mistério e sexo em uma narrativa divertida, rápida e dinâmica se comprometendo em conectar-se com o mundo atual, mesmo que alguns personagens não cheguem a impressionar, a forma como todos os dramas se conectam, cria o sentimento de urgência que está fazendo a gente esperar loucamente pela próxima temporada.

HIGHLIGHTS:

1 – O threesome entre Carla, Polo e Christian rendeu momentos de puríssimo golpe baixo com quem escolheu assistir essa série sozinho...

2 – Alguém explica como o Samuel consegue ser tão desnecessário o tempo todo?

3 – Alguém também espera que os roteiristas vão fazer o Omar entrar na escola na próxima temporada?

4 – Vocês realmente acreditam que Nadia e Gusmán realmente não vão voltar a se pegar quando ela voltar a escola?

5 – Omar e Ander é o casal mais fofo que existe dentro dessa série.