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Assista ao trailer: O Mundo Sombrio de Sabrina | Trailer oficial [HD] | Netflix
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A Simbologia de Sabrina

Por esse motivo ela não teria aceitado uma posição inferior em relação ao homem, pois sendo criada da mesma forma, exigia os mesmos direitos, não aceitou uma posição submissa e assim desentendeu-se com Adão”, esse trecho foi retirado da edição hebraica e inglesa do “The Babylonian Talmud” que fala sobre Lilith, a figura que representaria a verdadeira primeira mulher de Adão, e que pode ser relacionada a uma mulher forte e que se considera igual em poder ao homem e que não abaixa a cabeça simplesmente por ser mulher.

O Mundo sombrio de Sabrina é uma série de terror e aventura sobrenatural que foi desenvolvida por Roberto Aguirre-Sacasa para a Netflix.

Sem mais delongas, todos sabemos que essa é uma nova roupagem para a série lá dos anos noventa que nada tem a ver com essa nova versão. Encarar essa produção dentro de vários, e digo realmente inúmeros, aspectos que qualificam o nosso mundo atualmente só a faz crescer enquanto produto que faz questão de tomar para si, a responsabilidade de tratar sobre temas tão vigentes.

O universo de Sabrina é um deleite para os amantes de filmes de terror-aventura, com inúmeras referências que vão da Noite dos Mortos-Vivos (1968), passam por O Bebê de Rosemary do mesmo ano e até mesmo, pasmem, Crepúsculo (2008) que daqui a cinco anos vai ser encarado como um filme cult mal compreendido em sua época. Sem nenhum exagero, chega a ser atraente a forma como todo esse novo mundo nos é apresentado. Indo do design de produção até o próprio roteiro, dá pra ver que a produção realmente se empenhou em trazer não só uma nova roupagem a um enredo inicial já conhecido, mas sim apresenta-lo com um verdadeiro recheio que não está ali apenas para ocupar um espaço vazio.

O medo de muita gente não se concretizou, Sabrina Spellman (Kiernan Shipka) está longe de ser uma protagonista chata, sonsa e apática ou tampouco o contrário, o que poderia ser uma personagem cínica, estúpida e impulsiva demais. Inesperado, talvez seja a palavra que rege o personagem representado em Spellman.  Esse não é um daqueles personagens que são o tempo todo ajudados pelo enredo com o intuito de manterem seu protagonismo. Aqui, Sabrina é ativa, sabe o que quer, mesmo que em alguns momentos duvide de muitas coisas. A história principal de que se precisa escolher entre dois lados é usada para mostrar o quanto o ímpeto da juventude pode ser importante para fazer com que coisas que consideramos concretas e imutáveis, sejam finalmente questionadas e porque não mudadas?

Sabrina usa várias camadas de sua personalidade e não tem medo de ser sombria algumas vezes...

As questões aparecem no roteiro, sem timidez e com a maior carga possível de conteúdo que consegue se misturar na história da série sem se tornar chato e explicativo demais. O feminismo está enraizado no enredo como parte das personagens que são conscientes de suas posições como mulheres dentro de uma sociedade patriarcal. As críticas que aparecem, vem não por meio de discursos óbvios que já foram ouvidos antes e sim através de personagens que elevam várias de suas características interessantes acima do simples fato do que significa a sua sexualidade ou identidade de gênero. Ambrose Spellman, vivido pelo fofo Chance Perdomo, é o primo bruxo de Sabrina, então apresentado como um personagem extremamente carismático e inteligente e que além disso é pansexual, mas essa nem de longe é a sua história principal.

Aliás, todo o contexto sexual presente na série pode assustar de primeira. Em vários momentos é explicado através de alguns personagens pertencentes a “The Church of Night”, a representação da religião de Sabrina e sua família, que o sexo é tido como um prazer e que pode ser desfrutado de inúmeras maneiras a qual um bruxo, por exemplo, achar melhor e sem culpa. Desconsiderando assim, questões como monogamia tão defendidas ao longo da história pelas religiões dominantes. Sabrina mais uma vez surpreende por ser um personagem que não exatamente é sonso a respeito dessas questões. Em uma das cenas, ao acordar no meio da noite após ouvir alguns grunhidos e um som alto, a protagonista dá de cara com uma verdadeira orgia que envolve vários personagens cruciais no que poderia representar mais uma construção clichê, em que seu possível interesse amoroso e seu primo Ambrose, estão envolvidos com várias garotas de sua escola.

