Uma pequena cidade de interior, repleta de personagens excêntricos e tragédias que se repetem ciclicamente. Inúmeras séries de mistério se valem desta fórmula, e poucas são as que se mantém vivas no espectador ao final. Felizmente, creio que Desalma se encaixa na exceção. 

A trama se passa nos dias atuais, na fictícia Brígida -uma cidadezinha no sul do Brasil. A fotografia refinada encanta de imediato, registrando a belíssima serra gaúcha em planos abertos e zenitais (quando a câmera aponta de cima para baixo). De cara, a atmosfera natural e pacata já define a ambientação sombria do local.

O misticismo, aqui, é crença comum entre os habitante. Afinal, por se tratar de uma colônia ucraniana no sul do Brasil, somos apresentados às mais diversas tradições — seja pelas vestimentas, pela mitologia de Brígida ou até mesmo pela frieza dos moradores, bem como seu linguajar truncado. Os fãs do terror Midsommar (2019) reconhecerão de cara os aspectos culturais.

Se a primeira impressão é a de uma cidadezinha congelada no tempo, logo entendemos as engrenagens que a mantém funcionando, bem como os traumas que a aprisionam no passado. Após uma festa de Ivana Kupala — tradicional comemoração eslava no solstício de verão — Brígida é palco de um trágico assassinato, fazendo com que a data não seja festejada por 30 anos.

Em 2018, no entanto, os personagens querem retomar a tradição. Afinal, é a única maneira de suavizar as cicatrizes do tempo, não é mesmo? Ao menos, é nisso que eles escolhem acreditar...

Se por um lado a empolgação toma conta dos jovens, o medo permeia o núcleo adulto da trama. As personagens de Cláudia Abreu e Maria Ribeiro, por exemplo, tentam desvendar os acontecimentos de Brígida - eventos estes que vão desde animais em surtos psicóticos e possessões a rituais nas densas florestas.

O instinto materno, aqui, é o principal motor na busca por respostas: enquanto Ignes (Cláudia) crê que o comportamento bizarro do filho esteja ligado à uma assombração, Giovana (Maria) lida com o repentino suicídio do marido e os segredos do homem, tendo ainda de criar as duas filhas e se adaptar à nova cidade. A dupla de veteranas transmite bem a solidão da maternidade, a sensação de que só podem contar com elas mesmas.

Completando a tríade de protagonistas, temos a interessantíssima Haia — interpretada com maestria por Cássia Kiss —, uma espécie de curandeira, tida por todos como bruxa. Ainda que seja ridicularizada e temida pelas pessoas, é à Haia que elas recorrem quando a realidade parece bruta demais. Quando Deus e a ciência parecem ter lhes dado às costas. Talvez este seja, aqui, o ponto em comum entre os personagens: todos estão, sem exceção, na busca pela paz interior. Para alguns, o sobrenatural é o empecilho. Para outros, é justamente a única saída.

Somado ao roteiro bem amarrado e às ótimas atuações, temos uma ambientação pautada no terror e suspense. Ainda que utilizando artifícios padrões dos gêneros, a direção é competente em gerar o devido terror psicológico, bem como constrói bons ganchos ao final de cada capítulo.

Falando de estrutura narrativa, acompanhamos o suspense através de duas linhas temporais: em 1988, descobrindo o que de fato aconteceu na festa de Ivana Kupala, e em 2018, quando a tragédia ameaça se repetir. Ainda que se valha de um formato padrão, Desalma é recheada de reviravoltas bem trabalhadas e personagens multifacetados, sabendo explorar quase todo o potencial de seu universo.

Por fim, a série nos presenteia com uma trilha sonora original de primeira, composta por Alexander Würtz. Quem? Ninguém menos que o sonoplasta da série alemã Dark (2018). Mais um acerto dos Estúdios Globo. Apesar das constantes comparações entre as duas tramas, os caminhos aqui trilhados não seguem a linha sci-fi, e sim a do mistério sobrenatural.

Para quem busca se surpreender com uma produção nacional, Desalma é um prato cheio, disponível com dez episódios na Globoplay.