Em primeiro lugar, a série que representa a investida da Netflix no mundo dos super-heróis cresceu muito de um ano para o outro. Se na primeira temporada a gente se deparou com uma produção meio indecisa sobre o caminho que ia trilhar juntamente com a falta de unanimidade e coesão sobre o tom, tivemos agora uma segunda temporada que coloca as cartas na mesa e apresenta uma visão autêntica e coerente, que abraça os erros do ano anterior, e os expande para tentar consertá-los ou ao menos dar um contexto mais bem construído, minimizando uma ou outra impressão negativa que tinha deixado. 

Não somente a série se encontrou enquanto produto para um público específico, como também soube lidar com seus personagens. No ano anterior, tínhamos bons personagens que se agarraram a uma áurea de pseudocomplexos demais para serem entendidos por quem nunca soube como viver como nós e bla bla bla, que acabaram ficando chatos demais beirando a breguice de um pseudoromance adolescente que se julga um best-seller. Esses problemas não existem mais.

A dinâmica melhorou a partir da ruptura dessa união que criou um conflito mais atrativo e coerente. Surgiu então melhores oportunidades para aprofundar esses seres humanos excêntricos, ao mesmo tempo em que se dava um contexto para suas ações do ano anterior, que a gente nem se lembra tanto assim. 

No resumo da obra, acho que agora sim, estamos vendo The Umbrella Academy como ela foi idealizada. Madura, confiante e debochada. Uma série que se sustenta nas clássicas teorias de viagem no tempo, e expande a mitologia enquanto toma para si uma direção artística que só agrega valor ao roteiro. Ainda há um outro indício de “medo” para arriscar em algumas situações, mas fica claro também que isso vai ocorrer nos próximos anos e os gatilhos para isso estão bem dados. Se a série quer ampliar seu alcance - e isso deve andar junto com qualidade -, explorar Allison, Klaus e o número 5 são as chaves para isso. 

Ao que parece, a receita está dada: Continuar investindo no visual colorido, escancarado e cômico. Ir ainda mais longe com essa mescla de super-heróis mundanos, imperfeitos e adultos. Ser cada vez mais irônico, debochado e sem vergonha mesmo de ser uma série de super-heróis com uma nova pegada. E abraçar ainda mais forte a parte musical que dá todo um charme para as sequências musicais.

Ficou mais do que claro o potencial que a série tem para continuar mesclando toda essa doideira com os assuntos relevantes que precisam ser abordados, sem perder essa coisa divertida que ela é. Esse mergulho em pautas urgentes dá um senso de maturidade para a produção que, se bem feita, como foi no segundo ano, só pode crescer, e é isso o que a gente quer. Os personagens são bons e a gente se apega bem a eles. Cada um dos irmãos parece viver em um mundo individual onde as pautas mais urgentes são diferentes em cada um deles, e é isso o que torna The Umbrella Academy tão gostosa de ver e tão promissora.

Mas então, vamos falar um pouquinho da história do segundo ano?


Os Hargreeves aparecem em Dallas, nos Estados Unidos, em diferentes momentos da década de 1960. Separados, cada um dos irmãos constrói uma nova vida na cidade sem saber o paradeiro do restante da família. O encontro só acontece quando Número Cinco descobre que o apocalipse que tentavam evitar na temporada anterior os seguiu através da viagem temporal e agora ele está destinado a acontecer cerca de 50 anos mais cedo. 

Parar em 1960 não parece ter sido um acidente, mas o cenário se torna perfeito para que a gente possa explorar a diversidade que The Umbrella Academy apresenta. Construindo suas vidas aceitando que não havia como voltar para casa, alguns dos irmãos se unem a movimentos importantes da história. Enquanto Allison integra o movimento norte-americano da reivindicação de direitos civis para a população negra, Vanya se envolve com uma mulher, mãe de família clássica dos anos 60, e traz a pauta lésbica para um tempo onde a homossexualidade era dada como doença. Sem falar no Klaus...

 Abordar e refletir sobre essas pautas, traz ao roteiro uma qualidade que não havia no ano anterior: O potencial de semear a mitologia do universo da série para além dos sete envolvidos e os atingidos em primeira instância por eles. 

Com tudo isso, o saldo é extremamente positivo. A dinâmica entre os personagens é boa, os diálogos são rápidos e cheios de ironias e tiradas inteligentes que transformam até momentos que poderia ser clichês ou expositivos demais em momento legais e divertidos em que se brinca com o gênero sem temer.