Normalmente se esperaria que a personagem teria uma reação ruim e julgaria o comportamento de ambos, mas Sabrina é blasé e vai dormir de novo, ou seja, a personagem em si é a personificação de uma garota de 16 anos, inteligente e que está mais preocupada em resolver seus problemas do que comparar a sua vida sexual a de qualquer outra pessoa.

A crítica a respeito do que realmente representa a religião e seus efeitos sobre as pessoas está presente do começo ao fim nessa primeira temporada. Como sendo metade humana e metade bruxa, ao completar seus 16 anos, Sabrina precisa passar pelo ritual de assinar seu nome no “Livro da Besta”, renunciando sua vida como mortal e jurando obedecer as ordens do Senhor das trevas. Toda a questão da personagem inicialmente rejeitar o que seria um comportamento comum e “correto” dentro de sua família e sua possível religião, reacende questões sobre como o jovem pode ser coagido pela sua própria família a reproduzir ensinamentos e costumes que não deseja pra si.

A rebelião de Sabrina é a personificação do jovem que quer ser livre, mas ainda assim não é completamente, pois por mais que tenha consciência de sua própria escolha, ainda não entende quais serão as consequências que irá causar. A forma como os outros personagens, incluindo principalmente a figura do “High Priest” ou Father Blackwood (Richard Coyle), tentam manipular Sabrina é a maneira perfeita de mostrar como a religião pode oferecer coisas ao jovem sem que o mesmo tenha discernimento para saber o que pode perder.

Michele Gomez encarna um dos personagens mais memoráveis desse primeiro ano

O simbolismo da revolta presente e também na figura precisa da mulher está personificado em personagens como Mary Wardwell / Madame Satã (Michele Gomez), que retrata a figura de uma mulher astuta, manipuladora e maquiavélica em um nível muito maior ao seu personagem masculino equivalente na série.

Dá pra comparar assim toda a abordagem da figura feminina dentro da série em suas inúmeras variações a citação sobre Lilith lá no começo, que representa uma mulher que em uma grossa interpretação pode vir a ser julgada simplesmente por buscar o seu livre arbítrio. A figura da bruxa está muito ligada ao poder da escolha da mulher frente a sociedade e como por consequência ela pode vir a ser julgada como algo ruim, simplesmente pelo fato de não estar seguindo um padrão que favorece a figura do homem.

Aspectos Técnicos e Orgânicos

As atuações seguem a força de um roteiro muito bem escrito e que entende seus personagens como construções com personalidades extremamente demarcadas e distintas entre si, com muitas palmas para Lucy Davis como Hilda Spelman e Tati Gabrielle como Prudence Night, e sim o elenco feminino da série claramente ganha o destaque aqui.

Alguns nomes como Harvey Kinkle (Ross Lynch), o namorado mortal de Sabrina, acaba barrando em velhos clichês como o menino besta que provavelmente vai atrapalhar a jornada da namorada que é o centro de uma narrativa de transformação e aprendizado - a velha jornada do herói, nesse caso, uma heroína que é forte e não mede esforços para ajudar mesmo a quem não merece.

 Como dito antes, o design da série é uma construção incrível e que dá toda uma identidade forte, desde a roupagem da série até mesmo a câmera e os efeitos utilizados. Tudo bem que aquele efeito que deixa a imagem turva nos primeiros momentos foi estranho, mas depois dá pra acostumar e acabar nem percebendo...

Fica meio claro que ali na metade da temporada, os roteiristas inseriram algumas narrativas para engordar a quantidade de tramas para a série ter mais episódios. O Episódio 1x05, "Dreams in a Witch House" foi o mais fraco e acabou não tendo tanta importância ao final, se tornando praticamente um filler perdido que mais atrasou a narrativa principal. Por outro lado, a partir do episódio 1x07 "Feast of Feasts", a história finalmente engata novamente e temos vários pontos altos, incluindo algumas cenas icônicas e perturbadoras que revelaram como os roteiristas foram corajosos e principalmente como se não bastasse, o quanto os personagens são complexos, principalmente Sabrina quando se trata de uma determinada cena...

No mais, a série apresenta uma incrível apresentação de universo, criando uma primeira temporada que assusta de primeira mas rapidamente acolhe o espectador, se perdendo um pouco no meio, mas no geral trazendo uma narrativa que chega perto de um alto nível de construção de enredo para a apresentação de uma história possuindo rsrs um potencial incrível de entretenimento inteligente.