O segundo ano da série conseguiu um feito que apenas Demolidor tinha conseguido até então: Se aprofundar no lado mais humano e real dos personagens, explicitando todos os seus dilemas morais, éticos e como pano de fundo, temos super-poderes e muito álcool.

A segunda temporada de Jessica Jones caminha em um ritmo muito próprio e trabalha os personagens de uma forma especial, levando em conjunto todas as histórias subjacentes, e não apenas focando no enredo principal e colando o mundo ao redor em torno disso. A série cria o contexto e avança de uma forma tão sutil e profunda, que conseguimos de fato entender a proposta do programa. Aqui, sabemos que Jessica é uma bagunça por completo, que é uma mulher normal com problemas e... poderes, e isso é algo que não irá mudar. No entanto, com passos um pouco mais lentos nos 4 primeiros episódios, podemos nos sentir dentro da mente de Jones e entender os impactos que o incrível vilão do ano anterior, Killgrave, deixou. Essa passada um pouco mais lenta - e isso não é um problema - se mostra totalmente necessária à medida que vamos chegando ao final da série. A atmosfera criada e os plots coadjuvantes pesam na frente e contribuem para um roteiro coeso que sabe muito bem onde quer chegar.

Se no primeiro ano da série, tivemos uma Jessica desconectada com sua família - digo, as pessoas em si, e não os eventos -, nesse ano temos um caminho inverso, onde a família é o centro da história e leva a série, e mais, aqui temos todos os demônios internos sendo bem trabalhados e guiando a narrativa.

Mas bem, Killgrave não é mais um problema, de fato. Mesmo assim, o passado ainda a assombra e podemos culpar Trish por isso. E falando nisso, a irmã adotiva de Jessica puxa a narrativa para outro lado. A apresentadora sempre se viu menor do que Jones, por causa de seus poderes, e por isso, tenta de todas as formas ser a heroína que Jessica não quer ser. Assim como qualquer pessoa “comum” em um mundo onde super-heróis rejeitam seus poderes, Trish além de tudo quer fazer mais, quer ir além. Sua parte na série conduz Jessica a encarar de frente o passado e descobrir coisas das quais sempre fugiu. Trish, por outro lado, larga mão de sua carreira e estabilidade para ser - ou tentar ser - a justiceira que luta pelos necessitados, porém, fazendo isso da forma errada, se enfiando em problemas e dificultando as decisões de Jessica. (inclusive no fim da temporada, o que pode mudar tudo entre as duas); Trish ganha um peso na vida de Jones, já que carrega o fardo de sua mãe histérica e problemática e com isso, temos uma presença forte do passado entre as duas e conseguimos entender com mais clareza as causas das brigas entre Dorothy (mãe de Trish) e Jessica e Dorothy e Trish.

No primeiro ano, sabíamos desde o primeiro episódio contra quem Jessica estava lutando. Neste ano seguimos por outro lado. Até a metade da série não sabemos de fato quem ou o quê é o antagonista de Jones, e enquanto isso pode ser considerado um ponto negativo para alguns, vejo como algo promissor que me levou ainda mais para dentro da história. Essa incerteza sobre o oponente de Jessica nos faz entendê-la ainda mais e perceber que para ela qualquer um pode ser um vilão e que por muitas vezes, a própria indefinição disso resulta numa briga interna, levando-a a se questionar se o problema não é si mesma.

Assim como toda sequência, o segundo ano da série perde o ritmo algumas vezes alternando entre as possibilidades de quem é o verdadeiro vilão, mas no mesmo momento, nos apresenta outras visões de certos personagens, fazendo com que percebamos como é fácil ultrapassar os limites e cometer um erro, julgando ou matando alguém que de fato não é um vilão. Nesse aspecto, a série procura humanizar todos os personagens, e até quando as ações são ruins, temos a apresentação do outro lado da história e entendemos as motivações. Esse é o caso da IGH. Instituição ilegal que fez experimentos com humanos, o que resultou em super-poderes como efeito colateral. O cientista à frente do programa, Karl, é apontado como o principal oponente de Jessica, mas com o tempo e o avançar dos episódios percebemos que não.

Neste ano temos um arco mais aprofundado de Jeri Hogarth e Malcolm, além de Trish. A advogada elegante agora tem problemas mais sérios para se preocupar fora dos tribunais. Sua própria vida é o fator decisivo sobre o que fazer. Com isso, temos a quebra de toda a barreira que Jeri mantém, sendo fria, calculista, arrogante e confiante de si. Suas convicções caem por terra e a forma como lida com isso ressalta o quão grande é sua humanidade e que no fim, ela é como Jessica, Malcolm, eu ou você. Uma pessoa comum com centenas de defeitos e fraquezas que podem ser explorados. Malcolm, por sua vez, ganha uma presença louvável e conseguimos perceber que seu vício - causado por Killgrave na primeira temporada - pode ter sido curado, mas algumas marcas jamais poderão ser apagadas. O vizinho de Jones é o equilíbrio perfeito da série. Ele busca estar no meio dos dois mundos - seu próprio e o de Jessica - e acaba percebendo que é impossível estar em cima do muro. É preciso escolher o seu lado, e estar ao lado de Jessica ou Trish pode ter o mesmo efeito que as drogas tinham sobre si.

Não podemos deixar de ressaltar a perfeita atuação de Kristen Ritter numa performance de durona que nunca perde o carisma, e de seu elenco de apoio que se provou em uma temporada muito mais difícil. O destaque fica claramente para Rachael Taylor (Trish), que rouba a cena em diversos momentos, mas Carrie-Anne Moss (Jeri) e Eka Darville (Malcolm) também souberam evoluir muito bem em seus papéis, que ultrapassaram o status de companheiros da principal. Janet McTeer (Alissa), com sua personalidade psicótica e problemática, brilha em um complicado papel. David Tennant, por fim, em sua curta participação, faz jus a Kilgrave em uma aparição que não é nada gratuita, e serve perfeitamente para explicitar as fraquezas da protagonista.

No fim, tiramos a conclusão de que apesar do crescimento de Jessica Jones, ela nunca irá superar as marcas de seu passado, e nem deveria, porque de uma vez por todas, percebeu que tudo ali faz parte de quem é, mesmo com todos os fardos que isso possa trazer. Vale dizer também que o método de direção serviu para dar uma visão mais particular do lado feminino da série, principalmente com Jessica tentando se entender no amor, com um rapaz que, digamos, não é bem o padrão que Jessica podia arrumar. A Netflix e a Marvel tomaram uma decisão acertada ao trazer apenas diretoras para os episódios.


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