Criado pelo Polonês Andrzej Sapkowski, o universo de The Witcher é sem dúvida um dos maiores exemplos de sucesso inesperado. Não, ainda não estamos falando da série. É uma história curiosa, mas acredite, na década de 80, Andrzej criou um certo bruxo conhecido como Geralt de Rívia para participar de um concurso. O fato mais chamativo aqui é que de repente, a história começou a circular e ganhar o mundo, resultando em um sucesso estrondoso que rendeu vários livros - muito bem avaliados - e uma saga de games. O que podemos dizer disso? Bem, nada como um dose de talento e duas de sorte. Agora, estrelada por Henry Cavill, a jornada de Geralt chega à Netflix em uma série que tem os livros como pilar principal, e carrega consigo a sorte do polonês para angariar fãs ao redor do mundo. 

Geralt é um mutante extremamente habilidoso em combate e que as vezes mata monstros e qualquer outra criatura mágica em troca de dinheiro. Não há nada complexo nessa visão de mundo, e é justamente nessa simplicidade de conceitos sobre a sobrevivência que a mão do autor se destaca. A série segue o mesmo caminho e explora os personagens ao redor de Geralt para brincar com a moralidade sobre a luz e as trevas, que aos olhos do bruxo, não são tão diferentes assim. 

Cada episódio da série se sustenta em uma trama e fica responsável por apresentar novos personagens, lugares e situações com as quais Geralt deve encarar, e consequentemente acaba se envolvendo e interferindo nessa grande teia de fantasia. Essa variedade de situações ajuda a dar um ritmo mais frenético, por vezes, rápido até demais. No entanto, o fato do Bruxo estar sempre em movimento, sempre em uma jornada inesperada, ajuda a nos apresentar a todo esse vasto universo. Ele serve como um guia, de fato. É nosso "waze" entre as vilas e reinos, entre as criaturas e feiticeiros. 

Henry Cavill se destaca, e não apenas pelo fato de ser o protagonista. Há um trabalho maior ali. Além da vontade do ator, e isso conta muito, pois para os mais sensíveis é possível sentir a paixão e entrega na atuação, Cavill dá uma personalidade para Geralt, o deixando mais rico e familiar. O personagem não é expressivo, então é preciso uma sensibilidade e delicadeza para passar o sentimento e qualquer outro aspecto de atuação através do corpo, da voz; elementos que saem da esfera da expressão facial. Geralt é um homem bronco, forte, cético e convicto. Tem uma bondade no coração e costuma ter uma visão mais cinza - fugindo do preto no branco - sobre o mundo. A luz e a escuridão, o errado e o certo, são nuances de uma coisa única que co-existem e se equilibram. 

Se a trama tem fortes traços do estúdio Polonês, a parte estética não foge disso. A coerência entre roteiro e visual está justamente nessa face polonesa que se diferencia de outras produções que abordam o mesmo período ou se assemelham em alguns aspectos narrativos. A originalidade dos livros, e agora, da série, vem do fato dela ter nascido longe de grandes centros industriais de entretenimento, como os Estados Unidos ou a Inglaterra. Talvez por isso a série mantenha a fidelidade ao trabalho de seu autor, e possui até um cuidado ao manter algumas partes do livro no roteiro, como por exemplo, o monólogo de Geralt sobre a natureza do mal em "O Mal Menor".

Porém, como tudo na vida, a série tem seus defeitos. A maior parte deles está no desenvolvimento da narrativa e isso é crônico, pois vem dos livros. As primeiras obras literárias de The Witcher nunca souberam aproveitar todo o potencial do universo criado, e por vezes se perdiam ao ignorar a potência do subtexto para expor demais as intenções das cenas e dos personagens. O resultado é um só. A gente percebe facilmente sobre as motivações dos personagens, mas eles precisam explicar dezenas de vezes ao longo dos episódios. Esses momentos expositivos enfraquecem a força da trama.

A ideia de contar a série em linhas temporais paralelas à de Geralt, na promessa de eventualmente juntá-las é um bônus inesperado e dá uma personalidade forte e coragem ao roteiro, que se mantém firme e coerente, e ao contrários dos diálogos, não perde tempo explicando isso. "Você que lute" para perceber que a série se passa em três épocas diferentes. O mais bonito dessa personalidade, é perceber que os roteiristas tiveram o mesmo cuidado com as três linhas temporais. 

Henry Cavill bateu o pé e manteve sua ideia de fazer as próprias cenas de ação sem dublês. O resultado é muito bom. Além das cenas de luta serem muito bem coreografadas e dirigidas, tem um saborzinho especial quando a gente sabe que é o próprio ator que está ali.

No fim, o saldo é bastante positivo. The Witcher tem tudo para se tornar um fenômeno cultural, pois mantém uma estética diferenciada e bonita, um CGI humilde, típico da televisão; efeitos mais populares, e alimenta a promessa de expandir ainda mais essa mitologia. A primeira temporada serve claramente como uma apresentação avançada ao universo de magia e as motivações de cada personagem. É uma construção coerente e bastante segura, que parece saber muito bem onde chegar. A promessa de unir as linhas do tempo se cumpre, e encerra o arco do primeiro ano com um gostinho muito doce de quero mais. Há tempo e formas de corrigir os erros e definir ao certo um padrão de qualidade um pouco mais refinado. Ainda assim, a produção acerta e entrega uma ótima série. Há ótimos personagens e desenvolvimento dos mesmos, como é caso da excepcional Yennefer de vengerberg e Jaskier, que em determinados momentos roubam a série. 

E cá entre nós, Henry Cavill já é um ótimo motivo para ver a série. ;)