Em 1988, o roteirista Don Mancini criava um ícone do terror. Chucky, um boneco possuído pelo espírito de um serial killer, amedrontou diversas crianças ao longo das décadas - tanto dentro quanto fora da tela. Hoje, quase 34 anos depois, analisamos o legado que definiu a carreira de Don e alimentou o terror enquanto gênero.

Ao todo, foram realizados sete filmes da franquia de Chucky (todos assinados por Don Mancini). Enquanto os três primeiros, ainda intitulados Brinquedo Assassino, priorizavam o terror como elemento fundamental do roteiro, o quarto e o quinto se permitiram um longo vôo. Quem saiu no lucro foi a mitologia da série, tornando-se mais expansiva do que nunca, com direito à uma esposa de Chucky e até um filho de gênero fluido.

A comédia e o trash, por outro lado, dominaram estes dois longas, que quase afundaram a fanquia de vez. Enquanto os protagonistas tornavam-se cada vez mais icônicos, o roteiro empobrecia gradualmente. Os longas de 2013 e 2017 serviram como retomada do suspense/terror que consagrou Chucky, mas foi somente em 2021 que tivemos o maior produto audiovisual de todos: a série.

Como bem nos ensinou Pânico (2022), requels se mostram cada vez mais necessárias, principalmente quando falamos de franquias que marcaram a infância e juventude de milhares de fãs. Mas o que diabos é uma requel? Bem, nem tanto uma sequência, e nem tanto um reset na franquia. Trata-se de uma sequência que retoma o universo e a aura do original, inserindo novos personagens e resgatando o antigo elenco. Halloween e Star Wars, por exemplo, seguiram à risca essas regras. Se for possível transportar a trama para o formato de série, talvez seja mais adequado ainda. Creio que o padrão seriado era justamente o que faltava para Chucky conquistar de vez tanto público quanto crítica.

Outra mudança foi o universo onde Chucky promove suas matanças: agora, ele penetra o ambiente high school. É lá que Jake encontra o frágil Jake, um adolescente gay e pobre que sofre com a perda da mãe e o pai homofóbico. Para piorar, a namorada de seu primo possui um imenso prazer em torturá-lo na escola, e ninguém parece se importar. Chucky, então, apresenta o assassinato como arma de resolução para todos os problemas do jovem.

No entanto, a sequência de eventos se mostra completamente imprevisível. O absurdo do horror continua presente, ora carregado de comédia ou de puro horror. O roteiro também é generoso com seus personagens: todas as relações amorosas, familiares e amigáveis são bem trabalhadas ao longo dos oito episódios.

Todos, desde a patricinha até o affair do protagonista, estão recheados de camadas, apimentadas pelo texto afiado de Dom Mancini. O elenco jovem, por sinal, se mostrou um chamariz: vemos atores de 14-16 anos interpretando adolescentes. O tipo de raridade que vale a pena valorizar, não só pelo talento do elenco, mas levando em conta que escalar atores menores de idade requer uma redução de carga horária e várias outras imposições da legislação.

Já o boneco Chucky, para nossa sorte, se mostra mais à vontade do que nunca. Seu icônico dublador, que fez sua voz durante toda a franquia de filmes, retorna com todo o bom humor e sadismo do personagem. O serial killer está mais à vontade do que nunca, com direito à uma cena de massacre antológica no último episódio: as facadas podem vir de onde você menos espera, afinal de contas...

A diversão é garantida, tanto pela agilidade do roteiro quanto pelo retorno dos personagens legados. Andy, Tiffany, Nica e até mesmo Kyle esperam por você, nesta jornada que já tem segunda temporada garantida. Para os fãs da franquia, a série é mais que diversão: é uma verdadeira carta de amor, que promete dar ainda mais frutos ao longo dos anos.